Em Silicon Valley, Hegseth é apenas um elo na nova e ousada cadeia de destruição
Os
"disruptores" de hoje são meramente investidores e especialistas em
tecnologia que querem mudar as regras para se tornarem a "Apple" das
armas, subsidiados por si, claro
A exposição Special Competitive Studies Project (SCSP) é o principal
evento da indústria de tecnologia militar. Todos os grandes nomes do setor
"cadeia de destruição combinada com self-service" reúnem-se
anualmente para este evento no centro de convenções de Washington D.C.
Infelizmente, perdi a edição deste ano porque não aprovaram
a minha candidatura. O meu artigo publicado nestas páginas no ano passado pode
ter algo a ver com isso.
Mas o pessoal da tecnologia militar adora uma oportunidade
para queimar combustível e aumentar a sua coleção de crachás, por isso há
sempre um evento comercial do setor algures, geralmente disfarçado de
workshop/simpósio/palestra plenária/TED ou qualquer coisa que o faça parecer
menos com a exploração da guerra. Assim, fiz as malas para um evento no
Centro-Oeste.
Tradicionalmente, as feiras de armamento visam ligar
produtores e compradores, apresentando grandes espaços onde as empresas montam
stands para exibir as capacidades dos seus equipamentos, incluindo simulações e
até demonstrações com munições reais. Nestes ambientes protegidos para
operações especiais, as autoridades governamentais de compras e os altos
escalões militares podiam interagir com senhores da guerra e mercenários,
revezando-se no manuseamento de mísseis Javelin e degustando uísques artesanais.
Mas com a entrada de mais empresas tecnológicas de Silicon Valley no complexo
militar-industrial, muitos encontros do setor contam com a presença de gestores
de ativos e investidores de empresas de capital de risco e de private equity,
que se preocupam menos com as especificações técnicas do que com o retorno do
investimento (ROI).
Desapareceram as “booth babes” 1
de outrora, substituídas por multimilionários de cara juvenil envergando polares
Patagonia de fecho curto. 2
Impulsionados pelo advento da ZIRP (zero-interest rate policy), 3 que permitiu aos investidores pedir dinheiro
emprestado praticamente de graça, e pelo declínio dos produtos tecnológicos
orientados para o consumidor, os investidores voltaram-se para os mercados
militares.
A par da habitual presença de executivos dos contratistas
militares tradicionais, fornecedores especializados e responsáveis
governamentais, os verdadeiros convidados de honra são os investidores de
capital de risco e os tecnossolucionistas reacionários.
E estas personagens trazem uma estética completamente nova.
O espaço da exposição Creative Disruptors By The Lakes, em Minnesota, no outono
passado, tinha poucos acessórios táticos e insígnias patrióticas, mas
transbordava vibes de “iluminação sombria”. Cada painel contava com dois
“live scribers” ou “graphic recorders” — artistas profissionais que ilustram
posters em tempo real, representando os comentários dos oradores através de uma
mistura de imagens e texto. Imagine terminar o curso na Rhode Island School of
Design e ter a sua primeira exposição numa galeria dedicada a vendedores de
armas no lobby de um hotel.
A sensação predominante destas imagens era (não
surpreendentemente) a frustração sentida por fundadores, executivos e
financiadores relativamente às regras e regulamentações governamentais. Como um
ex-agente da CIA que se tornou executivo no setor militar-tecnológico lamentou
no palco: “Não gosto de regras.” No passado, o modelo consistia em o exército
determinar que armas precisava e depois contratar produtores para fornecer
esses sistemas. Os participantes queriam inverter esse modelo — que a indústria
desenvolvesse os seus próprios sistemas de armamento de forma independente,
numa base “comercial”, e depois os vendesse ao governo. Que o exército apenas
dissesse às empresas qual era o problema, e deixasse que as próprias empresas
descobrissem que sistemas de armas projetar e oferecer.
O problema de usar este modelo para armamento é que as
tecnologias comerciais são tipicamente desenvolvidas para muitos compradores.
Os consumidores não contratam a Apple para projetar um portátil só para eles; a
Apple fabrica uma gama de portáteis pensada para agradar a milhões de
consumidores que podem escolher comprá-los (ou não). Mas se há apenas um
Pentágono — quem é que vai comprar todas as outras armas?
A resposta a essa pergunta é (aparentemente) o resto do
mundo inteiro. Os participantes sublinharam a necessidade de “projetar desde o
início para exportação”, reescrevendo as regras para obter requisitos de
potenciais clientes estrangeiros antes do início do processo de design, através
da solicitação de “declarações de problema” em vez de especificações
detalhadas. Mas fazer isto exige uma revisão completa da forma como os EUA
tradicionalmente vendem o seu vasto catálogo de sistemas de armamento.
Segundo os oradores, este novo modelo exige construir uma
“base industrial global” onde os sistemas de armamento norte-americanos
poderiam ser fabricados e montados numa rede de locais espalhados pelo mundo. O
primeiro passo seria expandir a atual isenção ITAR da AUKUS, que permite a
livre circulação de armas, tecnologias, serviços e pessoal entre os EUA, Reino
Unido e Austrália, sem passar pelo processo de aprovação (já de si imperfeito).
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Em segundo lugar, e de forma mais permanente, estes
representantes da indústria também querem que o sistema tradicional de FMS
(vendas governamentais a governos) opere mais como o processo de vendas
comerciais diretas (DCS), que é muitas vezes uma via mais barata e rápida para
compradores estrangeiros, permitindo que as empresas “movam-se rapidamente e
vendam mais coisas” (para usar um popular idiomatismo do Silicon Valley).
A observação implícita subjacente a estas discussões sobre a
alteração das regras de aquisição é a expectativa de aumento das tensões em
todo o mundo, impulsionadas por hegemonias regionais a disputar as suas esferas
de influência, lubrificando as engrenagens com características como a produção just-in-time
e o tipo de cadeias de abastecimento distribuídas que vemos na indústria do
vestuário.
As visões destes CEO para o futuro do MIC
(Military-Industrial Complex) mimetizam, em muitos aspetos, o que se tem visto
noutros setores. Para além de terceirizar tanta produção quanto possível, há
ênfase em eliminar ao máximo o trabalho humano através de fábricas automatizadas.
Os executivos afirmaram que é necessário desenvolver sistemas massivos, não
tripulados e descartáveis (ou seja, “attritable”), em vez de
“plataformas tripuladas de luxo”. Portanto, grande parte destes sistemas não só
seria montada fora dos EUA, como também seria montada e operada por robôs.
A abordagem antiga dos contratistas tradicionais —
promovendo narrativas sobre os empregos que os seus produtos geram nos EUA —
vai ser mais difícil de vender à medida que estes novos atores continuarem a
falar.
É como a fast fashion para caças: em vez de obter
calças que se desfazem na máquina de lavar, obtém-se armamento que precisa de
ser substituído com mais frequência, o que, naturalmente, significa mais
dinheiro para os produtores. Existem start-ups, grupos de investidores e firmas
financeiras cujo único propósito é levar os EUA a gastar mais dinheiro em
tecnologia militar — e utilizam o mesmo modelo de “porta giratória” que os
antigos guardiões do setor empregavam.
A DEFCON AI, por exemplo, desenvolve simulações de software
para “agilizar a aquisição para agências governamentais e contratistas dos EUA”
e é liderada por Yisroel Brumer, antigo diretor interino de Avaliação de Custos
e Programas no Departamento de Defesa (DOD). O principal financiador de capital
de risco da empresa, Red Cell Partners, conta com o antigo secretário da Defesa
Mark Esper como membro do conselho e parceiro-gerente.
A Govini é outro exemplo; a empresa afirma substituir
decisões de aquisição “manuais” por modelos de software com IA para acelerar a
aquisição, tendo recentemente obtido um contrato com o Pentágono de quase 1 mil
milhões de dólares. Firmas financeiras como a Leonid Capital — que também
inclui vários veteranos militares entre os seus executivos — estão a fornecer
mecanismos inovadores de financiamento para colocar mais start-ups de
tecnologia militar na cadeia de abastecimento do Pentágono. Não é tanto que a
raposa entrou no galinheiro, mas sim que a raposa desenhou os planos do
galinheiro e direcionou o espaço das galinhas diretamente para a sua toca.
Estas exigências impulsionadas por indústria e financiadores
já estão a ser implementadas pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth, que está
a retirar a supervisão, a revisão e a capacidade de conformidade das agências
governamentais em favor de avaliações “orientadas por portfólio”, que
permitirão aos clientes estrangeiros projetar e financiar projetos de armamento
desde o início.
Um refrão comum entre os participantes foi a urgência de
desenvolver armamento sem a influência direta ou orientação do governo dos EUA.
Afinal (segundo eles), foi isto que a Palantir fez. Se o financiamento inicial,
contratos privilegiados e “engenheiros implantados previamente” a trabalhar
diretamente nos escritórios da CIA para moldar o software da empresa não contam
como influência, não sei o que contaria. O nível de desprezo vocal que os
participantes demonstraram pelo Estado dos EUA é profundamente irónico, dado
que muitos (se não a maioria) dependem fortemente dele para salários, subsídios
e resgates que financiam as suas pensões, start-ups e fundos de investimento.
Embora unidos pelo objetivo partilhado de extrair ativos do
governo dos EUA, o tom dos investidores desta vez pareceu um pouco mais contido
— e não apenas durante as rememorações improvisadas do 11 de setembro e de
Charlie Kirk. Embora um participante tenha expressado entusiasmo por “conseguir
alguns desses pagers do Hezbollah”, os dias dourados do boom inicial da IA
foram, de certa forma, ofuscados por uma vaga de cancelamentos de centros de
dados de IA, despedimentos massivos em Silicon Valley após 2022 e executivos de
tecnologia a venderem as suas próprias ações.
Tinha-se a sensação de que, para muitos dos participantes,
aquilo era menos uma operação de prospeção e mais uma reunião de turma. Um
participante da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, já com umas seis
cervejas na conta e com uma enorme mancha de molho de churrasco na sua camisa
oxford de botões, mostrava-se menos interessado em analisar tendências do setor
do que em interrogar outros presentes sobre o mais recente vídeo de OVNIs
divulgado numa audição de um Comité da Câmara dos Representantes no dia
anterior.
É certo que os novos métodos e a estética do MIC
influenciado pelos oligarcas tecnológicos são diferentes. Quando falam de lucros impulsionados pela guerra, soam
mais a Friedrich Nietzsche do que a Viktor Bout. Mas, no fundo, continua a ser
a mesma classe dominante parasitária, a apresentar-se como construtora de
prosperidade, em vez de abutres a limpar a carcaça da economia americana.
Shana Marshall
Fonte: Responsible Statecraft, 18 de fevereiro de 2026
1. A expressão “booth babes” designa, em linguagem informal, mulheres contratadas para promover marcas e atrair visitantes em feiras comerciais, exposições tecnológicas e eventos automóveis. A sua função consistia em receber o público, distribuir materiais promocionais, posar para fotografias com produtos, captar a atenção para o stand e representar visualmente a identidade da marca.
Esta prática tornou-se comum em grandes eventos internacionais como a Consumer Electronics Show (CES), a Electronic Entertainment Expo (E3) e o Geneva Motor Show, onde a competição pela visibilidade era intensa e a componente visual desempenhava um papel central nas estratégias de marketing.
Nas últimas décadas, contudo, o recurso a “booth babes” tem vindo a desaparecer. Entre os principais motivos encontram-se as críticas relativas à objetificação e ao sexismo, a mudança cultural nas práticas de marketing, uma maior valorização da diversidade e da profissionalização das equipas de representação, bem como o receio de danos reputacionais para as marcas. Atualmente, muitas feiras substituem este modelo por equipas técnicas especializadas, demonstrações interativas e apresentações orientadas para o conteúdo e a experiência do utilizador.
2. A expressão “multimilionários de Patagonia” funciona como uma metáfora irónica para descrever uma nova elite tecnológica e financeira emergente. Refere-se a investidores, fundadores de start-ups e capitalistas de risco ligados aos setores tecnológico e da defesa que adotam vestuário casual de alta qualidade — frequentemente associado à marca Patagonia — e projetam uma imagem de simplicidade, sustentabilidade e pragmatismo, em contraste com o estereótipo tradicional do executivo de fato e gravata.
A associação à Patagonia não é casual. A marca tornou-se um símbolo cultural por estar ligada a valores ambientais e responsabilidade social, por ser popular entre as elites tecnológicas do Silicon Valley e por comunicar uma forma de riqueza discreta, marcada pela anti-ostentação.
No seu sentido irónico, a expressão sugere o surgimento de uma elite com estética minimalista e linguagem progressista que, apesar da aparência informal e eticamente consciente, investe em tecnologias militares, segurança e infraestruturas estratégicas. Evoca também a substituição das antigas estratégias de marketing baseadas na sedução visual por uma cultura tecnocrática e financeira centrada na eficiência, nos dados e no poder estrutural.
Em suma, o termo não descreve apenas um estilo de vestuário, mas um perfil sociocultural: o tecnocrata multimilionário que aparenta ser um engenheiro ecológico, enquanto financia — discretamente — o futuro da guerra e da segurança global.
3. ZIRP é o acrónimo de Zero Interest Rate Policy (“política de taxas de juro zero”), uma estratégia de política monetária em que os bancos centrais reduzem as taxas de juro para níveis próximos de 0% com o objetivo de estimular a economia. Esta abordagem foi amplamente adotada após a crise financeira de 2008 por instituições como a Reserva Federal, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão.
O principal objetivo da ZIRP é estimular o crédito e o investimento, incentivar o consumo e a atividade económica e evitar deflação e recessões prolongadas. Na prática, taxas de juro próximas de zero permitem que os bancos obtenham financiamento quase gratuito, facilitam o acesso das empresas a crédito barato e incentivam os investidores a procurar ativos mais arriscados em busca de retorno.
Entre as consequências inesperadas desta política destacam-se a formação de bolhas financeiras — refletidas na valorização excessiva de ações e imóveis —, a explosão do capital de risco com financiamento massivo de start-ups tecnológicas, a mudança no foco do investimento para áreas como inteligência artificial, vigilância, cibersegurança e tecnologia militar, e o aumento da desigualdade patrimonial, uma vez que os detentores de ativos financeiros tendem a beneficiar mais.
No contexto do texto, anos de dinheiro barato levaram os investidores a procurar setores com crescimento previsível, tornando o setor militar e de segurança particularmente atraente. Este processo contribuiu para a convergência entre tecnologia, defesa e capital de risco.
Em suma, a ZIRP não apenas ajudou a estabilizar economias em crise — também financiou o ecossistema tecnológico e geopolítico que molda o mundo contemporâneo.
4. A “isenção ITAR” refere-se a uma exceção dentro do ITAR (International Traffic in Arms Regulations), que são as Regulamentações de Tráfego Internacional de Armas dos EUA.
O ITAR controla a exportação e importação de equipamentos militares, tecnologia sensível e serviços relacionados, garantindo que estas transferências não comprometam a segurança nacional dos EUA. Normalmente, qualquer envio de armas, tecnologia militar ou serviços técnicos para outro país precisa de aprovação prévia do Departamento de Estado dos EUA.
Uma isenção ITAR, como a mencionada no contexto da AUKUS, permite que determinados fluxos de armas, tecnologia e pessoal entre países aliados (neste caso, EUA, Reino Unido e Austrália) ocorram sem passar pelo processo completo de aprovação, tornando a transferência mais rápida e menos burocrática.
Em termos simples: é uma “passagem livre” autorizada legalmente para certas transações militares entre países confiáveis, evitando atrasos regulatórios.

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