Mata mais de metade das pessoas que infeta. O que precisa de saber sobre o vírus Nipah

Perry Mason (1957-1966) – Toby Michaels, Frank Aletter

A Organização Mundial da Saúde reportou, esta quinta-feira, dois casos de um vírus raro num estado do leste da Índia

O vírus — chamado Nipah — mata mais de metade das pessoas que infeta. O vírus Nipah, que recebeu o nome da aldeia na Malásia onde vivia o primeiro doente conhecido, faz parte da mesma família de vírus do sarampo. Ainda assim, não é tão contagioso como o sarampo, mas é significativamente mais mortal.

Como é transmitido?

O Nipah é um vírus zoonótico, o que significa que pode ser transmitido de animais para humanos. Na maioria dos casos, isso acontece através do contacto direto com um porco ou morcego infetado, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Comer frutas ou produtos à base de fruta — como seiva crua de palma — contaminados com urina ou saliva de morcegos frugívoros infetados também contribui para a propagação.

Também pode propagar-se diretamente de pessoa para pessoa. A transmissão, no entanto, ocorre através de contacto muito próximo com o indivíduo infetado.

Quais são os sinais da doença?

Os sintomas podem demorar entre quatro a 14 dias a surgir após a infeção, segundo a OMS, sendo raros os casos assintomáticos.

Os primeiros sinais de infeção não são específicos e incluem sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, dores de cabeça, dores musculares, vómitos e dor de garganta. Em cerca de dois terços dos doentes, a doença progride rapidamente, podendo ocorrer coma num prazo de cinco a sete dias. Algumas infeções também provocam sintomas respiratórios, como tosse e alterações anormais nas radiografias ao tórax.

A maioria dos doentes apresenta alterações no líquido que envolve o cérebro, comuns noutras infeções virais cerebrais. Alterações causadas pela morte de tecidos podem ser observadas em tomografias ao cérebro, e a atividade elétrica cerebral permite prever a gravidade da doença.

Quão perigoso é?

O vírus é classificado pelos CDC como nível de biossegurança quatro — a categoria mais elevada, que inclui os agentes patogénicos mais perigosos, como o Ébola — e tem potencial para ser utilizado como agente de bioterrorismo.

Embora tenham ocorrido apenas alguns surtos, o Nipah é considerado uma ameaça à saúde pública devido à sua elevada taxa de letalidade, ao potencial de transmissão entre humanos, à capacidade de provocar surtos e à ausência de vacinas ou tratamentos aprovados.

Nos casos mais graves, o vírus pode atacar partes do cérebro que controlam funções vitais básicas, como o movimento dos olhos, o ritmo cardíaco e a pressão arterial, causando danos permanentes.

Os sobreviventes apresentam frequentemente fadiga e alterações no funcionamento do sistema nervoso. Estes efeitos persistem muitas vezes durante anos.

Como é diagnosticado?

Os testes são geralmente realizados através de uma amostra de sangue para detetar e quantificar proteínas específicas.

Como é tratado?

Não existe vacina nem medicamento específico para o Nipah. Os médicos prestam cuidados de suporte, e os doentes que desenvolvem sintomas neurológicos graves podem necessitar de ajuda respiratória.

Um medicamento chamado ribavirina — aprovado para ser usado em combinação com outros fármacos no tratamento da hepatite C crónica — pode oferecer algum benefício, embora os resultados sejam contraditórios.

Essencialmente, os médicos concentram-se na prevenção, reduzindo o risco de transmissão de animais para humanos e implementando medidas de controlo de infeções ao lidar com pessoas infetadas.

Onde ocorrem surtos?

Os surtos de Nipah ocorrem quase todos os anos em partes da Ásia, frequentemente no Bangladesh, Índia, Malásia, Filipinas e Singapura, sendo o Bangladesh o país com maior número de infeções.

Isto acontece porque os morcegos frugívoros que transmitem o vírus — entre os maiores morcegos do mundo — são nativos destas regiões.

O vírus propaga-se normalmente entre dezembro e maio, durante a época de reprodução dos morcegos e da colheita da seiva da palma.

O vírus Nipah também foi encontrado em morcegos na China, Camboja, Tailândia, Madagáscar e Gana. Nunca foi registado um caso de Nipah nos Estados Unidos.

Quão comum é?

É muito raro. Até 2024, foram registados cerca de 754 casos a nível mundial, embora este número seja provavelmente subestimado.

Fonte: TVI Notícias, 30 de janeiro de 2026

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Eva Vlaardingerbroek

Tomás Taveira: as cólicas de um arquiteto