Em defesa do cretino no quotidiano português


Lucifer - Tom Ellis, Brianna Hildebrand

Da questão palestiniana… foi um português, como não podia deixar de ser, quem enxergou a análise mais profunda, abissal, fossa das Marianas, sem tagarelar preguiçosos chavões em voga, de seu nome o cientista político João Pereira Coutinho:

“A acompanhar pelos nossos jornais o que se passa entre Israel e Gaza é um espetáculo de ignorância dificilmente imaginável num país ‘civilizado’. Tudo porque os nossos jornais partem do pressuposto de que o conflito é uma questão territorial: Israel quer a terra toda; o Hamas também; ninguém se entende; e etc. etc.

A primeira (e talvez a única) coisa a dizer sobre o assunto é que o problema não é territorial, como sucede com a Autoridade Palestiniana. É, antes, existencial. Israel reconhece as pretensões palestinianas à independência e desde o início (corrijo: mesmo antes da partição da ONU) sempre aceitou a divisão do território.

O Hamas, pelo contrário, nem sequer reconhece a existência da ‘entidade sionista’ e tem como único propósito apagar Israel do mapa. Não perceber esta diferença de base só produz um jornalismo mentecapto, feito por mentecaptos e consumido por mentecaptos”, em Correio da Manhã, 20/07/2014.

É uma pena a caracterização sociológica “cretino” ter desaparecido da cultura portuguesa muito moderna, enfiava, ajustadamente, em João Pereira Coutinho.

ajuda na descrição do cientista  com  alguns exemplos de personagens que poderiam ser associados à ideia de "cretino" na literatura clássica portuguesa:

1. Casimiro em "O Primo Basílio" (1878) de Eça de Queirós:

Casimiro é o marido de Juliana, a criada da casa de Luísa. Ele é descrito como um homem simples e sem grande inteligência, uma personagem submissa e passiva, o que poderia ser visto como um exemplo de cretinismo na obra.

2. Pacheco em "Os Maias" (1888) de Eça de Queirós:

Pacheco é uma personagem secundária, representada como um tolo que tenta ser engraçado, mas acaba sendo ridicularizado. Ele é um exemplo de personagem "cretino" no sentido de ser visto como patético e ridículo.

3. Zé Fernandes em "A Ilustre Casa de Ramires" (1900) de Eça de Queirós:

Embora Zé Fernandes seja uma personagem simpática, ele muitas vezes é retratado como ingénuo e um pouco simplório, o que o coloca numa posição de ser visto como "cretino" em certas situações.

4. O Conselheiro Acácio em "O Primo Basílio" (1878) de Eça de Queirós:

O Conselheiro Acácio é uma caricatura de um homem pretensioso, cuja fala é cheia de lugares-comuns e falta de originalidade. Ele é um símbolo de mediocridade e poderia ser considerado "cretino" pela falta de profundidade e inteligência em suas palavras.

5. Carlos da Maia em "Os Maias" (1888) de Eça de Queirós:

Embora Carlos seja o protagonista e retratado com mais profundidade, ele em certos momentos age de forma irresponsável e imatura, características que poderiam ser vistas como cretinas.

Não há melhor descrição de João Pereira Coutinho.

O problema é precisamente territorial, desacertou o cientista político português. Quando o Hamas venceu as eleições em 2006, alguns dirigentes declararam que não tinham nenhum problema com Israel, apenas exigiam que parasse a ocupação de terras palestinianas.

“Em 31 de janeiro, entrevistado pelo The Guardian, Khaled Meshaal, defendendo a legitimidade da vitória eleitoral, reiterou que o Hamas nunca reconheceria Israel, mas discutiria a possibilidade de tréguas, dizendo para Israel: ‘Se estiverem dispostos a aceitar o princípio de uma trégua de longo prazo, estamos preparados para discutir os termos’. E então, em 9 de fevereiro, o Hamas detalhou melhor a sua proposta, oferecendo um cessar-fogo de longo termo em troca de Israel retirar dos territórios ocupados em 1967.”

Não haverá retirada, não há territórios ocupados, porque não existe terra palestiniana. Sob um Deus, todo-poderoso agente imobiliário, distribuidor de terras grátis, Israel detém as escrituras de propriedade assinadas pelo Seu punho e reconhecidas num notário americano.

“Porque o meu anjo irá diante de ti, e te introduzirá na terra dos amorreus, dos heteus, dos perizeus, dos cananeus, dos heveus e dos jebuseus; e Eu os exterminarei” (Êxodo 23:23). “Fixarei as tuas fronteiras desde o Mar Vermelho até o mar dos filisteus, o Mediterrâneo, e desde o deserto até o Rio, o Eufrates; pois entregarei às tuas mãos os habitantes da terra, e expulsá-los-ás de diante de ti.” (Êxodo 23:31).

“E apareceu o Senhor a Abraão, e disse: À tua descendência darei esta terra. E Abraão construiu ali um altar dedicado a Jeová, porquanto ali o Senhor havia aparecido e falado com ele” (Génesis 12:7).

E essa terra é a Mutterland judia, por doação divina a construção de colonatos nunca cessará, em terrenos de borla, que o farisaico amor pelo dinheiro encarece. “O tema é caro à classe média, num país onde a escassez de habitação e a especulação fizeram aumentar o preço das casas em 50 por cento em dois anos”, no jornal Público em 2011. “Especulação que levou a um aumento de 55 % no preço da habitação em seis anos”, na revista Visão em 2015.

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