Cientistas resolvem mistério sobre origem da vida complexa na Terra
A
investigação, publicada na revista Nature, analisou mais de 13 mil
genomas microbianos e sugere que a vida complexa evoluiu num ambiente rico em
oxigénio
Cientistas descobriram que os nossos antepassados
microbianos usavam ambos oxigénio, resolvendo o mistério presente na teoria de
que a vida complexa na Terra surgiu após a união de dois micróbios muito
diferentes, foi esta quarta-feira divulgado.
O problema da teoria "mais amplamente aceite" para
a evolução das "plantas, animais e fungos, conhecidos coletivamente como
eucariotas" era não conseguir explicar como é que os dois micróbios
estavam tão próximos para se unirem, quando um precisa de oxigénio para
sobreviver e o outro era conhecido por viver em espaços sem este gás.
Estudo revela que antepassados "usam, ou pelo
menos toleram, o oxigénio"
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature,
algumas arqueias Asgard, grupo de organismos do qual fazia parte um daqueles
antepassados e que hoje em dia vivem sobretudo nas profundezas do mar e noutros
espaços sem oxigénio, "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio".
"A maioria dos Asgards vivos de hoje foram encontrados
em ambientes sem oxigénio", diz um dos autores do estudo, Brett Baker,
professor associado de Ciências Marinhas e Biologia Integrativa na Universidade
do Texas, nos Estados Unidos, citado num comunicado de divulgação do estudo
desta instituição.
"Mas aqueles que estão mais relacionados com os
eucariotas vivem em locais com oxigénio, como sedimentos costeiros pouco
profundos, flutuando na coluna de água, e têm muitas vias metabólicas que
utilizam oxigénio. Isto sugere que o nosso antepassado eucariótico
provavelmente também possuía estes processos", acrescenta.
Teoria de Baker diz que a vida evoluiu num ambiente
rico em oxigénio
A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga
genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a
diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá mais
credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e
aparentemente num ambiente rico em oxigénio.
De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de
anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis do gás
aumentaram drasticamente durante o período conhecido como o Grande Evento de
Oxidação e "algumas centenas de milhares de anos" depois
"surgiram os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos", o que
indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da
vida complexa.
"O facto de alguns dos Asgardianos, que são os nossos
antepassados, serem capazes de usar oxigénio encaixa muito bem nisso",
adianta Baker.
"O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos
adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de
oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas".
Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma
arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma
alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se "uma organela
produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria".
A coautora Kathryn Appler, investigadora de pós-doutoramento
no Instituto Pasteur, em Paris, França, destaca "o enorme esforço de
sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais"
realizados pelos cientistas e que permitiram" ver padrões que não eram
visíveis antes desta expansão genómica."
Investigação começou com a extração de ADN de
sedimentos marinhos em 2019
Segundo o comunicado, esta investigação resulta do trabalho
de doutoramento de Appler no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do
Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019.
A equipa da UT e os seus colaboradores reuniram mais de 13
mil novos genomas microbianos, tendo conseguido "centenas de novos genomas
de Asgard" e "quase duplicando a diversidade genética" do grupo
que era conhecida.
Com base em semelhanças e diferenças genéticas, os
cientistas construíram uma árvore da vida alargada das arqueias de Asgard,
tendo os novos genomas permitido também descobrir novos grupos de proteínas,
"duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas".
Os ex-investigadores da UT Xianzhe Gong (atualmente na
Universidade de Shandong, na China), Pedro Leão (agora na Universidade Radboud,
Países Baixos), Marguerite Langwig (agora na Universidade de Wisconsin-Madison,
Estados Unidos) e Valerie De Anda (atualmente na Universidade de Viena,
Áustria) são outros autores do estudo.
Fonte: SIC Notícias, 18 de fevereiro de 2026

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