Grupos misteriosos de "paz" estão a enviar mensagens pró-Israel aos americanos
Perry Mason
(1957-1966) – Mike Mazurki, Raymond Burr
As
organizações aparentemente não existem, mas a sua origem remonta à empresa de
relações públicas de um antigo conselheiro de Trump e a um contrato com o
governo israelita
Jessica, uma mãe do Alabama, recebeu uma mensagem na noite
de 7 de janeiro.
"Olá, aqui é o John, da Friends for Peace. Estamos a
recolher opiniões sobre Israel hoje e gostaríamos de ouvir a vossa. Têm um
tempinho para conversar? Stop2End."
Jessica questionou-se se se arrependeria de partilhar as
suas opiniões — que descreve como "America First" e céticas em
relação à relação dos EUA com Israel — mas John foi tranquilizador e
ofereceu-se para a ouvir e discutir o melindroso assunto.
Nos três dias seguintes, Jessica e John trocaram mensagens
sobre Israel. John promoveu uma narrativa pró-Israel, tentando convencer
Jessica de que a relação EUA-Israel se baseia em "benefícios mútuos e
interesses partilhados".
O único problema é que uma organização chamada “Friends for
Peace” aparentemente não existe, e é improvável que “John” seja uma pessoa
real. Em vez de uma organização pela paz, como o nome pode sugerir, a campanha
de mensagens de texto parece ser liderada pelo antigo chefe de campanha de
Trump, Brad Parscale, e pela sua
empresa Clock Tower X, que está a
executar um contrato de 9 milhões de dólares com o governo de Israel.
Depois de Jessica ter dito a John que obtém grande parte das suas notícias através do X, John respondeu que ela não deveria confiar em muitas das histórias sobre Gaza. “Existem redes de contas que se fazem passar por civis de Gaza e grande parte do conteúdo é falso. Verifica sempre as fontes antes de acreditares em algo. Sabe mais aqui”, afirmou. De seguida, John enviou um vídeo do YouTube de uma conta chamada “Allies for Peace”, que alegava que a narrativa de sofrimento em Gaza tinha sido fabricada. “Bombas, fome, edifícios em ruínas: tudo conteúdo fabricado… Não aceites todas as publicações sem questionar, confirma as provas, exige a verdade.”
O canal de YouTube “Allies for Peace” foi criado no final de
outubro por uma empresa chamada Clock Tower X, fundada por Parscale.
E Jessica não está sozinha. Desde novembro, um número não
especificado de norte-americanos tem recebido mensagens de texto de números
desconhecidos, alegadamente enviadas por organizações chamadas “Friends for
Peace” e “Partners in Peace”, pedindo a sua opinião sobre Israel, promovendo
Israel como aliado dos Estados Unidos e divulgando ligações para sites e vídeos
criados pela Clock Tower X.
Outra fonte recebeu um vídeo intitulado “Tunnels”, enviado por “Sara, da Friends for Peace”. O vídeo, igualmente produzido pela empresa de Parscale, inclui um excerto de um episódio do podcast de Joe Rogan com o comentador britânico Douglas Murray. No trecho editado, Murray afirma que “entra-se num hospital [em Gaza] e sabe-se que haverá granadas ou entradas para túneis, construindo uma infraestrutura de terror”.
Muitos dos comentários ao vídeo afirmam que os utilizadores
receberam a ligação através da campanha de mensagens de texto. “Também recebi
isto por uma mensagem fraudulenta. Lmao”, lê-se no comentário mais votado.
O RS não conseguiu identificar qualquer organização
chamada “Partners in Peace” ou “Friends for Peace” que correspondesse à
descrição apresentada. Numa das conversas por mensagem, a própria campanha
admitiu que “utiliza nomes diferentes” para a organização.
O contrato da Clock Tower X com o ministério dos Negócios
Estrangeiros de Israel, que passou de 6 para 9 milhões de dólares em dezembro,
inclui a “fornecimento de segmentação de públicos atualizada mensalmente e
análise de sentimento, incluindo a Geração Z e outros grupos demográficos-chave
nos EUA”, o que poderá estar relacionado com a campanha massiva de mensagens de
texto. Como parte do contrato, a empresa de Parscale está também a integrar mensagens
pró-Israel na Salem Media Network, um conglomerado mediático conservador que
alberga podcasts de grande visibilidade, como “The Right View with Lara Trump”
e “The Dinesh D’Souza Podcast”.
Parscale está a realizar este trabalho no âmbito do “Project
545”, uma campanha israelita destinada a “amplificar a comunicação estratégica
e os esforços de diplomacia pública de Israel”. Eran Shayovich, ponto de
contacto de Parscale em Israel e chefe de gabinete no ministério dos Negócios
Estrangeiros israelita, publicou no LinkedIn, no mês passado, sobre o sucesso
do projeto. “Um ano e dois meses após o início de uma longa guerra, quando a
imagem do Estado de Israel estava num dos seus pontos mais baixos e demasiadas
tentativas de combate na frente da diplomacia pública não tinham sido
particularmente bem-sucedidas”, escreveu. “No último ano, começámos a
contra-atacar a sério.”
A “Allies for Peace” carregou o seu primeiro vídeo no YouTube — que indica no final ter sido “distribuído pela Clock Tower X LLC em nome do Estado de Israel” — duas semanas antes do início da campanha massiva de mensagens de texto, reforçando a ligação da iniciativa à empresa de Parscale.
Parscale não respondeu a um pedido de comentário sobre as ligações da sua empresa à campanha de envio massivo de mensagens.
O RS documentou dezenas de exemplos semelhantes de
mensagens de texto pró-Israel enviadas a norte-americanos a partir de quatro
números distintos, em vários estados do país, incluindo Califórnia, Florida,
Texas e Wisconsin, por vezes até em espanhol. Chantel, uma cristã com posições
críticas em relação a Israel, foi contactada por “Matt”, da Partners in Peace.
À semelhança de outros casos, Matt perguntou-lhe onde obtinha informações sobre
o que está a acontecer em Gaza. Chantel respondeu que se informava através da
PBS e do The Guardian, entre outras fontes, e falou também sobre a forma
como a experiência do pai, enquanto veterano, molda as suas opiniões.
“Considero fascinante e perturbador a forma como Israel
tenta apresentar as suas ações genocidas como justificadas”, disse Chantel ao RS.
Chantel afirmou não ter a certeza se estava a falar com um
bot ou com uma pessoa real. Megan Iorio, consultora jurídica sénior da
Electronic Privacy Information, declarou ao RS que muitas das mensagens
enviadas pela “Partners in Peace” e pela “Friends for Peace” podem ter sido
geradas por um chatbot, embora seja difícil ter certezas, uma vez que muitos
chatbots conseguem simular conversas humanas de forma convincente.
“Algumas seguiam o mesmo padrão: resumiam a mensagem da
pessoa contactada e depois recorriam a uma lista de perguntas ou comentários
pré-definidos, o que pode indiciar um chatbot relativamente rudimentar”,
explicou Iorio. “Também é possível que haja pessoas por detrás das conversas,
mas que estejam a utilizar uma ferramenta para selecionar mensagens
pré-programadas ou gerar respostas. Seja um chatbot ou um humano a usar uma
ferramenta de respostas, as conversas são claramente automatizadas ou
pré-formatadas de alguma forma e não correspondem a um diálogo genuíno com uma
pessoa.”
Ainda não é claro de que forma a campanha obteve os números
de telefone nem por que razão determinados norte-americanos foram visados.
Muitos dos contactados — embora não todos — manifestaram ceticismo em relação a
Israel. Iorio explicou ao RS que a campanha poderá estar a adquirir
listas de contactos a data brokers. “Os data brokers dispõem de
todo o tipo de listas de marketing que traçam perfis e categorizam pessoas para
diversos fins”, afirmou.
Todos os números de telefone identificados pelo RS
como fazendo parte da campanha utilizavam um sistema de “Voice over IP” (VoIP),
que permite enviar mensagens através da internet em vez de recorrer às
operadoras tradicionais. Segundo um relatório publicado pelo Institute for
Technology Law & Policy da Georgetown Law, o VoIP é frequentemente
utilizado por burlões para enviar grandes volumes de mensagens através de
sistemas online.
A campanha de envio massivo de mensagens também promovia
ligações para outros sites criados pela empresa de Parscale.
Nate, residente em Frisco, Califórnia, foi contactado por
“Tom”, da Partners in Peace. Antes de responder, Nate exigiu que Tom explicasse
quais eram as suas fontes. Tom encaminhou-o para a “Allyvia”, outro site criado
pela Clock Tower. A Allyvia apresenta-se como uma plataforma dedicada a
“reforçar a aliança entre os EUA e Israel em matéria de segurança, prosperidade
e valores partilhados”. Nas suas páginas, afirma-se que “os sistemas de defesa
antimíssil, o treino militar coordenado e a adoção de tecnologias de segurança
israelitas” salvam vidas tanto nos Estados Unidos como em Israel. Vários outros
destinatários das mensagens relataram ter recebido também ligações para a
Allyvia.
Tanto o site da Allyvia como o canal de YouTube da Allies
for Peace reconhecem, como é legalmente exigido, que foram criados pela Clock
Tower X em nome do governo israelita. Segundo noticiou o jornalista Jack
Poulson, a empresa de Parscale criou pelo menos 11 sites — incluindo a Allyvia
e a Allies for Peace — que vão desde a promoção de Israel como uma nação de paz
até tentativas de deslegitimar as críticas dirigidas ao país.
A maioria dos norte-americanos contactados pela campanha
mostrou-se confusa quanto à identidade de quem os abordava e às razões desse
contacto. “É importante que os americanos saibam por quem e com que finalidade
estão a ser influenciados”, afirmou Nate. Lachlan, estudante no Indiana que
recebeu uma ligação para um vídeo da Allies for Peace no YouTube, disse que
pensou estar a trocar mensagens com “algum israelita”. Numa das conversas por
SMS analisadas pelo RS, a própria campanha reconheceu estar a ser
“apoiada pela Clock Tower X LLC em nome do Estado de Israel”.
Ao não esclarecer devidamente os destinatários sobre a
origem da iniciativa, a empresa de Parscale poderá estar a infringir a Foreign
Agents Registration Act (FARA), a lei norte-americana que visa assegurar
transparência nas atividades de lóbi estrangeiro nos Estados Unidos. Um
advogado especializado em FARA, que pediu anonimato por se tratar de um assunto
sensível, afirmou que, caso a Clock Tower X esteja por detrás das mensagens,
deveria incluir nos SMS uma declaração explícita — conhecida como “conspicuous
statement” — deixando claro que o contacto faz parte de uma campanha de lóbi
israelita.
“O objetivo da exigência de divulgação é que o público quer
saber, e tem o direito de saber, quem o está a contactar”, afirmou. Acrescentou
que, caso o Departamento de Justiça decidisse agir, o mais provável seria o
envio de uma carta de averiguação solicitando o cumprimento da lei.
Alguns norte-americanos chegaram mesmo a pensar que estavam
a ser contactados pelo National Collegiate Honors Council (NCHC), que mantém
uma parceria com o Nobel Peace Center denominada “Partners in Peace”. Um
representante do NCHC explicou ao RS que receberam um aumento
significativo de chamadas relacionadas com as mensagens, mas esclareceu que a
campanha de SMS não tem qualquer ligação à organização. Em meados de dezembro,
os remetentes das mensagens passaram a identificar-se como pertencentes a uma
organização chamada “Friends for Peace”.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou
que Israel está a combater uma “oitava frente” — uma batalha pela legitimidade,
pelas narrativas e pela opinião pública. No ano passado, à medida que a opinião
pública nos EUA em relação a Israel se deteriorava, Israel acelerou as suas
operações de influência no país, aprovando um orçamento histórico de 150
milhões de dólares para diplomacia pública. Para além do contrato com a Clock
Tower, Israel contratou outras empresas para assegurar relações com os meios de
comunicação, coordenar um grupo de influenciadores nas redes sociais e
desenvolver iniciativas junto de comunidades evangélicas cristãs.
Nick Cleveland-Stout
Fonte: Responsible Statecraft, 9 de fevereiro de 2026


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