Bairro 6 de Maio

 


Um bairro compacto, labiríntico, com “sítios onde nem sequer entrava o sol”. Era assim o 6 de Maio, na Amadora, às portas de Lisboa, onde durante mais de 40 anos muitos imigrantes viveram em condições difíceis até ao realojamento.

Começou a erguer-se nos anos 70 do século XX, paredes meias com as Fontainhas, pelas mãos dos imigrantes das ex-colónias, na maioria da comunidade cabo-verdiana que chegava a Portugal em busca de melhores condições de vida e para trabalhar, sobretudo, na construção civil.

Juntamente com o Estrela de África, os três bairros foram uma casa que só deixou de ser provisória por os moradores terem sido integrados no Programa Especial de Realojamento (PER), que a Câmara da Amadora assinou em 1995, dois anos depois de o plano ser instituído pelo Governo. As casas precárias da zona foram totalmente erradicadas há cerca de dois anos e os terrenos estão agora vazios.

À Lusa, a irmã Deolinda Rodrigues, responsável pelo Centro Social 6 de Maio, explica que chegou ao bairro em 1986, onde as Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário já se encontravam há quase uma década a dar apoio à população. Começou por viver “numa barraca” nas Fontainhas.

“Eu costumo dizer que quando as irmãs vieram para aqui não traziam nenhum projeto, era estar com a população, acolhê-la, ser um sinal de Igreja [Católica], de solidariedade. Foi esse o objetivo, mas chegaram ali e surgiram todas as necessidades do mundo”, reconhece.

Uma das primeiras medidas foi a constituição de comissões de moradores, conta, lembrando que iam tentando dar resposta aos problemas que surgiam.

“Era a habitação, não havia água no bairro, não havia nada. As pessoas precisavam de tratar dos papéis [de legalização], de arranjar trabalho, enfim, tudo, tudo, tudo. As crianças que chegavam não tinham escola. As mulheres, na altura, não trabalhavam e, portanto, era preciso ocupá-las. Foram surgindo, em catadupa, todas as necessidades e fez-se tudo em conjunto com a população”, recorda.

(…).

A vida da comunidade acabou, contudo, por complicar-se, primeiro com a crise dos anos 80 - as mulheres que até então não trabalhavam tiveram de arranjar emprego, deixando muitas vezes as crianças entregues à sua sorte - e mais tarde com a chegada da droga ao bairro.

Tendo em conta novamente “a necessidade da comunidade”, as irmãs decidiram então fazer um protocolo com a Segurança Social e constituir uma instituição particular de solidariedade social, com valência de creche.

Chegou também o que a irmã Deolinda descreve como “uma crise de identidade nas crianças e jovens”, que começaram a agrupar-se em bandos, levando o bairro a ser “um verdadeiro gueto”, com uma estrada (Estrada Militar) a separar os que viviam em barracas daqueles que viviam nos prédios e “nem queriam olhar para o bairro clandestino”.

A droga que chegou ao 06 de Maio, “vinda de um bairro da Buraca e do Casal Ventoso”, levou a uma situação “incontrolável de tráfico e muito consumo”, recorda.

Apesar de o bairro ser “um autêntico labirinto”, onde só entrava quem conhecia, Deolinda Rodrigues é perentória ao afirmar que as irmãs nunca tiveram medo de ali estar, como costumavam perguntar-lhes as autoridades policiais.

“As pessoas conheciam-nos, tirando nos últimos anos, em que vinha tanta gente para o tráfico e para o consumo. Essas não nos conheciam, mas pronto. Sabíamos que a população nos conhecia e, portanto, não tínhamos medo nenhum, nenhum. Corri o bairro todos os dias mil vezes”, lembra, sorridente.

A irmã Deolinda (que há muitos anos faz trabalho social no bairro), acompanhada por Helena Vicente (D) uma das últimas moradoras a deixar o bairro 6 de Maio

(…).

“Temos muito contacto com a população”, diz Deolinda Rodrigues, contando que, no início de maio, as irmãs alugaram três autocarros e foram a Fátima com antigos moradores.

(…).

Segundo a presidente da Câmara da Amadora, Carla Tavares, no antigo 6 de Maio vai existir uma via de distribuição de tráfego para facilitar o acesso à CRIL (Cintura Regional Interna de Lisboa) e de onde irá sair o novo Centro Social 6 de Maio, construído de raiz.

Fonte: Sapo 24, 21 de maio de 2023

Infelizmente, morreu também a sua função social como um local acolhedor para comprar droga boa e bem aviada, em relativa segurança.

Comentários

Mensagens populares deste blogue