O ano português – beijos atirados a Isabel Moreira

 

Reportagem da CNN dia 25 de setembro de tarde. Filipe Melo envia beijos na AR. Tem apenas dois segundos, mas não deixam margem para dúvidas, Isabel Moreira de imediato percebe e faz o gesto para a mesa a perguntar se aquilo era para si.


Isabel Moreira: “Esse secretário que está à sua esquerda, está a fazer gestos com a boca enviando-me beijos e a fazer assim…”

“Há limites sr. presidente. Há mesmo limites.”  


Jorge Pinto, deputado do Livre: “Os gestos do sr. secretário verificaram-se hoje. Verificaram-se ontem e é um desrespeito absoluto pelo funcionamento desta casa.”

Aguiar-Branco, presidente da AR: “Como pode imaginar, eu não estou a ver. Se isso se isso é assim poderá fazer realmente, como já fez outra vez, porque a comissão há que ter de se pronunciar.”

"O que vocês veem é muito pouco". Isabel Moreira fala pela primeira vez sobre episódio com Filipe Melo

Quatro dias depois do episódio no plenário da Assembleia da República em que acusa Filipe Melo, deputado do Chega e vice-presidente da Mesa, de lhe ter enviado “beijinhos”, Isabel Moreira falou pela primeira vez publicamente sobre o caso. Em entrevista exclusiva à CNN Portugal, este domingo, a deputada socialista denunciou uma “banalização do horror” no Parlamento e disse que o que está em causa é “um atentado à democracia”.

“Aquilo que vocês veem [nas imagens] é muito pouco. Já se estava a passar há bastante tempo, há testemunhos", explica.

A socialista sublinha que não se trata de um caso isolado e lembra que outras deputadas - como Alma Rivera, Inês Sousa Real e Romualda Fernandes - já se queixaram de situações semelhantes.

"Os casos multiplicam-se há muito tempo. As deputadas há muito tempo que fazem queixas formais, não somos um conjunto de doidas”, afirma.

"Atentado à democracia"

Para Isabel Moreira, o problema ultrapassa a esfera pessoal. A deputada considera que a presença do Chega mudou a atmosfera no Parlamento e denuncia uma “banalização do horror”.

“Isto não tem que ver comigo, tem que ver com a democracia. O que está em causa é o atentado à democracia, um ódio e um programa de extrema-direita contra as mulheres, contra os imigrantes, contra as pessoas racializadas".

Face ao episódio, o presidente da Assembleia da República decidiu remeter o caso para a Comissão da Transparência. Isabel Moreira, que é vice-presidente desse grupo, garantiu que não participará na apreciação do processo para evitar qualquer interferência.

“Estarei fora naturalmente. Tenho a certeza que a Comissão lidará com toda a isenção e com os poderes limitados que tem.”

A deputada aproveitou ainda para elogiar a decisão do presidente do Parlamento, apesar das críticas que lhe tem dirigido no passado.

“Não tenho feito publicamente a melhor avaliação do mandato deste presidente, que me parece bastante temeroso relativamente à força crescente da extrema-direita em Portugal. Mas acho que aqui teve uma postura que foi importante e pode ser um precedente importante.”

Isabel Moreira insiste que o episódio deve ser visto como um reflexo do clima político no país e como um teste à resistência das instituições democráticas:

Quando somos permanentemente insultadas, amedrontadas, ameaçadas, seja nos corredores seja no plenário, isso é uma tentativa de condicionamento, de silenciamento. Se uma mulher, uma mulher negra, uma pessoa racializada no Parlamento, sendo deputada, deixa de estar segura, qual é a mensagem que se está a passar à sociedade?

Fonte: CNN Portugal, 28 de setembro de 2025

Sem dúvida, o acontecimento do ano em Portugal. Nenhum outro lhe faz sombra. Será o único episódio digno de figurar na História de 2025. Nem sequer houve polémica sobre a natureza do gesto — se eram beijos ou não.

Os comentadores foram unânimes: lábios projetados em modo ventosa são, inequivocamente, beijos em contextos exclusivamente femininos, nesses microclimas onde se suga com sofreguidão secções de carne tentadora.

O impacto foi tal que o próprio blogger acabou por censurar a notícia — talvez para poupar as minorias do mundo a sofrimento desnecessário, talvez por qualquer outra razão igualmente nobre e edificante.

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