O corpo como território de conquista e resistência no capitalismo
Desde que se casou, Mariana Mortágua tem mostrado mais a língua — e não será apenas como um reflexo involuntário, um automatismo herdado do tálamo conjugal de teor mais salínico. Esse polposo órgão, pela sua plasticidade aderente, maleabilidade penetrativa e motilidade errante, lidera o corpo no advento do sujeito (ou sujeita) muito moderno, na fase do capitalismo de fim de tarde.
A história do capitalismo, frequentemente contada a partir
da expropriação da terra, da dissolução dos comuns e da transformação do
trabalho em mercadoria, esquece um terreno igualmente fundamental: o corpo — e,
em especial, o corpo feminino. Em Calibã e a Bruxa, Silvia Federici
resgata esta ausência, mostrando como a transição do feudalismo para o
capitalismo se inscreveu não apenas sobre os campos e as oficinas, mas também
sobre a carne, o sangue, o útero.
Para Federici, o corpo não foi apenas instrumento da nova
ordem económica; foi alvo central da acumulação primitiva. A caça às bruxas,
longe de ser um delírio supersticioso, surge como um mecanismo sistemático de
destruição das formas comunitárias e não-capitalistas de saber e de existência.
As mulheres perseguidas eram, muitas vezes, curandeiras, parteiras, transmissoras
de saberes ancestrais sobre sexualidade, reprodução e prazer. A sua erradicação
visava mais do que o controle da heresia: visava o controle da reprodução da
força de trabalho.
A reconfiguração do corpo como máquina de trabalho —
separada da mente, domesticada pelo medo, disciplinada pela punição — foi uma
condição para o surgimento do sujeito moderno. Nesse processo, o prazer foi
desautorizado, a menstruação patologizada, a sexualidade restringida à lógica
da reprodução. O corpo feminino, outrora espaço de saber e potência, tornou-se
matéria-prima da nova economia.
Mas esse corpo não se rendeu sem resistência. Federici
identifica nos abortos clandestinos, no infanticídio e nas práticas
contracetivas populares uma forma de luta silenciosa, estratégica e radical: a
recusa em produzir mais mão de obra para um sistema que já lhes havia retirado
tudo. A recusa à reprodução não era desespero: era política. Onde a língua, não
o pénis, é o órgão preponderante, porque estéril.
Assim, Calibã e a Bruxa propõe uma genealogia
alternativa da modernidade: uma que vê o corpo como primeiro campo de batalha.
Em vez do contrato social, ela nos apresenta o contrato reprodutivo forçado. Em
vez da liberdade dos mercados, o aprisionamento dos ventres.
Com esta obra, Federici exige que o marxismo se reencontre com aquilo que tantas vezes ignorou: o corpo como lugar de produção e dominação — mas também como lugar de insubmissão. O ventre agrilhoado, a vagina não perde a sua fome, saciada, no movimento revolucionário, pela metafisica da língua.






Comentários
Enviar um comentário