Astrónomos suspeitam que descobriram objeto que pode desvendar um dos maiores mistérios do Universo
A imagem mostra a localização da Nuvem-9, situada a cerca de
2000 anos-luz da Terra. A cor magenta difusa representa dados de rádio obtidos
pelo Very Large Array (VLA), um instrumento terrestre, que indicam a presença
da nuvem. O círculo tracejado assinala o pico da emissão de rádio, onde os
investigadores concentraram a sua procura por estrelas
Chama-se Cloud-9
Os astrónomos podem ter descoberto um tipo de objeto
astronómico até agora desconhecido, apelidado "Cloud-9", que pode
lançar luz sobre a matéria negra, um dos maiores mistérios do Universo.
A matéria negra é uma substância enigmática que molda o
cosmos e lhe dá estrutura. Embora nunca tenha sido diretamente observada,
acredita-se que a matéria escura constitui 85% da matéria total do Universo e
pode ser detetada devido aos seus efeitos gravitacionais.
A Cloud-9 é considerada uma nuvem de matéria escura que pode
ser um resquício da formação de galáxias dos primórdios do Universo, de acordo
com uma nova investigação publicada no Astrophysical Journal Letters.
"Esta nuvem é uma janela para o Universo escuro",
diz o coautor do estudo Andrew Fox, astrónomo do Space Telescope Science
Institute, em Baltimore, num comunicado.
"Sabemos pela teoria que a maior parte da massa do
Universo deve ser matéria escura, mas é difícil detetar esta matéria escura
porque não emite luz. A Cloud-9 dá-nos uma visão rara de uma nuvem dominada por
matéria escura", acrescenta Fox, que está ligado à Agência Espacial
Europeia (ESA) e à Associação de Universidades para a Investigação em
Astronomia (AURA).
Tem-se teorizado que a matéria escura teve origem no Big
Bang, que levou à criação do Universo há 13,8 mil milhões de anos, e constitui
nuvens cósmicas que nunca acumularam gás suficiente para formar estrelas.
Observações recentes efetuadas com o Telescópio Espacial
Hubble revelaram que a Cloud-9 não tem estrelas.
"Este é o conto de uma galáxia falhada", diz o
coautor do estudo Alejandro Benitez-Llambay, astrofísico e professor assistente
no departamento de física da Universidade de Milano-Bicocca em Milão, Itália.
"Na ciência, normalmente aprendemos mais com os fracassos do que com os
sucessos. Neste caso, não ver estrelas é o que prova que a teoria está correta.
Diz-nos que encontrámos no universo local um bloco de construção primordial de
uma galáxia que ainda não se formou."
Futuras observações da nuvem, e a descoberta de mais objetos
como a Cloud-9, podem levar a uma maior compreensão da matéria escura, da
formação e evolução das galáxias e dos primórdios do Universo.
A procura de objetos fantasma
Ao contrário das estrelas brilhantes ou das galáxias cheias
de estrelas, as galáxias falhadas são escuras, o que as torna difíceis de
encontrar.
À primeira vista, a Cloud-9 pode ter sido confundida com uma
galáxia anã ténue ou uma pequena galáxia composta por cerca de 1000 a vários
milhares de milhões de estrelas, diz a equipa de investigação. Estas galáxias
são pequenas quando comparadas com a nossa Via Láctea, que contém centenas de
milhares de milhões de estrelas.
A Cloud-9 foi descoberta há três anos durante um estudo do gás hidrogénio perto da galáxia Messier 94 pelo Telescópio Esférico de Abertura de Quinhentos Metros, ou FAST, na província chinesa de Guizhou. O Telescópio Green Bank e o observatório Very Large Array foram utilizados para observações de acompanhamento e as últimas descobertas do Hubble confirmaram a natureza sem estrelas da galáxia falhada.
A galáxia Messier 94 está localizada a 16 milhões de
anos-luz de distância da Terra
"As teorias da formação de galáxias previam a
existência de um limiar mínimo de matéria escura necessário para desencadear a
formação de estrelas e transformar uma nuvem escura numa galáxia
luminosa", afirma Fox. "Com a Cloud-9, temos um exemplo de um objeto
logo abaixo deste limiar, que não contém estrelas."
O objeto recebeu a designação Cloud-9 porque é a nona nuvem
de gás encontrada na periferia da galáxia espiral Messier 94. Ligeiras
distorções do gás sugerem que pode haver interações entre a nuvem e a galáxia.
Embora os astrónomos já tenham observado nuvens de
hidrogénio anteriormente, a Cloud-9 destaca-se por ser compacta e esférica, em
vez de ter um tamanho irregular. Mas isso não significa que a Cloud-9 não seja
grande.
O núcleo é composto por hidrogénio neutro e tem um diâmetro
de 4900 anos-luz. Um ano-luz é a distância que a luz percorre num ano, que é de
9,46 triliões de quilómetros. A quantidade de hidrogénio dentro da nuvem é
cerca de 1 milhão de vezes a massa do Sol. Astrónomos estimam que cerca de 5
mil milhões de massas solares de matéria escura constituem o resto da nuvem.
"Deve haver uma quantidade enorme de gravidade
'invisível' a mantê-la unida", aponta a coautora do estudo, Rachel Beaton,
astrónoma assistente no Space Telescope Science Institute. "O hidrogénio
neutro que vemos simplesmente não fornece massa suficiente; tem de haver um
halo de matéria negra que forneça o suporte gravitacional" e que atue como
um andaime invisível para a nuvem.
Atualmente, a Cloud-9 encontra-se num estado de equilíbrio,
acrescenta Beaton.
"Tem apenas massa suficiente para manter o gás, mas não
o suficiente para forçar esse gás a formar estrelas", escreve num e-mail.
"Esta raridade explica porque não encontrámos muitos destes objetos no
universo local — a maioria dos halos ou perde completamente o gás ou torna-se
galáxias de pleno direito".
Definir a verdadeira natureza da Cloud-9
A Cloud-9 ainda pode transformar-se numa galáxia, observa a
equipa. Se o objeto acumular mais massa, o gás no interior da nuvem entrará em
colapso e fragmentar-se-á, levando à formação de estrelas — o que transformaria
a Cloud-9 numa galáxia de florescimento tardio.
"No entanto, a outra possibilidade é que a nuvem perca
massa, o que pode acontecer se cair mais perto de M94", diz Fox,
referindo-se a Messier 94, "e o seu gás seja despojado como uma nuvem num
túnel de vento até que a nuvem deixe de existir".
Futuras observações de alta resolução podem dar uma visão
mais clara do núcleo da Cloud-9, um "Santo Graal" que pode revelar
quanta matéria escura está contida no centro do objeto.
"Podemos excluir certos candidatos à matéria escura —
um passo importante para restringir a natureza da própria partícula de matéria
escura usando dados astrofísicos", refere Beaton.
Embora a Cloud-9 seja uma nuvem intrigante, não é a primeira
a ser discutida em cenários de "galáxias escuras" - e não se podem
excluir explicações mais mundanas, diz Jacco van Loon, professor associado de
astrofísica e diretor do Observatório Keele da Universidade de Keele, em
Inglaterra.
Por exemplo, uma outra nuvem de hidrogénio referida no
estudo, designada FAST J0139+4328, foi recentemente descoberta como sendo uma
galáxia muito ténue, aponta van Loon.
"A massa das estrelas que se descobriu pertencerem à
FAST J0139+4328 é dez vezes superior ao que eles pensavam ser possível, por
isso é concebível que na sua própria nuvem, que contém quase cem vezes menos
hidrogénio do que a FAST J0139+4328, exista uma galáxia ainda mais ténue do que
aquela que eles esperavam detetar mesmo com o Telescópio Espacial Hubble",
escreve num e-mail. "Pode especular-se, mas para afirmar que uma nuvem de
gás oticamente escura é uma relíquia de matéria escura são necessárias provas
mais fortes e inequívocas."
Van Loon não esteve envolvido na investigação, mas contactou
a equipa e expressou cautela sobre as afirmações de que a Cloud-9 era uma nuvem
de matéria escura quando viu o anúncio da investigação antes da sua publicação.
Ele é mencionado nos agradecimentos do estudo.
Entretanto, a equipa continua a procurar objetos semelhantes
para determinar se a Cloud-9 é um caso isolado ou se faz parte de um grupo
maior de relíquias.
As últimas observações do Hubble acrescentam uma peça
importante ao puzzle deste objeto intrigante, disse Kristine Spekkens,
professora de astronomia, astrofísica e relatividade na Queen's University em
Kingston, Ontário. Spekkens não esteve envolvida no novo estudo, mas observou
anteriormente a Cloud-9 usando o Telescópio Green Bank.
"Um estudo mais aprofundado deste gás sem estrelas, tal
como a sua forma invulgar, ajudará a desvendar a sua origem como uma galáxia
sem estrelas ou uma nuvem flutuante", considera Spekkens. "Seja qual
for a sua natureza, a Cloud-9 é um exemplo fantástico do futuro brilhante deste
campo de estudo, ajudando os investigadores a desvendar os mistérios do
universo."
Fonte: CNN Portugal, 7 de fevereiro de 2026


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