"Isto é racismo": Atriz negra alvo de ataques reacende debate aceso
Cynthia Erivo e a sua namorada Lena Waithe
Cynthia Erivo, estrela do filme Wicked 2, viu-se no
centro de um debate acalorado depois de se tornar alvo constante de chacota e
memes nas redes sociais durante a promoção do filme. Alguns consideram tudo
“apenas uma brincadeira”, enquanto outros denunciam uma “dinâmica racista” e
“verdadeiro assédio online”, reacendendo a discussão sobre a forma como
mulheres negras são tratadas na cultura digital.
Atriz é visada através de memes
Cynthia Erivo, que interpreta Elphaba ao lado de Ariana Grande na adaptação cinematográfica de Wicked, tornou-se omnipresente em vídeos, montagens e paródias que circulam no X (antigo Twitter), TikTok e outras plataformas. Trechos de entrevistas, aparições na passadeira vermelha ou excertos dos trailers são isolados, exagerados e ridicularizados, transformando-se em “referências” virais usadas fora de contexto.
Para alguns utilizadores, trata-se apenas de uma
“brincadeira inofensiva”, um “humor típico das redes sociais”, que não diminui
o reconhecimento do seu trabalho como atriz. Outros, porém, apontam que a
repetição, o volume de conteúdos e o foco quase obsessivo nela tornam essa
zombaria uma forma de assédio online.
"Isto é racismo": um debate essencial
Alguns membros do público e vários comentadores têm
denunciado uma dimensão racial na forma como Cynthia Erivo está a ser alvo de
ataques. Apontam que, nos últimos anos, muitas atrizes negras de renome — desde
Halle Bailey em A Pequena Sereia até outras protagonistas de franchises
populares — foram submetidas a uma enxurrada de memes e comentários agressivos
que vão muito além da crítica tradicional.
Alguns observam um padrão recorrente nestas campanhas de
ridicularização: rostos negros, especialmente femininos, são usados de forma
desproporcionada como “matéria-prima” cómica, frequentemente desumanizados ou
reduzidos a caricaturas. Por outro lado, outros utilizadores afirmam que tudo
se resume à personagem, ao marketing ou ao estilo da atriz, recusando-se a ver
um problema ético, desde que — na sua perspetiva — não haja insulto explícito
nem incitação ao ódio.
Entre a liberdade de troçar e o assédio online
Para lá do “caso Cynthia Erivo”, várias vozes pedem uma
reflexão sobre a linha ténue que separa a liberdade de troçar do cyberbullying.
Os críticos sublinham que, mesmo sem intenção explicitamente racista, o efeito
cumulativo de milhares de publicações negativas pode ter um impacto psicológico
real sobre o alvo e contribuir para um clima de hostilidade contra determinados
grupos.
Os defensores destes memes argumentam que a internet sempre
funcionou através do exagero, da subversão e da ironia, e que atacar
celebridades faz parte do jogo da fama. Esta profunda discordância alimenta um
debate mais vasto: até onde pode ir o humor online quando incide repetidamente
sobre minorias já sub-representadas ou frequentemente atacadas?
Uma atriz no centro da tempestade mediática
A própria Cynthia Erivo já se manifestou no passado para
denunciar certas formas de edição de imagem ou comentários que considera
ofensivos e degradantes, particularmente em relação às imagens promocionais de Wicked.
Também tem alertado para os perigos do cyberbullying e para a facilidade com
que grupos anónimos podem atacar pessoas que não conhecem, escondendo-se atrás
de um ecrã.
A atual vaga de memes dirigidos a ela levanta uma questão
dupla: a da responsabilidade individual dos criadores de conteúdo e a das
plataformas que permitem que dinâmicas potencialmente tóxicas floresçam em nome
do engagement. Entre o humor banal e a violência simbólica, o “caso
Cynthia Erivo” expõe, assim, as tensões em torno da representação de mulheres
negras e da ética das culturas online.
Fonte: The Body Optimist, 28 de novembro de 2025
Novas técnicas de venda de lixo
Na promoção cinematográfica moderna, já ninguém acredita verdadeiramente que a viralização de polémicas seja um acidente nem típico humor das redes sociais. A engrenagem de Hollywood — e, cada vez mais, das grandes produções globais — aprendeu a transformar qualquer tempestade digital em combustível promocional. Escândalos relâmpago, acusações de racismo, debates morais sobre o tratamento de mulheres ou minorias: tudo pode ser reciclado como estratégia de marketing num ecossistema em que a atenção é a moeda suprema.
O caso de Cynthia Erivo encaixa-se perfeitamente nesta lógica. A atriz é convertida em trending topic, vilões e defensores mobilizam-se, artigos multiplicam-se, vídeos reagem a memes e memes reagem a vídeos. No final, todo este ruído converte-se numa única conclusão inevitável: Wicked 2 está em toda a parte, mesmo na cronologia de quem nunca viu o trailer nem quer ver o filme. A fronteira entre assédio real e promoção calculada torna-se difusa — propositadamente.
Na era das campanhas digitais hiper-coreografadas, a polémica não é apenas tolerada: é desejada, cultivada, provocada e monetizada. O moralismo indignado e o humor tóxico tornam-se peças de uma mesma máquina publicitária. E o público, dividido entre a comoção e a suspeita, acaba sempre por desempenhar o papel principal: o de amplificador gratuito do filme que, no fundo, todos estes “debates espontâneos” pretendem vender. Filmes, por regra, sem nenhum interesse ou qualidade especial. Lixo cinematográfico.


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