Este é o plano do exército para preparar Portugal para a guerra de alta intensidade
O mundo mudou e o exército português quer mudar com ele. Com uma Rússia cada vez mais ousada, a
desenvolver ações ofensivas híbridas no interior do território europeu e um
aliado americano cada vez menos disposto a defender o continente - com as
recentes ameaças à Gronelândia parece até mais disposto a atacá-lo -, os países
europeus da NATO estão a preparar-se para uma revolução. São precisas mais
unidades, novos equipamentos e reservas de guerra não para missões de paz, mas
sim para preparar o continente para algo que seria impensável há poucos anos:
um conflito de alta intensidade em solo europeu.
A cimeira da NATO em Haia, em junho, obrigou Portugal a ir
mais além e o exército português criou o plano "Força Terrestre
2045", uma restruturação radical que promete a criação de duas brigadas
prontas para o combate, fecha o espaço aéreo nacional, aposta nas forças
especiais e na Inteligência Artificial.
Brigadas prontas para o combate
A prioridade para o exército português é a criação de um
"punho de ferro", a Brigada Média, uma unidade que junta as
capacidades das antigas brigadas de Intervenção e Mecanizada. Esta força, que o
exército quer ter pronta até 2032, vai ser desenhada para o choque do combate
moderno, servindo como espinha dorsal da força nacional. Para isso, estes
militares vão ser equipados com os meios mais pesados ao dispor do exército.
Esta unidade vai ser equipada com modernos veículos
blindados de infantaria que o exército se
prepara para comprar: o Boxer RCT 30, da empresa alemã Artec. Estas
viaturas, que vão passar a ser fabricadas em Portugal, vão representar um salto
tecnológico para o nosso país, que atualmente opera os Pandur II. A versão RCT30 vem equipada com um canhão de
30mm de alta precisão e munições airburst, capazes de detonar acima de
trincheiras inimigas, e sistemas óticos Hunter-Killer, que permitem identificar
um novo alvo enquanto se dispara contra o anterior.
Só que para criar uma brigada moderna pronta para o combate,
ter veículos blindados capazes de proteger os militares não chega e a guerra na
Ucrânia provou-o. A artilharia continua a ser "a rainha" do campo de
batalha e o exército vai adquirir 36 peças de artilharia Caesar, da francesa
KNDS. Estes sistemas móveis são vitais para um campo de batalha onde é cada vez
mais difícil não ser detetado por drones inimigos. Os obuses franceses permitem
disparar e fugir em poucos minutos, atirando munições de alta precisão a
dezenas de quilómetros de distância.
Enquanto a Brigada Média está a ser criada a pensar no
embate, o exército vai criar uma nova Brigada Ligeira focada na velocidade. Com
o prazo de criação até 2036, esta unidade herda a genética dos Paraquedistas e
Comandos. O seu propósito é a projeção estratégica, chegando primeiro a
terrenos difíceis onde os blindados pesados não entram, valendo-se da frota
modernizada de viaturas Pandur e de uma elevada mobilidade tática.
Arquipélagos e Forças Especiais
A reestruturação do exército português prevê também uma nova
atenção à defesa territorial dos arquipélagos portugueses. Nos Açores e na
Madeira, o antigo conceito de uma guarnição estática está prestes a ser
abalado, com a criação de uma postura defensiva mais ativa. Os alvos
capacitários da NATO para Portugal preveem a criação de batalhões de infantaria
ligeira de alta mobilidade, desenhados para negar acesso ao território.
Em simultâneo, para responder a um campo de batalha onde as
fronteiras entre a paz e a guerra são cada vez mais difusas, o exército vai
consolidar a edificação de duas unidades de Forças de Operações Especiais. O
objetivo é ter equipas de elite autónomas, capazes de operar atrás das linhas
inimigas ou em cenários de guerra híbrida, cumprindo uma das exigências mais
específicas dos novos planos de defesa da NATO.
Fechar os céus
Mas de pouco serve ter blindados modernos e infantaria móvel
caso estes estejam vulneráveis a ataques aéreos. E essa é uma das maiores
lacunas das defesas portuguesas. A guerra na Ucrânia demonstrou que é
praticamente impossível conduzir o combate terrestre sem controlo do espaço
aéreo, que agora está constantemente exposto a ataques de drones, helicópteros
e mísseis de alta precisão. Por esse motivo, o exército e Governo português vão
investir fortemente em várias camadas de proteção antiaérea.
Para proteção imediata das novas brigadas que vão operar no
terreno, o exército escolheu os sistemas de defesa antiaérea de curto alcance
Rapidranger, da Thales. Estes sistemas são montados no topo de veículos e podem
disparar os mísseis Starstreak, capazes de proteger os militares no terreno de
ameaças de baixa altitude, como drones ou helicópteros.
Mas o salto estratégico dá-se com a aquisição do sistema de
médio alcance IRIS-T. Com um alcance de até 40 quilómetros, este equipamento é
o verdadeiro game changer para a defesa nacional. A sua capacidade permite
criar "bolhas" de proteção impenetráveis sobre infraestruturas
críticas ou, crucialmente, sobre os arquipélagos dos Açores e da Madeira,
garantindo que Portugal consegue defender o seu espaço aéreo estratégico contra
ameaças sofisticadas.
Reservas de Guerra
Só que nenhuma destas capacidades terá muita utilidade numa
guerra de alta intensidade sem a capacidade de manter o ritmo alucinante da
utilização de equipamentos. Essa foi uma das mais duras lições da guerra na
Ucrânia, onde os ferozes confrontos no início da guerra levaram os países
europeus a esgotar em poucos meses quase todas as suas reservas, uma vez que a
lógica de armazenamento "just-in-time" só funciona em tempo de paz.
Por isso, o novo planeamento estratégico europeu recupera o
conceito de reservas de guerra, que parecia esquecido desde a Guerra Fria. Portugal vai deixar de gerir stocks mínimos para passar a
armazenar munições, sobressalentes e consumíveis suficientes para sustentar
operações de combate prolongadas. O plano inclui ainda a criação
de um comando logístico projetável, capaz de acompanhar as brigadas para o
exterior e garantir que, no calor da batalha, aos blindados, aos canhões e aos
soldados não falta o essencial para combater e vencer.
Robôs e algoritmos na linha da frente
O plano Força Terrestre 2045 assume que a letalidade futura
depende da integração de sistemas não tripulados e Inteligência Artificial
diretamente na manobra tática, transformando cada soldado num
"sensor" de uma rede de combate digital.
O exemplo mais pragmático desta visão já está em curso e é o
projeto de conversão dos antigos blindados M113 em drones. Em vez de serem
abatidas, estas viaturas veteranas estão a ser transformadas em plataformas
robóticas não tripuladas. O objetivo tático é claro: utilizar estes
"drones de carga" para o transporte logístico na frente de combate ou
para a extração de feridos sob fogo, poupando vidas humanas em missões de risco
suicida.
Em simultâneo, o exército
criou a Zona Livre Tecnológica Infante D. Henrique, que abrange
áreas de testes reais em São Jacinto (ar e mar), Santa Margarida (operações
terrestres pesadas) e Beja, funcionando como um laboratório aberto onde
militares, universidades e indústria nacional testam novas soluções. A ideia é
deixar de ser apenas um cliente de tecnologia estrangeira para passar a
desenvolver, em Portugal, os algoritmos e sistemas autónomos que definirão a
guerra do futuro.
Fonte: CNN Portugal, 12 de janeiro de 2026

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