Dinamarca não pode usar Ozempic como trunfo nas negociações com os EUA sobre a Gronelândia
Perry Mason
(1957-1966) – Diana Brewster
Com a Dinamarca a iniciar conversações com os Estados Unidos
sobre um eventual acordo relativo à Gronelândia, a maior indústria do país
poderá não lhe dar grande margem nas negociações, disseram especialistas à Euronews.
As principais exportações da
Dinamarca para os Estados Unidos são químicos e produtos relacionados,
incluindo farmacêuticos, no valor
de aproximadamente 21,5 mil milhões de coroas dinamarquesas (2,8 mil
milhões de euros) em 2024, e 34% das exportações do país para o outro lado do
Atlântico, segundo a Statistics Denmark.
No centro deste comércio está a Novo Nordisk, o gigante
farmacêutico dinamarquês por trás dos populares medicamentos para emagrecimento
e diabetes Ozempic e Wegovy.
De acordo com a empresa financeira norte-americana Morningstar,
a companhia detém cerca de 43% da quota do mercado dos EUA em fármacos para
perda de peso e mantém-se um interveniente de peso apesar da concorrência.
Mas a nova geopolítica do comércio farmacêutico pode
sair-lhe pela culatra se, durante as conversações, forem impostas restrições
aos produtos dinamarqueses.
“A Dinamarca estaria a dar um tiro no pé, porque teria pouca
margem de manobra”, disse à Euronews Marta Wosinska, economista da saúde
e investigadora sénior no think tank norte-americano Brookings.
“Não seria uma jogada muito inteligente”.
Não é um antibiótico nem um medicamento oncológico
O princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, a semaglutida, é produzido sobretudo na
Dinamarca. Já as canetas com que os doentes se injetam são enchidas tanto na
Dinamarca como no estado norte-americano da Carolina do Norte, segundo Prashant
Yadav, investigador sénior para a saúde global no think tank norte-americano
Council on Foreign Relations.
Estas distinções contam quando os governos decidem em que
fase da produção impor uma tarifa ou sanção, acrescentou Yadav, porque levantam
questões complexas sobre que país suportará o custo adicional.
“Os EUA poderiam impor tarifas elevadas sobre produtos
acabados, mas, como a Novo já realiza operações de enchimento e acabamento na
Carolina do Norte, seria difícil usar tarifas para a afastar completamente do
mercado norte-americano”, disse.
A Dinamarca poderia, em teoria, restringir a exportação de
semaglutida para os EUA, mas Yadav considera que o impacto seria limitado.
As sanções a medicamentos funcionam melhor quando se trata
de fármacos essenciais — o que não é o caso do Wegovy e do Ozempic — apesar da
sua eficácia no tratamento de doentes com diabetes, afirmou.
“Não é como um antibiótico ou um medicamento oncológico,
cuja falta faz colapsar um sistema de saúde”.
Ozempic pode ser substituído por Mounjaro
A Novo Nordisk enfrenta ainda um grande concorrente norte-americano, a Eli Lilly, a
farmacêutica por detrás do Mounjaro, um medicamento para emagrecimento.
A quota de mercado está “algo equilibrada” entre a Eli Lilly
e a Novo Nordisk, o que significa que os EUA têm uma “grande dependência” de
fármacos dinamarqueses contra a obesidade, disse Yadav.
China, Canadá, Japão e países europeus são, depois dos
Estados Unidos, os maiores mercados da Novo Nordisk, escreveu a empresa num
documento remetido em 2024 à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC).
Ainda assim, nenhum destes mercados é suficientemente grande
para colmatar um vazio do tamanho do mercado norte-americano nos lucros da Novo
Nordisk, caso fossem impostas restrições, afirmou Yadav.
“Os EUA representam cerca de
70% do mercado da Novo Nordisk para
a semaglutida”, estimou Yadav.
Os produtos da Novo Nordisk e da Eli Lilly são
suficientemente semelhantes para que um doente possa passar de um para o outro,
se necessário, defendem Yadav e Wosinska. O único obstáculo à mudança é obter
uma nova prescrição médica, acrescentou Wosinska.
Segundo Yadav, alguns doentes poderiam ter de passar do
comprimido oral de Wegovy da Novo Nordisk para a injeção, caso houvesse
quaisquer restrições aos produtos da empresa nos EUA, mas o número de doentes
nesta forma de Wegovy é bastante reduzido.
O comprimido de Wegovy só foi aprovado pela Food and Drug
Administration (FDA) em dezembro, segundo a Novo Nordisk.
A Eli Lilly está a realizar ensaios clínicos do seu próprio
comprimido, cujos primeiros resultados mostram poder manter a mesma perda de
peso que os doentes estão a ver com injetáveis como o Wegovy ou o Ozempic.
“Se a [Novo Nordisk] desaparecer do mercado por algum tempo
e o comprimido da Eli Lilly chegar, isso seria uma perda muito significativa
para a Novo”, acrescentou Wosinska.
Escassez pode levar produtos com semaglutida ‘não aprovados’
às prateleiras nos EUA
Restrições aos produtos com semaglutida, impostas pela
Dinamarca ou pelos EUA, fariam com que o fármaco fosse considerado “em rutura”
pela FDA, disse Wosinska.
Os medicamentos são protegidos por patentes de 20 anos que
conferem ao fabricante direitos exclusivos de fabricar, usar e vender o
medicamento, segundo a FDA.
Se um medicamento com semaglutida estiver numa lista de
rutura, uma lacuna na lei norte-americana permite que farmácias autorizadas
modifiquem legalmente fármacos de marca para produzir uma “versão não
aprovada”, num processo chamado “compounding”, ou preparação magistral, explicou
Wosinska.
“[As farmácias] podem dizer: vamos ter um esquema de dosagem
muito diferente para [os doentes]… ou podem acrescentar vitamina D”, disse
Wosinska. “Pode argumentar-se que talvez não sejam alterações suficientemente
substanciais, mas a lei não define esta personalização de forma muito clara”.
Em 2022, a FDA incluiu a semaglutida da Novo Nordisk e a
tirzepatida da Eli Lilly, princípio ativo do Mounjaro, na lista de rutura
devido à elevada procura, segundo um comunicado da entidade. Ambos os
medicamentos já não estão em rutura.
Após a rutura, a Novo Nordisk intentou mais de 130 ações
judiciais contra empresas norte-americanas em 40 estados que venderam versões
não aprovadas de semaglutida, o princípio ativo do Wegovy e do Ozempic, de
acordo com a empresa.
Wosinska disse que a Novo Nordisk teria de informar a FDA de
qualquer perturbação no abastecimento de semaglutida se a Dinamarca optasse por
impor restrições no mercado dos EUA, e que o fármaco seria provavelmente
recolocado na lista de rutura.
Fonte: Euronews, 2 de
fevereiro de 2026

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