Tucker Carlson discute “estes judeus sionistas” com o assumido antissemita Nick Fuentes

Perry Mason (1957-1966) – Maggie Pierce

Ex-apresentador da Fox News demonstra ampla concordância com as posições do negacionista do Holocausto em relação a Israel e afirma que os sionistas cristãos estão “possuídos por um vírus cerebral”

JTA (a) — Tucker Carlson queria saber: afinal, no que é que Nick Fuentes realmente acredita?

“Todos vão dizer: ‘És um nazi, gostas é do Fuentes’”, refletiu o antigo comentador da Fox News no seu programa de terça-feira. “Mas depois penso: ‘Não me parece que o Fuentes vá desaparecer. O Ben Shapiro tentou estrangulá-lo ainda no berço, na universidade, e agora ele está maior do que nunca.’”

Assim, Carlson convidou o declarado antissemita e nacionalista branco para o seu talk show online. Aí, os dois tiveram uma conversa amigável sobre os judeus e se era correto culpá-los por tudo.

E Fuentes, cuja plataforma política só cresceu após o assassinato do seu arquirrival conservador Charlie Kirk, deixou claro o que pensa. Questionado sobre quem no movimento conservador precisava de ser derrubado, respondeu: “Estes judeus sionistas”.

O encontro, que já estava a ser comentado há semanas, tem implicações na crescente popularidade do antissemitismo e das vozes anti-Israel à direita. Ambos têm milhões de seguidores, e Carlson mantém laços estreitos com o presidente dos EUA, Donald Trump, mesmo tendo-se tornado um crítico acérrimo de Israel e dado voz aos revisionistas do Holocausto.

Fuentes, por sua vez, lançou um ataque de extrema-direita contra os conservadores tradicionais, usando o antissemitismo como a sua principal plataforma — uma ideologia que um número crescente de jovens militantes conservadores também está a adotar. No YouTube, os principais comentários do episódio de duas horas estavam repletos de memes antissemitas.

Mesmo demonstrando um amplo alinhamento com as opiniões de Fuentes sobre Israel, Carlson procurou subtilmente distanciar-se do antissemitismo mais explícito do seu convidado.

“Não estou assim tão interessado em ‘os judeus’, mas estou muito interessado na questão da política externa”, disse Carlson a certa altura, fazendo aspas no ar com os dedos. Mais tarde, disse a Fuentes: “No momento em que alguém diz: ‘Bem, na verdade, são os judeus’, primeiro, isso vai contra a minha fé cristã. Simplesmente não acredito nisso, e nunca acreditarei. Ponto final. E, em segundo lugar, isso torna-se uma forma de desacreditar. Foi aí que pensei: ‘Este tipo é um infiltrado do governo.’”

Em resposta, o jovem que abre o seu programa online America First com representações animadas de conspirações judaicas expôs a sua convicção central: que o “neoconservadorismo”, uma ideologia que ele rejeita, é de natureza judaica porque dá prioridade à lealdade a Israel em detrimento dos princípios conservadores tradicionais.

“No que diz respeito aos judeus, não se pode realmente separar Israel e os neoconservadores e todas essas coisas de que falas da judeidade: etnia, religião, identidade”, disse Fuentes a Carlson. Embora reconhecesse que alguns judeus se opõem a Israel, afirmou que, entre os seus inimigos no conservadorismo, “vejo a judeidade como o denominador comum.”

Fuentes continuou: “Eles são um povo sem Estado. São inassimiláveis. Resistiram à assimilação durante milhares de anos. E acho que isso é uma coisa boa. E agora têm este território em Israel. Há uma profunda afeição religiosa pelo Estado. Está entranhada na sua identidade.” O neoconservadorismo moderno, acrescentou, surgiu de “judeus de esquerda que foram confrontados com a realidade quando viram o ataque surpresa na Guerra do Yom Kippur.”

Fuentes insistiu que não odeia todos os judeus: "Não quero ser aquele tipo e dizer isto, mas o meu melhor amigo é judeu", disse, alegando também que o seu "assistente" é judeu (não ficou claro se se referia à mesma pessoa). Em seguida, misturou a sua compreensão das ansiedades judaico-americanas, algumas das quais foram articuladas por figuras proeminentes da comunidade judaica, com o cliché da dupla lealdade.

"Se se é judeu nos Estados Unidos, é uma espécie de interesse próprio racional, politicamente, dizer: 'Sou uma minoria. Sou uma minoria religiosa e étnica. Este não é realmente o meu lar. A minha terra ancestral é Israel'", disse Fuentes. "Têm esta comunidade internacional além-fronteiras, extremamente organizada, que coloca os seus próprios interesses acima dos interesses do seu país de origem."

Mesmo para além de Israel, Fuentes procurou também pintar o judaísmo como incompatível com a tradição europeia a que aspira a direita moderna americana. "Eles odeiam os romanos porque os romanos destruíram o Templo", disse. “Nós, como americanos e pessoas brancas, não pensamos assim.”

Segundo Fuentes, a sua radicalização começou com a aceitação e, mais tarde, a rebeldia contra os influentes conservadores judeus. Israel foi o seu ponto de rutura, insistiu.

Ben Shapiro, Mark Levin e Dennis Prager eram os seus heróis da direita no liceu, disse Fuentes; repetia os argumentos de Shapiro em debates e participava num grupo no Facebook para jovens fãs da PragerU. Em 2017, enquanto caloiro na faculdade, entrou na órbita do The Daily Wire, a empresa de média de Shapiro, depois de um debate contra o presidente progressista do corpo estudantil da sua universidade se ter tornado viral. Fuentes abandonaria em breve a faculdade para se dedicar integralmente à comunicação social conservadora.

Rapidamente, afirmou Fuentes, começou a suspeitar das visões pró-Israel de Shapiro. Quando um membro da equipa lhe perguntou se tinha interesse em viajar para Israel, respondeu: "Não, acho que tenho tudo o que preciso aqui mesmo na América... E isso foi um pequeno presságio."

Mais tarde, contou que costumava desafiar a equipa do Daily Wire: “Eu perguntava: ‘Então, porque é que damos todo este dinheiro a Israel?’”, recordou. “Respondiam: ‘Está a perguntar de uma forma antissemita’”.

Mas Fuentes, recordando o episódio, disse que “estava genuinamente curioso. Queria saber. Há mesmo uma razão?… Há muitos desses tipos judeus neoconservadores por detrás da Guerra do Iraque.” Segundo ele, o facto de o site The Daily Wire ter rejeitado as suas perguntas sobre Israel levou ao seu afastamento do movimento conservador dominante e acabou por motivá-lo a seguir de forma independente, promovendo formas mais insidiosas de discurso sobre o alegado controlo judaico.

Comparando-se a Shapiro, Fuentes refletiu: “Eu não vim de um meio estranho. Venho de uma família normal. Os meus pais são católicos.” (Nas últimas semanas, Shapiro e outras vozes da direita têm alertado para o crescimento de teorias da conspiração antissemitas dentro das suas próprias fileiras.) (b)

Mesmo quando se tornou um fiel apoiante de Trump na corrida para as eleições de 2016, Fuentes afirmou ter rompido com os conservadores ao apoiar a decisão do presidente Barack Obama de se abster — em vez de vetar — uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que condenava os assentamentos israelitas na Cisjordânia.

“A Fox News e todos os conservadores pró-Israel estão a chamar-lhe antissemita. Estão a dizer: ‘Ele odeia os judeus! Ele é um antissemita! Ele odeia Israel!’”, recordou Fuentes. “Parecia hipócrita. Parecia que, quando os conservadores criticavam qualquer coisa relacionada com raça, éramos chamados de racistas. Ou qualquer coisa sobre feminismo, éramos chamados de sexistas. Tudo o que Obama fez foi manter a política dos EUA na Cisjordânia que temos desde 1967, ou seja, não apoiamos os assentamentos. Eu disse: como é que ser coerente com a política externa dos EUA pode ser considerado antissemita?”

Sobre Israel, Carlson disse que concordavam.

“Sempre achei ótimo criticar e questionar a nossa relação com Israel, porque é insana e prejudica-nos”, disse-lhe Carlson. “Não ganhamos nada com isso. Concordo plenamente consigo nesse ponto.” Também criticou duramente os sionistas cristãos de direita que antes apoiava, incluindo o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, que, segundo ele, foram “dominados por este vírus cerebral”.

Mais tarde, ao discutir a guerra em Gaza, Carlson acrescentou: “Uma das razões pelas quais estou furioso com Gaza é que a posição israelita é que todos os que vivem em Gaza são terroristas por causa da forma como nasceram, incluindo as mulheres e as crianças. Esta não é uma visão ocidental. É uma visão oriental. Não é cristã. É totalmente incompatível com o cristianismo e a civilização ocidental. Dizem: ‘Ah, nós somos os defensores da civilização ocidental.’ Com esta atitude, não são”.

Os dois concordaram quanto a alguns judeus que ambos respeitam, incluindo Glenn Greenwald — um crítico iconoclasta de Israel, anteriormente ligado à esquerda, que recentemente também recebeu Fuentes no seu próprio podcast — e o apóstolo Paulo.

Noutro momento, falaram sobre quem Fuentes gostaria de ver como próximo presidente (ele escolheu Ye, o famoso rapper que abraçou o nazismo) e sobre o jantar de 2022 em Mar-a-Lago com Ye e Donald Trump, onde, segundo Fuentes, o então — e possivelmente futuro — presidente disse: “Este tipo é duro. Gosto deste tipo.” (Trump afirmou posteriormente que não sabia quem Fuentes era quando jantaram juntos.)

Quando Carlson lhe pediu que partilhasse, sem filtros, as suas crenças mais profundas, Fuentes acedeu, delineando uma visão de uma América futura da qual os judeus não teriam direito a fazer parte.

“Precisamos de ser de direita. Precisamos de ser cristãos. E, de certa forma, precisamos de ser pró-brancos”, afirmou. “Não para excluir toda a gente, mas reconhecendo que os brancos têm aqui uma herança especial, como americanos.”

Fonte: The Times of Israel, 29 de outubro de 2025

(a) JTA é a sigla de Jewish Telegraphic Agency, uma agência de notícias internacional fundada em 1917, sediada em Nova Iorque, que cobre temas relacionados com o mundo judaico, Israel e assuntos internacionais de interesse para comunidades judaicas.

Funciona de forma semelhante a outras agências noticiosas (como a Reuters ou a AFP), mas com foco específico em questões judaicas, política israelita, antissemitismo, cultura e diáspora.

Ou seja, quando se lê “JTA —” antes de uma notícia, significa que o texto foi publicado ou distribuído pela Jewish Telegraphic Agency.

(b) Ben Shapiro, comentador conservador e cofundador do The Daily Wire, afirmou que “uma parte da direita tornou-se extraordinariamente conspiratória e vê os judeus como uma força conspirativa”. “Consegue-se muito mais likes e clicks ao promover uma agenda anti-Israel e antijudaica do que ao fazer o contrário”, acrescentou. Shapiro associa esta tendência ao modo como as redes sociais recompensam o conteúdo mais inflamado.

Um artigo recente da Vox descreve o que chama de “crise de antissemitismo” dentro do Partido Republicano, particularmente entre as fações mais próximas do movimento “MAGA”. O texto menciona figuras como Tucker Carlson e Candace Owens e identifica um conflito interno na direita — entre os que alertam para esta deriva e os que a relativizam ou consideram secundária.

Outra investigação da Vox, sobre um chat privado de jovens republicanos, revelou comentários abertamente antissemitas (“fat stinky Jew”, “gas chamber”, etc.), sugerindo que o problema não é apenas retórico, mas também se manifesta em espaços informais dentro da própria direita.

A monitorização realizada por grupos de segurança judaicos indica que as teorias da conspiração envolvendo “os judeus” ou “os sionistas” representam um risco real para a segurança, sobretudo em períodos eleitorais.

A tendência que Shapiro identifica mostra que o antissemitismo contemporâneo não se limita à “esquerda” ou a grupos abertamente extremistas: está também a emergir — ou a tornar-se mais visível — em certos segmentos da direita conservadora. A dinâmica das redes sociais — likes, cliques, algoritmos — amplifica esse tipo de conteúdo conspiratório.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Tomás Taveira e idade de ouro portuguesa

Tomás Taveira: as cólicas de um arquiteto