A música não era para aqui: Paul Thomas Anderson e Jonny Greenwood exigem remoção de tema de Phantom Thread do documentário Melania
Grace
(2021) - Madalina Bellariu Ion, Maja Bloom
Utilização
não autorizada da banda sonora gera polémica e levanta questões sobre direitos
criativos em Hollywood
Nem todo o silêncio é elegante — e, neste caso, a música
também não estava no sítio certo. Paul Thomas Anderson e Jonny Greenwood
pediram formalmente a remoção de um excerto da banda sonora de Phantom
Thread do controverso documentário Melania, alegando uma violação direta do
acordo contratual do compositor.
A revelação foi feita através de um comunicado conjunto,
obtido pela Variety, depois de ter sido detetada a utilização de música
do filme de 2017 no documentário realizado por Brett Ratner, centrado na figura
da antiga Primeira-Dama dos Estados Unidos. Greenwood foi claro: apesar de não
deter os direitos de autor da partitura — pertencentes à Universal —, o estúdio
falhou ao não o consultar para esta utilização por terceiros, algo que
constitui uma quebra explícita do seu contrato como compositor.
Phantom Thread: uma identidade sonora demasiado específica para ser reciclada
A decisão não surpreende quem conhece a relação quase
simbiótica entre Anderson e Greenwood. Em Phantom Thread, a música não é
mero acompanhamento: é nervo, tensão, desejo e ameaça contida. A partitura,
marcada por cordas inquietas e uma elegância venenosa, foi amplamente elogiada
pela crítica, incluindo Owen Gleiberman, da Variety, que destacou a sua
atmosfera “rapturária, carregada de ansiedade”, evocando o suspense
hitchcockiano dos anos 50.
Transportar essa identidade sonora para um documentário
político — ainda por cima sem consentimento criativo — não é apenas uma questão
legal, mas também artística. Para Anderson e Greenwood, a música foi retirada
do seu contexto narrativo e emocional, perdendo significado e integridade.
Um documentário caro, polémico… e financeiramente
difícil de justificar
O caso ganha ainda mais peso quando se olha para os números
em redor de Melania. O documentário arrecadou cerca de 13,35 milhões de dólares
nas bilheteiras norte-americanas após duas semanas — um valor respeitável para
o género, mas claramente insuficiente face ao investimento colossal da Amazon
MGM Studios.
Segundo dados revelados pela imprensa especializada, o estúdio terá pago cerca de 40 milhões de dólares pelos direitos do filme e de uma série documental associada, somando depois mais 35 milhões em marketing para a estreia em sala. Um gasto praticamente sem precedentes no universo dos documentários, levantando suspeitas na indústria sobre possíveis motivações políticas por detrás da operação.
Jonny Greenwood: mais compositor de cinema do que
rockstar
Nos últimos 25 anos, Jonny Greenwood tem sido mais prolífico
no cinema do que nos palcos com os Radiohead. Para além de Phantom Thread,
assinou ou colaborou em bandas sonoras de filmes como There Will Be Blood,
Inherent Vice, Liquorice Pizza e One Battle After Another,
consolidando-se como um dos compositores mais singulares do cinema
contemporâneo.
Este episódio reforça uma ideia essencial: a música no
cinema não é decorativa. É autoria. É narrativa. E não pode ser usada como
papel de parede sonora sem o consentimento de quem a criou.
Fonte: Clube de Cinema, 9 de fevereiro de 2026



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