Por que razão Israel reconheceu a Somalilândia e porque está a Liga Árabe em alerta?

 


Posição de Israel gera nova tensão no Corno de África e desencadeou reação diplomática em cadeia. A ONU já marcou sessão urgente, a Liga Árabe convocou reunião extraordinária e Trump recebe Netanyahu, esta segunda-feira

O reconhecimento da Somalilândia por Israel, anunciado por Benjamin Netanyahu na passada sexta-feira, abriu uma nova frente de tensão no Corno de África e desencadeou uma reação diplomática em cadeia que chegou rapidamente ao Conselho de Segurança da ONU. A decisão, inédita entre os Estados-membros das Nações Unidas, foi recebida como um “precedente perigoso” por países árabes, africanos e pela China, que veem no gesto israelita mais do que um simples movimento de política externa: um sinal de reposicionamento estratégico num dos corredores marítimos mais sensíveis do mundo.

A Somalilândia, que declarou unilateralmente a independência em 1991, sempre funcionou como um Estado de facto, com instituições próprias e relativa estabilidade quando comparada com a Somália, mergulhada há décadas em conflito e fragmentação. Mas nenhum país reconheceu formalmente a sua soberania, até agora. Ao fazê-lo, Israel abriu espaço a leituras que extravasam a questão somali.

Netanyahu justificou o gesto com o “espírito dos Acordos de Abraão”, sublinhando a intenção de aprofundar parcerias regionais e reforçar a segurança no Mar Vermelho. Mas analistas citados por jornais internacionais como The Guardian e The New York Times apontam para motivações mais amplas: Israel procura novos aliados num momento de crescente isolamento diplomático e tenta consolidar posições estratégicas num eixo que liga o Mediterrâneo ao Índico, crucial para o comércio global e para a navegação militar.

Liga Árabe convocou reunião extraordinária

A leitura árabe é, porém, muito diferente. A Liga Árabe convocou uma reunião extraordinária para discutir o que considera uma “ameaça à paz” e um ataque direto à soberania da Somália, um dos seus Estados‑membros. Nos bastidores, vários diplomatas admitem recear que o reconhecimento seja parte de um plano mais vasto: encontrar territórios africanos que possam servir de destino para deslocações forçadas de palestinianos, uma suspeita alimentada por relatos de conversas discretas entre Israel e governos africanos sobre a transferência de populações de Gaza.

A Autoridade Palestiniana foi a primeira a verbalizar essa inquietação, acusando Israel de procurar “soluções externas” para a crise humanitária e política que se agrava no enclave. A hipótese é rejeitada por Israel, mas a sensibilidade do tema explica a rapidez com que o mundo árabe reagiu. Para países como Egito, Jordânia ou Arábia Saudita, qualquer movimento que possa alterar o equilíbrio demográfico palestiniano é visto como uma linha vermelha.

A Somália, por seu lado, classificou o gesto como um “ataque deliberado” à sua integridade territorial. O Governo Federal teme que o reconhecimento legitime outras reivindicações separatistas e enfraqueça ainda mais um Estado já fragilizado pela ação do Al‑Shabaab, que também condenou a decisão e prometeu combatê‑la “por todos os meios”.

A China juntou-se ao coro de críticas, reafirmando o seu apoio à unidade somali e denunciando o que considera uma ingerência externa num país onde Pequim tem interesses económicos e estratégicos relevantes. A União Europeia, mais cautelosa, apelou ao diálogo e reiterou o princípio da integridade territorial da Somália.

Trump continua de portas abertas para Netanyahu

No meio da tempestade diplomática, os Estados Unidos adotaram uma posição ambígua. Donald Trump descartou, num primeiro momento, seguir o exemplo israelita, mas admitiu “estudar a ideia”, numa declaração que deixou Washington com margem de manobra para ajustar a sua posição consoante a evolução do cenário regional.

Entretanto, Benjamin Netanyahu reúne-se esta segunda-feira, dia 29, com o seu aliado Donald Trump, naquele que será o quinto encontro entre os dois líderes nos Estados Unidos, desde o regresso do presidente republicano à Casa Branca, há quase um ano. A agenda será extensa e além do Irão e da Faixa de Gaza, esta questão estará com certeza em cima da mesa.

O que está em causa, no fundo, é a interseção entre três tabuleiros: o futuro da Somalilândia, a disputa geopolítica no Mar Vermelho e a questão palestiniana. Israel abriu uma porta que muitos consideravam fechada. A forma como o mundo árabe, e não só, reagirá nas próximas semanas dirá se essa porta conduz a uma nova arquitetura regional ou a mais um foco de instabilidade num dos pontos mais voláteis do planeta.

Fonte: Expresso, 28 de dezembro de 2025

Somalilândia: o território que declarou a independência há mais de 30 anos e passou a ser reconhecido por Israel

Este território semidesértico, com uma dimensão aproximada à da Nicarágua, declarou a sua independência em 1991.

No entanto, mais de 34 anos após essa declaração conturbada, a Somalilândia não tinha sido reconhecida como Estado por nenhuma outra nação.

Isso mudou na sexta-feira (26/11), quando Israel se tornou o primeiro país a reconhecê-la formalmente como Estado independente.

O presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi, descreveu a declaração do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, como um “momento histórico”.

A decisão foi, contudo, condenada pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da Somália, do Egito, da Turquia e do Djibuti, que, num comunicado conjunto, afirmaram a sua “rejeição total” ao anúncio de Israel.

O reconhecimento israelita poderá incentivar outras nações a seguirem o mesmo caminho, reforçando a posição diplomática da região separatista e facilitando o seu acesso aos mercados internacionais.

Exploramos a história singular deste território com 137 600 km², lar de cerca de 3,5 milhões de pessoas, considerado uma verdadeira anomalia no Corno de África.

A origem

Situada entre a Etiópia e a Somália — Estado do qual faz oficialmente parte —, a Somalilândia foi um protetorado britânico até à sua independência, a 26 de junho de 1960.

Essa autonomia, porém, durou pouco: apenas cinco dias depois, o território fundiu-se com a Somalilândia Italiana, também recentemente independente. Foi uma união que muitos somalilandeses passaram a lamentar quase de imediato.

As divergências com os vizinhos do sul começaram praticamente logo após o Parlamento aprovar a lei que instituiu a República da Somália.

A 20 de Julho de 1961, um ano após a criação do novo Estado, realizou-se um referendo para a elaboração de uma nova Constituição. Apesar da rejeição expressiva por parte da população da Somalilândia, o texto foi aprovado, tornando-se a Constituição da jovem república.

Menos de uma década depois, o país entrou em colapso.

Em 1967, Abdirashid Ali Shermarke foi eleito presidente e nomeou o somali Mohamed Haji Ibrahim Egal como primeiro-ministro.

Dois anos mais tarde, o presidente foi assassinado pelo seu guarda-costas, num golpe liderado pelo general Mohamed Siad Barre, que tomou o poder.

Assim, a Somália transformou-se na República Democrática da Somália.

«Deixarei edifícios, mas não pessoas»

O governo de facto de Siad Barre agravou o descontentamento na Somalilândia e alimentou o desejo de muitos somalilandeses de seguirem um caminho diferente.

Esse controverso oficial militar marxista-leninista gerou descontentamento não apenas na Somalilândia, mas em todo o país, e esse mal-estar acabaria por desencadear uma revolução.

«Quando eu deixar a Somália, deixarei edifícios, mas não pessoas», prometeu Barre no final da década de 1980.

Um relatório encomendado pelas Nações Unidas e publicado no início deste século concluiu que «o crime de genocídio foi concebido, planeado e perpetrado» pelo governo somali contra o povo Isaaq, no norte da Somália, entre 1987 e 1989.

Durante esse período, a força aérea somali realizou bombardeamentos em grande escala contra Hargeisa, a capital da autoproclamada República da Somalilândia, matando milhares de civis e destruindo parcialmente a cidade.

Após vários anos de conflito sangrento, em 1991, Siad Barre foi deposto, o que conduziu a uma guerra civil.

Falta de reconhecimento internacional

O fim do regime militar levou também a Somalilândia a declarar unilateralmente a sua independência. Na altura, era — e continua a ser — um oásis de relativa calma numa das regiões mais turbulentas do mundo.

Mais de três décadas depois, a Somalilândia funciona quase como um país independente, mas sem o ser, pelo menos oficialmente.

Dispõe de um sistema político próprio, de um parlamento, de forças policiais próprias, de bandeira, moeda e emite os seus próprios passaportes.

A falta de apoio internacional foi agravada pela crise diplomática com a Somália após o acordo assinado em janeiro de 2024 entre a Etiópia e a Somalilândia, que concedeu a Adis Abeba acesso ao mar através do porto de Berbera e abriu caminho a um eventual reconhecimento.

Mogadíscio — capital da Somália e sede do seu governo federal — denunciou o acordo como uma violação da sua soberania, considerando a Somalilândia uma parte inseparável do país.

Embora Israel se tenha tornado esta semana o primeiro país a reconhecer formalmente a Somalilândia como nação soberana, o resto da comunidade internacional continua a não reconhecer a sua independência, incluindo as Nações Unidas, a Liga Árabe e a União Africana.

Comparações com Taiwan

O caso da Somalilândia é frequentemente comparado ao de Taiwan. Ambos aparentam ser Estados plenamente funcionais e proclamam com orgulho a sua independência face a vizinhos maiores — a Somália e a China — que insistem em considerar essas regiões como parte integrante dos seus territórios.

Reconhecendo essa situação, Hargeisa (capital da Somalilândia) e Taipé (capital de Taiwan) reforçaram as suas relações e estabeleceram oficialmente laços diplomáticos em 2020, provocando a ira dos respetivos vizinhos.

O representante taiwanês na Somalilândia, Allen Chenhwa Lou, descreveu a relação entre os dois territórios como «uma situação de ganho mútuo», numa entrevista à BBC no mês passado.

«Não precisamos de procurar a independência agora porque já somos independentes. O que ambos precisamos é de reconhecimento. Partilhamos esta situação difícil», acrescentou.

Um oásis de estabilidade

Para além da questão política e da independência institucional, a Somalilândia é também muito mais estável do que o resto da Somália.

É considerada por especialistas um exemplo de democracia na região. Os seus líderes chegam ao poder através de eleições competitivas, cujos resultados — ao contrário do que acontece noutros países africanos — são respeitados, mesmo quando a oposição vence.

E, apesar de ser uma cidade marcada por pobreza generalizada e uma taxa de desemprego muito elevada, Hargeisa é uma das cidades mais seguras da região.

Como escreveu a jornalista da BBC Mary Harper em 2016, no 25.º aniversário da declaração de independência do território: «A Somalilândia tem relativa paz e estabilidade».

«Por vezes viajo entre a Somália e a Somalilândia no mesmo dia, e o contraste não podia ser maior. Na Somália, enquanto jornalista ocidental, não consigo deslocar-me sem seis guarda-costas fortemente armados (...). Na Somalilândia, ando sozinha, mesmo à noite», relatou.

O jornalista somali Farhan Jimale explica que esta relativa paz se deve aos esforços desenvolvidos na Somalilândia desde a década de 1990.

«Havia anciãos locais que atuaram como mediadores. Reuniram todas as comunidades locais e formaram um governo local baseado na partilha do poder.»

A posição da Somália

A Somália considera a Somalilândia parte integrante do país.

Nos últimos 10 anos, Hargeisa e Mogadíscio realizaram negociações de paz, mas, para a Somália, a integridade territorial do país é inegociável, sublinha Jimale.

«Ainda assim, reconhece a Somalilândia como uma região que desenvolveu as suas próprias autoridades locais», acrescenta.

Nos últimos anos, embora o governo federal somali tenha conseguido consolidar o seu controlo sobre Mogadíscio e outras grandes cidades, grupos islamistas como o Al-Shabaab continuam a ser uma ameaça ativa e recuperaram influência em várias zonas do país.

Se a Somália alcançar a paz, terá menos razões para reconhecer a independência da Somalilândia.

«O principal argumento dos separatistas da Somalilândia é que a Somália precisa primeiro de pôr a casa em ordem antes de ambas as partes se sentarem à mesa para conversar», destaca Jimale.

Mas, se o país permanecer mergulhado numa grave crise de segurança, a luta pela independência não cessará.

Seja como for, a decisão final sobre a independência da Somalilândia terá provavelmente de partir de Mogadíscio, tal como aconteceu com a secessão do vizinho Sudão do Sul, que o governo sudanês acabou por aceitar após um referendo.

Fonte: BBC News Mundo, 28 de dezembro de 2025

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