Chanceler da Áustria diz que tirar Israel da Eurovisão seria "erro fatal"

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O chanceler da Áustria, que vai receber o Festival Eurovisão da Canção em 2026, considerou que seria um "erro fatal excluir Israel" do concurso europeu, apesar dos apelos de vários países

O chanceler austríaco, Christian Stocker, defendeu que seria "um erro fatal excluir Israel" do Festival Eurovisão da Canção 2025, que se realizará em Viena, na Áustria.

"Consideraria um erro fatal excluir Israel", afirmou o chanceler numa entrevista à agência de notícias alemã dpa, divulgada no domingo.

"Com base apenas na nossa história, nunca seria a favor disso", acrescentou, referindo-se à responsabilidade partilhada da Alemanha e da Áustria pelos crimes cometidos durante o Holocausto.

Também o chanceler alemão, Friedrich Merz, já defendeu que Israel "tem um lugar" na Eurovisão. "Acho que é um escândalo que isto seja discutido. Israel tem um lugar lá", disse, em entrevista à emissora ARD, no início do mês.

Sublinhe-se que, ao longo dos últimos meses, vários países juntaram-se nos apelos à União Europeia de Radiodifusão (UER) para a expulsão do país do Médio Oriente devido à ofensiva na Faixa de Gaza.

Emissoras estatais de países como a Irlanda, Países Baixos, Espanha, Eslovénia e Islândia chegaram mesmo a ameaçar não participar no concurso europeu se Israel fizesse parte.

Eurovisão tinha marcado "votação" sobre participação de Israel, mas voltou atrás

No final de setembro, a UER decidiu antecipar para novembro uma reunião para discutir e votar a participação de Israel, reconhecendo que existia "uma diversidade de opiniões sem precedentes" relativamente à participação da emissora israelita KAN.

Neste sentido, seria realizada uma sessão extraordinária da Assembleia Geral, no início de novembro, para que os membros votassem "sobre a questão da participação no Festival Eurovisão da Canção de 2026".

No entanto, há cerca de duas semanas, quando foi anunciado o acordo de cessar-fogo entre o Hamas e Israel na Faixa de Gaza, o organismo voltou atrás e já não vai realizar a "reunião extraordinária".

Segundo um comunicado da televisão pública austríaca ORF, responsável pela organização da Eurovisão em 2026, "a decisão será agora tomada pela Assembleia Geral em dezembro, conforme inicialmente prevista".

Na edição deste ano, Israel esteve prestes a superar a Áustria na final da Eurovisão, que venceu nos momentos finais. A Áustria, com JJ e 'Wasted Love', recebeu um total de 436 pontos: 258 pontos do júri e 178 pontos do público. Já Israel, com Yuval Raphael e 'New Day Will Rise', somou 357, distribuídos por 60 do júri e 297 do público.

A próxima edição do Festival Eurovisão da Canção realiza-se em Viena, na Áustria, com as semifinais marcadas para os dias 12 e 14 de maio. Já a grande final realizar-se-á a 16 de maio de 2026.

Fonte: Notícias ao Minuto, 28 de outubro de 2025

Eurovisão: da celebração queer ao palco da propaganda israelita

O Festival Eurovisão da Canção, criado em 1956 para promover a reconciliação europeia após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se ao longo das décadas num dos maiores espetáculos mediáticos do continente e num espaço simbólico de diversidade e liberdade — especialmente para a comunidade LGBTQ+. Contudo, a evolução recente do evento levanta questões incómodas sobre a sua instrumentalização política, em particular sobre a forma como Israel tem usado o palco eurovisivo como veículo de soft power e ferramenta de propaganda internacional.

Desde a vitória de Dana International, mulher transgénero israelita, em 1998, o país tem cultivado a Eurovisão como vitrina da sua imagem liberal e cosmopolita. Essa estratégia, segundo vários investigadores, insere-se no fenómeno conhecido como pinkwashing: a utilização da causa LGBTQ+ para melhorar a reputação de um Estado acusado de violações de direitos humanos. A escritora e ativista Sarah Schulman definiu o conceito como “a promoção seletiva de políticas progressistas em matéria de género e sexualidade para mascarar práticas repressivas contra outros grupos” (The New York Times, 2011).

O caso israelita é paradigmático. Em 2019, quando Telavive recebeu o festival, o governo de Benjamin Netanyahu aproveitou a ocasião para projetar uma imagem de modernidade e tolerância, enquanto a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch denunciavam, no mesmo período, a intensificação da repressão sobre os palestinianos e a expansão dos colonatos ilegais. Diversas organizações, como o movimento Boycott, Divestment and Sanctions (BDS), apelaram ao boicote do evento, classificando-o como “um instrumento de branqueamento político de um regime de apartheid”.

O conceito de pinkwashing foi aprofundado por teóricas como Jasbir Puar, que em Terrorist Assemblages: Homonationalism in Queer Times (2007) descreve como Estados-nação recorrem à retórica da inclusão LGBTQ+ para legitimar práticas de exclusão e violência noutros domínios. Israel, segundo Puar, exemplifica esse “homonacionalismo”: a fusão entre nacionalismo e políticas identitárias que transforma a aceitação de minorias sexuais num marcador de superioridade moral face aos “outros”, neste caso, o mundo árabe.

Apesar das críticas, a União Europeia de Radiodifusão (EBU), organizadora da Eurovisão, mantém a patranha de “neutralidade política”. Contudo, essa neutralidade é seletiva: em 2022, a Rússia foi excluída após a invasão da Ucrânia, enquanto Israel continua a participar apesar de relatórios da ONU classificarem as suas políticas nos territórios ocupados como forma de apartheid (Relatório do Special Rapporteur on the Situation of Human Rights in the Palestinian Territories, 2022).

A Eurovisão espelha, assim, as contradições da própria Europa: celebra a diversidade e a inclusão no palco, mas evita questionar as estruturas de poder que determinam quem pode ou não celebrar. Entre o espetáculo e a diplomacia, a linha é cada vez mais difusa, esbatida por líderes fracos e subjugados.

A festa continua — vibrante, colorida, entusiasta, enquanto os árabes perdem terras e os europeus são tomados por idiotas com as votações nos dois últimos festivais e neste não será diferente: a canção israelita vai dominar o voto popular — os 12 pontos choverão de todos os cantos da Europa, despejados por uma rede já operacional de centrais de chamadas automáticas.

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