O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis
Perry Mason
(1957-1966) – Michael Pate, Peggy McCay
Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às
mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a
virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump,
responsável por redesenhar a política de imigração do país.
Nas redes sociais, Miller não
demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou
matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto
fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece
concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita
que Pretti fosse um assassino.
No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu
que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio
que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por
reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.
Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se
levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que
Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta
segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o
“czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e
melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.
Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de
Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o
governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis,
Jacob Frey.
“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele
não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que
outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um
ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, cofundador
do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.
Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao
serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes
relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o
Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder
de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação
de Donald Trump.
“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca
é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este
processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando,
ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que
Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não
apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.
Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa
para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o
verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo
de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.
Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro
“arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais
números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.
“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal.
Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.
Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de
Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou
Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.
“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista
das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso,
sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem,
que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a
morte” de Pretti.
Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não
acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o
presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas
suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não
o vai atirar borda fora precipitadamente.”
“Stephen Miller é demasiado
dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer,
para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo
em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”,
corrobora Rick Wilson.
Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump
manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão.
É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma
“organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo
“governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.
Fonte: CNN Portugal, 30 de janeiro
de 2026

Comentários
Enviar um comentário