O crime maricas que lançou a Beat Generation

Lucien Carr, David Kammerer e Jack Kerouac

A primeira vez que o nome de Jack Kerouac apareceu na imprensa foi em 17 de agosto de 1944, quando ele e William Burroughs foram presos como testemunhas materiais de um assassinato. Enquanto as manchetes eram consumidas nesse dia com notícias do desembarque bem-sucedido dos Aliados na costa sul da França, o assassinato foi sensacionalista o suficiente para fazer a primeira página do New York Times: "Estudante de Columbia mata amigo e afunda corpo no rio Hudson".

William Burroughs e Jack Kerouac

Com um dramatismo noir, o jornal chamou ao assassínio "uma história fantástica de homicídio": um estudante de dezanove anos tinha esfaqueado várias vezes o seu companheiro mais velho com a sua faca de escuteiro, durante a madrugada, em Riverside Park, no Upper West Side de Manhattan. "Trabalhando com uma pressa frenética na escuridão, sem saber se alguém o tinha visto", conta o artigo, "o estudante universitário juntou todas as pequenas pedras que conseguiu encontrar e enfiou-as nos bolsos [da vítima] e dentro da roupa. Depois empurrou o corpo para a água que corria rapidamente".

O estudante era Lucien Carr, natural de St. Louis, que possuía uma mistura de delinquência, boa aparência e charme intelectual. A sua vítima era David Kammerer, de trinta e um anos, um homem alto e magro, de cabelo ruivo escuro e voz aguda, amigo de William Burroughs.

Os dois viviam perto um do outro em Greenwich Village, onde Kammerer trabalhava como porteiro de um prédio. Meses antes do assassínio, através da sua amizade com Kammerer e Burroughs, Carr tinha conhecido Kerouac e o seu colega estudante de Columbia, Allen Ginsberg.

Allen Ginsberg e Jack Kerouac 

Mais tarde, Carr disse à polícia que tinha visitado Kerouac e Burroughs nas primeiras horas da manhã, depois de ter saído do Riverside Park, e ambos foram presos como testemunhas materiais. Carr disse que quando apareceu à porta de Kerouac, os dois caminharam até Morningside Park para enterrar os óculos de Kammerer e livrar-se da faca de escuteiro, atirando-a para um esgoto. Passaram o dia a beber, a visitar o Museu de Arte Moderna e a ir ao cinema, até que Kerouac convenceu Carr a ir à polícia. Carr confessou o assassínio ainda antes de o corpo de Kammerer aparecer no Hudson, perto da Seventy-Second Street.

Passariam alguns anos antes de Kerouac, Burroughs e Ginsberg emergirem como as principais vozes da geração Beat, mas no verão de 1944, essas origens artísticas estavam a tomar forma - e o assassinato de Kammerer seria uma parte crucial disso. No West End Café, um bar local no Upper West Side de Manhattan, falavam dos seus ídolos e mentores literários, fomentando o mito do rebelde romântico na tradição de Rimbaud e Baudelaire. Quando Carr bebia, era conhecido pelo seu comportamento imprevisível, mastigando cacos de vidro ou atirando pratos de comida para o chão. Foi no West End Café que Carr e Kammerer beberam e conversaram até tarde nessa noite de agosto, antes de caminharem alguns quarteirões até ao Riverside Park.

Kammerer e Carr conheceram-se em St. Louis, num campo de férias para rapazes, onde Kammerer era instrutor e Carr aluno. Oriundo de uma família de classe média, Kammerer obteve um doutoramento em inglês e ensinou literatura e educação física na Universidade de Washington. O que começou como uma paixão transformou-se numa atração que durou uma década. Seguiu o jovem Carr por todo o país, de Andover à Universidade de Chicago, ao Bowdoin College no Maine, antes de se mudar para Nova Iorque quando Carr entrou na Universidade de Columbia. O biógrafo de Burroughs, Ted Morgan, contou que, embora muitos acreditassem que estas mudanças refletiam a tentativa de Carr de "se afastar de Kammerer", outros duvidavam, pois "quando os víamos juntos, pareciam ser os melhores amigos, a beber e a divertir-se". Na sua confissão à polícia, Carr afirmou que, ao longo dos anos em que se conheceram, Kammerer tinha-lhe várias vezes "feito avanços impróprios, mas que ele tinha sempre rejeitado o homem mais velho".

A expressão "avanços impróprios" não era nova nas histórias de crime dos anos quarenta. Desde o final do século XIX, esses termos eram comuns na imprensa para descrever agressões verbais e físicas a mulheres. Conotavam ações criminosas que fervilhavam com abusos sexuais demasiado chocantes para serem explicitados. Embora os termos "avanço impróprio" ou "avanço indecente" tenham aparecido em histórias de crimes homossexuais nos anos 30, foi nos anos pós-Segunda Guerra Mundial que esses termos usados na imprensa e na sala de audiências passaram a encarnar as ameaças sentidas pelos homossexuais na frente interna.

Inicialmente, o procurador-adjunto Jacob Grumet teve dúvidas sobre a confissão de Carr, dizendo ao New York Times que "não sabia se estava a lidar com um assassino ou com um lunático". Determinar se o crime tinha sido obra de um adolescente vulnerável ou de um amante maricas louco e psicopata tornar-se-ia a questão mais premente para detetives e jornalistas. A resolução deste mistério dependia da resolução do enigma da sexualidade de Carr.

Os relatos iniciais da imprensa descreviam Carr com uma miríade de atributos pouco masculinos, incluindo "um jovem pálido e esguio", "refinado" e "um frágil jovem louro", "cuja constituição frágil e expressão séria poderiam facilmente despertar simpatia". Os tabloides de Nova Iorque apresentaram o adolescente como uma vítima indefesa de um ataque homossexual psicótico. O Daily Mirror chamou ao crime um "homicídio sexual retorcido". O New York Daily News descreveu o esfaqueamento de Carr como uma "morte por honra". O Daily News contrastou a expressão "suave" no "rosto jovem" de Carr com o "antigo professor de inglês de 33 anos" que, segundo Carr, era "homossexual". Ao estabelecer este contraste entre a inocência juvenil e o desvio sexual, era muitas vezes difícil discernir quem era a verdadeira vítima do crime.

Em setembro, quando Carr se declarou culpado de homicídio involuntário em primeiro grau, o procurador-adjunto acreditava que Carr "não tinha intenção de matar Kammerer, um homossexual, mas que Kammerer, durante mais de cinco anos, tinha persistido em fazer avanços a Carr, que os repelia sempre. A persistência de Kammerer", acrescentou o procurador, "tinha tornado o jovem Carr 'emocionalmente instável'". "No seu testemunho, a sra. Carr descreveu Kammerer como um "verdadeiro Iago" que tinha corrompido o seu filho "puramente por amor ao mal".

Ao contrário dos relatos iniciais de Carr na imprensa, a sexualidade de Jack Kerouac nunca foi posta em causa; quase todos os artigos referiam que o belo Kerouac ia casar em breve. Enquanto ainda estava a ser detido como testemunha material, o New York Times referia que "a polícia escoltou Kerouac até ao Edifício Municipal na terça-feira para testemunhar o seu casamento com miss Edith Parker de Detroit e depois levou-o de volta para a prisão do Bronx". Estas demonstrações públicas de heterossexualidade contrariaram as suspeitas que a acusação e os detetives pudessem ter sobre a defesa de Carr.

De facto, Kerouac, com vinte e dois anos, segundo o biógrafo Ellis Amburn, debatia-se com os seus próprios desejos sexuais nesse verão, dividido entre o que sentia por Lucien Carr e a pressão para casar com a rica Edie Parker. Kammerer tinha ficado intensamente ciumento quando Kerouac e Allen Ginsberg competiram pelo afeto de Carr. Por fim, Kerouac e Carr formaram uma relação próxima. Kerouac tratava carinhosamente Lucien por "Lou" e Carr retribuía-lhe o afeto com a sua habitual impertinência, chamando a Jack a sua "rainha do passado"(“has-been queen”).

Essa brincadeira sublinhava os sentimentos contraditórios de Kerouac em relação aos seus próprios desejos maricas - o que Amburn designa por "homoerotismo homofóbico" de Kerouac. Na sua novela de 1958, The Subterraneans, a personagem de Kerouac depara-se com uma solicitação sexual de um homem em Riverside Park, o mesmo parque onde Kammerer tinha sido assassinado. "Como estás pendurado?", pergunta o homem, ao que Kerouac responde: "Pelo pescoço, espero". O romance também inclui um conhecido encontro entre Kerouac e o jovem escritor Gore Vidal no Chelsea Hotel. No romance, Kerouac retrata o encontro com descrições decididamente vagas, colocando o seu protagonista na posição de um comerciante rude - um papel que acomodava as incursões sexuais panascas sem ameaçar a sua heterossexualidade essencial.

Anos mais tarde, Vidal contaria a sua versão do incidente no seu livro de memórias Palimpsest. Em agosto de 1953, Vidal estava a beber com Kerouac e Burroughs no bar San Remo, em Greenwich Village. Depois de Burroughs sair, Kerouac sugeriu que os dois fossem para um quarto no Chelsea Hotel. Vidal descreveu o encontro no hotel como "comércio clássico encontra comércio clássico", provocando um constrangimento sobre "quem vai fazer o quê". Embora o termo "trade" se refira a homens da classe trabalhadora que têm relações sexuais com outros homens a troco de dinheiro (assumindo muitas vezes o papel ativo no sexo), também personifica uma hipermasculinidade panasca contra homens gays mais efeminados. Na versão de Vidal, Kerouac submete-se ao jogo mais agressivo de Vidal. "Jack levantou a cabeça da almofada para olhar para mim por cima do ombro esquerdo", escreve Vidal. "Olhou-me fixamente por um momento - vejo agora claramente esta parte, a testa meio coberta de caracóis escuros e suados - e depois suspirou enquanto a cabeça voltava a cair na almofada." Embora poucos meses depois deste encontro Kerouac se tenha referido a Vidal como um "pequeno maricas" numa carta ao crítico literário Malcolm Cowley, a noite no Chelsea Hotel exemplificaria o mal-estar que Kerouac sentiu em relação à sua sexualidade ao longo da vida.

Este mal-estar não era apenas um assunto privado, mas também um assunto dos detetives em 1944. Quando a polícia prendeu Kerouac como testemunha material, manteve-o na cadeia do Bronx. "Durante o período de recreio", segundo o biógrafo Amburn, "jovens mafiosos de boa aparência iam à cela de Jack e tentavam seduzi-lo. Um polícia à paisana amigável já tinha avisado Jack de que tinham prometido aos 'chibos' tirar cinquenta anos à pena de 199, se conseguissem provar que Jack era homossexual". Esta experiência permaneceria viva para Kerouac mais de duas décadas depois, quando escreveu a sua autobiografia ficcional Vanity of Duluoz: An Adventurous Education, 1935-46, no final dos anos sessenta. Numa cena, enquanto ele e Claude (o nome de Carr) aguardam a audiência de acusação, Claude sussurra "pelo canto da boca: 'Heterossexualidade até ao fim'". "Esta promessa torna-se um refrão para os dois enquanto se sentam em frente aos detetives que investigam o crime. Numa conversa com o detetive principal, Kerouac retrata o interrogatório como sendo sobretudo uma exploração das suas preferências sexuais:

Eu e o O'Toole vamos para a outra sala, ele diz: "Senta-te, fuma?", cigarro, eu acendo, olho pela janela para os pombos e para a cabeça e, de repente, o O'Toole (um grande irlandês com uma fusca no peito por baixo do casaco): "O que farias se um maricas te agarrasse a pichota?"

"Dava-lhe um pontapé", respondi de imediato, olhando diretamente para ele, porque de repente pensei que era isso que ele ia fazer. Mas, seja como for, o O'Toole levou-me imediatamente para o gabinete do procurador e o procurador disse: "Então?" e o O'Toole bocejou e disse: "Oh, ele está bem, é um espadachim".

No final de Vanity of Duluoz, Kerouac mantém o compromisso que assumiu com Carr em 1944: heterossexualidade até ao fim. "Claude era um rapaz de dezanove anos", escreve Kerouac, "que tinha sido sujeito a uma tentativa de degradação por parte de um homem mais velho que era pederasta, e que o tinha despachado para um amante mais velho chamado rio, para que conste, para ser franco e sincero, e pronto." O termo pederasta ilustrava a distinção ansiosa entre a masculinidade dura que Kerouac valorizava e o efeito do homossexual desumano, que infligia danos físicos e psicológicos a homens normais, que ele via em Kammerer. Esta foi a pedra angular da defesa de Carr, pois o seu trauma psicológico tornou-se um forte fator atenuante na decisão do tribunal. "Ele passou por uma experiência terrível", declarou o advogado de Carr, "mas os médicos especialistas dizem que ele pode ser reabilitado". O juiz concordou e condenou Carr a dezoito meses no Reformatório de Elmira, no norte do estado de Nova Iorque.

A forma de pânico homossexual de Carr não só se tornou uma história poderosa sobre os Beats naqueles primeiros anos, como também apontou para uma defesa cada vez mais convincente dos assassínios de panascas nas muitas décadas seguintes. Qualquer que tenha sido o motivo da violência de Carr, a história do assassínio de Kammerer encapsulou uma ideia perturbadora e convincente no imaginário popular que se enraizou nos anos quarenta e cresceu nos anos seguintes: as afirmações da masculinidade heterossexual eram definidas por reações violentas contra panascas.

Nos seus diários, escritos poucos dias depois do assassínio, Allen Ginsberg escreveu: "O círculo libertino é destruído com a morte de Kammerer". Numa página, colou o artigo do New York Times que relatava a acusação de homicídio de Carr, colocando-o no meio de uma série de entradas sobre sonhos que estava a ter sobre os seus passeios solitários na cidade, cada um deles assombrado pela morte de Kammerer. Também registou notas para uma novela que escreveu para a sua aula de escrita criativa - um trabalho que chocou muitos professores do departamento de Inglês pelo seu conteúdo maricas. Numa secção intitulada "Cena de Morte", Ginsberg transmutou a violência num momento eroticamente carregado, entre o homicídio e o sexo: "Escolhe apresentar-me a tua pichota ou a tua faca", sussurra Kammerer a Carr na escuridão do parque. Em resposta, os olhos de Carr "enlouqueceram em êxtases contraditórios de medo e desejo". Embora a versão de Ginsberg possa ter sido parte da sua própria paixão por Carr, ilustra as tensões nervosas entre a aceitação e a repulsa dos desejos homossexuais.

Poucos meses depois da sentença de Carr, Kerouac e Burroughs começaram seu próprio relato ficcional do evento num romance que alternava narradores, cada escritor compondo partes diferentes da história. Intitulado And the Hippos Were Boiled in Their Tanks, o livro foi concluído na primavera de 1945 e enviado para a editora Simon and Schuster. Com um estilo prático de ficção policial, o romance centra-se em duas personagens inspiradas em Carr e Kerouac, que tentam conseguir um lugar num navio da marinha mercante e partir para França. O assassinato é transferido da margem do rio de um parque frequentado por homens gays para um armazém em Greenwich Village. Depois de entrarem no armazém, Phillip e Al (os nomes das personagens de Carr e Kammerer) encontram um machado e começam a partir janelas. No telhado, Al confessa que quer sair com Phillip e "fazer coisas que tu fazes". Ele então tenta abraçar Phillip. "Ainda tinha o machado na mão", confessa Phillip mais tarde, "por isso bati-lhe na testa. Ele caiu. Estava morto".

A personagem de Burroughs fornece a Phillip um álibi para o assassínio. "Sabes o que te aconteceu, Phil?", diz ele depois de ouvir a confissão. "Foste atacado. O Al atacou-te. Tentou violar-te. Perdeste a cabeça. Ficou tudo negro. Bateste-lhe. Ele tropeçou e caiu do telhado. Estavas em pânico". Mais tarde, a personagem de Kerouac dá a Phillip uma defesa mais precisa: "O Al era maricas. Perseguiu-te por continentes. Deu cabo da tua vida. A polícia vai entender isso". E, de facto, a polícia acredita na sua história de pânico. O tribunal condena-o a alguns meses de internamento num hospital psiquiátrico - uma sentença que dá a todos os que rodeiam Phillip um pouco de alívio, enquanto as personagens prosseguem as suas vidas no meio do calor do verão nova-iorquino.

"O que vai acontecer, não sei", escreveu Kerouac à irmã depois de enviar o manuscrito para a editora, acrescentando: "Para o tipo de livro que é - um retrato do segmento 'perdido' da nossa geração, realista, honesto e sensacionalmente real - é bom, mas não sabemos se esse tipo de livros é muito procurado atualmente." A Simon and Schuster recusou o manuscrito, e Kerouac e Burroughs nunca encontraram uma editora para o livro. O romance, no entanto, trai o que as páginas de crimes deixavam claro - que as alegações de avanços impróprios eram muitas vezes inventadas e que a história da morte de uma bicha era sempre parcialmente culpa sua.

O contraste de motivos entre estas duas narrativas é notável. A história de Ginsberg revela o pânico homossexual de Carr, a sua repulsa pelos seus próprios desejos homossexuais latentes, como motivação para o esfaqueamento violento. Para Kerouac e Burroughs, a defesa de Carr é uma invenção conscientemente construída para um crime aparentemente sem motivo.

O que de facto motivou o esfaqueamento de Carr em Riverside Park, em agosto, permanece um mistério. Quando terminou a sua estadia em Elmira, Carr manteve-se afastado do círculo Beat e nunca mais falou publicamente sobre o crime. Talvez Kammerer tenha de facto abordado Carr. Talvez Carr, embriagado e sem autocontrolo, tenha de facto explodido num acesso de raiva e violência. Talvez a violência de Carr fosse uma repulsa contra os seus próprios desejos homossexuais. "Tal como o resto do mundo universitário, estamos completamente perplexos com o que aconteceu", escreveram os editores do jornal estudantil da Universidade de Columbia logo após o assassínio, acrescentando: "Há uma complexidade nos antecedentes do caso que desafiará as investigações policiais e jurídicas normais. A procura de um motivo irá penetrar profundamente nas áreas mais recônditas do mundo intelectual."

James Polchin

Fonte: The Paris Review, 27 de junho de 2019

O amor bichona prosseguiu com a mesma paixão exultante, quando resvala para o torto, os tribunais já não julgam com a mesma condescendência, porque, entretanto, depois do fim dos hippies, advogados e juízes também gostam de acoitar juntos. E assim outras bolsas de emprego burguesas. Foi o azar de Renato Seabra, visitou a América com a bichice em estado avançado.    

O crime mariconço português não lançou nenhuma geração literária nem provocou especial mexida no mundo intelectual, a não ser o fado que foi para a lista da UNESCO de património imaterial da humanidade, no final desse ano de 2011.

Tudo o que se sabe sobre a morte brutal de Carlos Castro às mãos de Renato Seabra






Liberdade é uma miragem para o ex-manequim português. O homicídio macabro em Nova Iorque colocou Seabra atrás das grades, onde poderá ficar até ao fim da vida

O crime teve lugar a 7 de janeiro de 2011, no quarto 3416, no 34.º andar do Hotel Intercontinental, em Nova Iorque. O cronista social de 65 anos, Carlos Castro, tinha conhecido o modelo Renato Seabra poucas semanas antes. O jovem de Cantanhede recebeu de Castro uma mensagem via Facebook em outubro de 2010. Oferecia-lhe ajuda para a sua carreira de modelo. Este aceitou a ajuda e o romance entre os dois começou logo a partir do primeiro encontro.

O cronista social confessou aos amigos estar perdidamente apaixonado por Seabra. Este era mais discreto na admissão pública do romance, mas não hesitou em aceitar o convite de ir passar o Ano Novo a Nova Iorque com o jornalista. Viveram dias intensos em que tudo parecia bem. Foram ao teatro, fizeram compras nas melhores lojas, privaram com amigos de Castro que os acharam felizes.

O que aconteceu naquela tarde já foi contado ao pormenor, até em filme. Seabra continua a dizer aos amigos e familiares que não sabe o que aconteceu no episódio que lhe mudou a vida, aos 21 anos. Não tem memória de ter espancado brutalmente o amante. De o ter esmurrado até lhe partir os ossos da cara, de ter atirado um televisor contra o peito e cabeça; de ter partido uma cadeira no corpo da vítima nem de a ter mutilado com um saca rolhas - cortando-lhe uma orelha, o escroto e os testículos.

A vida dura da prisão já levou Seabra a tentar o suicídio em pelo menos duas ocasiões. Só daqui a alguns anos é que Renato Seabra pode ser sujeito a reavaliação de pena. Em 2036 terá 46 anos e tem a primeira hipótese de sair em liberdade. Mas não é certo que tal aconteça. Se os tribunais americanos assim o entenderem, o jovem português continuará preso, sujeito a revalidações de dois em dois anos. No limite, até ao final da sua vida.

Renato Seabra tentou vir para Portugal cumprir a pena a que foi condenado - por matar e mutilar com um saca-rolhas o cronista social Carlos Castro, em 2011, numas férias em Nova Iorque - mas a lei portuguesa não o permitiu. Os Estados Unidos exigiam que o ex-manequim, condenado a pena de 25 anos a perpétua, tivesse de cumprir no mínimo os 25 anos, algo que o nosso País não permite porque é obrigatório libertar aos 5/6 da pena, logo antes do final dessa pena máxima. Seabra está numa cadeia de alta segurança onde cumprem pena os condenados pelos crimes mais graves nos EUA.

O ex-modelo não tem recebido a visita da mãe Odília Pereirinha devido à pandemia. A enfermeira de Cantanhede ainda foi viver para Nova Iorque, logo a seguir ao crime, mas o elevado custo de vida obrigou-a a regressar a Portugal. Ultimamente, visitava o filho de três em três meses. Renato já teve vários surtos psicóticos. O homicida, atualmente com 31 anos, tem poucas horas para ir ao recreio e quando vai é com as mãos e pés algemados. Está empenhado nas atividades da prisão, nomeadamente na confeção de roupas, e ainda ajuda na missa.

"Nos dias difíceis peço ajuda a Deus": A carta de Renato Seabra

"Há dias que me sinto tão deprimido que não me apetece fazer nada. Nesta idade em que as pessoas fazem planos para a vida, eu somente posso rezar e pedir a Deus para fazer um milagre e reduzir a minha sentença. Se Deus quiser, vai acontecer algo de bom. Tem de se ter fé."

Renato Seabra escreveu esta carta em 2013, apenas um ano depois de saber que o resto da sua vida pode ser passado numa das piores cadeias norte-americanas. E é nessa prisão que vai ficar pelo menos até ao ano de 2036.

A data para a decisão da liberdade condicional

Já há data para a decisão da liberdade condicional de Renato Seabra. Os tribunais americanos já agendaram a sessão. Vai acontecer em setembro de 2035 e nesse dia Renato Seabra pode receber a notícia da sua libertação, ainda antes do dia 1 de março de 2036, dia em que cumpre os 25 anos de pena mínima a que foi condenado pelo homicídio de Carlos Castro.

Há várias condições para a cedência da liberdade condicional, desde logo o bom comportamento que parece estar a cumprir à risca na prisão Clinton Correctional Facility onde está preso e o arrependimento. Nessa audiência os juízes também vão decidir a sua deportação para Portugal.

Fonte: Correio da Manhã, 23 de abril de 2021

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