Há um "revisionismo histórico em curso" nas redes sociais. Porque é que em 2026 ainda estamos presos a 2016?

O sarampo foi erradicado nas Américas, Beyoncé lançou "Lemonade"

e as esperanças dos liberais norte-americanos para a primeira mulher presidente eram altas. Nos EUA, os eleitores foram encorajados a usar o Pokémon Go para votar.

Lembra-se de 2016?

Uma década depois, celebridades e pessoas comuns partilham memórias nostálgicas de 2016, da era do bronzeamento artificial e da hashtag #ImWithHer 1, quando alguns dos maiores dramas colocaram Kim Kardashian contra Taylor Swift.

Foi também um ano infamemente terrível. O massacre na discoteca Pulse tornou-se o tiroteio em massa mais letal da história dos EUA (até ao ano seguinte). Prince e David Bowie morreram, entre outros tesouros perdidos. As divisões políticas aprofundaram-se e o consenso desfez-se. O terreno estava preparado para um 2026 já distópico. Quão sombrio é, então, o presente?

As celebridades adoraram 2016

Muitas mulheres que eram muito famosas em 2016 partilharam fotografias antigas online, lembrando os seus seguidores de como se tornaram ainda mais famosas desde então. Kylie Jenner, que em 2016 era a rainha do Tumblr e dos lábios exagerados, recordou o lançamento do kit de lábios que a ajudou a tornar-se multibilionária.



A supermodelo Karlie Kloss lembrou-se de usar gargantilhas e o filtro de cão do Snapchat, uma verdadeira relíquia de meados da década de 2010.

Lena Dunham, colega de Kloss no "squad" de Taylor Swift, recordou as filmagens de "Girls".

E entre as fotos dos bastidores de "Big Little Lies", Reese Witherspoon incluiu ainda uma foto de 2016 com Swift.

Depois, a nostalgia tomou conta das redes sociais. Celebridades e pessoas comuns recordaram 2016 como uma época mais despreocupada e até mais feliz. As calças de ganga eram mais justas, as sobrancelhas mais grossas. Isto inspirou alguns a revisitar ou a experimentar a estética de 2016 como se fosse uma fantasia no presente.


"Adorei esta época e todas as minhas memórias de lá, por isso tive de publicar!", escreveu Mindy Kaling na legenda de um carrossel de fotografias no Instagram com looks vibrantes da época da série "The Mindy Project".


A veterana do YouTube de tecnologia, iJustine, comentou a publicação de outra criadora: "2016 foi incrível!!!!"


"Acho que nunca saímos de 2016", acrescentou o perfil de Instagram da marca boho Free People (e, tendo em conta as suas constantes coleções com a temática Coachella, talvez seja verdade).


Embora a tendência seja relativamente inocente, há também um certo "revisionismo histórico em curso", teoriza Jessica Maddox, professora de estudos de média e cultura na Universidade da Geórgia.

Jessica Maddox partilhou fotografias de 2016 para lembrar os amigos antigos e os seguidores mais recentes de que passou o ano com a mão engessada depois de quase partir o polegar ao meio. A investigadora confessa que foi divertido apresentar um capítulo breve, mas crucial, da sua história de vida às pessoas que só a conheceram depois do trauma na mão. Mas admite que não sente falta disso.

"A nostalgia é sempre complicada, porque achamos que, ao fazer ou consumir algo, podemos ter a mesma sensação que tínhamos naquela altura, o que nunca acontece", argumenta.

Talvez 2016 tenha sido mais simples

As fotos de 2016 remetem realmente para tempos "mais simples", quando as redes sociais pareciam verdadeiramente uma rede ou comunidade, observa Jessica Maddox. As pessoas tinham mais probabilidade de acompanhar as mesmas histórias, participar ou até rir das mesmas tendências (alguém se lembra do desafio do manequim

ou do rosa millennial?)

e discutir os mesmos programas de televisão imperdíveis.

A maquilhagem era mais carregada, as lentes das câmaras tinham menos ruído e o estilo pendia para o maximalismo (embora pelo menos duas destas tendências possam estar a voltar à moda).

Em 2016, "estávamos menos online, mas, ao mesmo tempo, mais conectados nos espaços online em que interagiamos", conclui a investigadora.

"Os nossos hábitos de consumo de media também eram muito diferentes – não éramos constantemente bombardeados por más notícias, quer da política, quer da nossa constante ligação aos media", aponta. "Acho que esse é um dos motivos pelos quais olhamos para trás e pensamos que tudo era mais fácil ou melhor, provavelmente porque não estávamos tão ligados e não passávamos tanto tempo online, a fazer scroll sem parar à procura de más notícias. Não estávamos tão envolvidos como estamos agora."

“Quando falamos sobre sentir saudades de 2016, acho que é disso que mais sentimos falta: parecia definitivamente que tínhamos uma monocultura naquela altura em termos de onde nos reuníamos na internet”, conclui Jessica Maddox.

Zoë Kravitz (ao centro) e Kylie Jenner (com a peruca cor-de-rosa) assistem ao desfile de Vera Wang na primeira fila, em 2016

Foi esta mistura preciosa e fugaz de nos divertirmos na internet e de largar o telemóvel o suficiente para desfrutar da vida real que inspirou alguns a declarar 2016 como o “último bom ano”.

“Quando as pessoas se referem a 2016 como o ‘último bom ano’, penso que talvez o que estejamos realmente a dizer é que foi a última vez antes de uma mudança sísmica na política norte-americana” e no mundo, sugere Jessica Maddox.

Recontextualizar o ano como a última vez em que as coisas estiveram bem “encontra conforto na cultura de 2016 como uma espécie de último momento de alegria antes de a política do nosso tempo dominar a cultura”, concorda Dustin Kidd, professor de sociologia e especialista em cultura pop na Universidade Temple.

A eleição presidencial dos EUA não foi o único acontecimento político significativo do ano. O voto do Brexit retirou o Reino Unido da União Europeia, desestabilizando a ordem política do bloco comunitário e polarizando os britânicos. As mudanças sociais sentidas em 2016 "podem estar relacionadas com a eleição de Donald Trump, mas dizem respeito à transformação de todo o campo político e à forma como a política se tornou cultura", sugere Dustin Kidd.

Donald Trump, então candidato republicano à presidência, discursa durante um comício em Fresno, na Califórnia, em maio de 2016

O aspeto mais revelador da viagem no tempo para 2016 na internet, segundo Maddox, é a reação polarizada à própria tendência. A internet tornou-se ainda mais caótica, maldosa e raivosa desde então, onde algo tão inofensivo como uma fotografia de 2016 pode inspirar comentários de má-fé.

“Nada acontece na internet hoje em dia sem gerar controvérsia. Nada acontece na internet que simplesmente ‘aconteça’”, observa Jessica Maddox. “A quantidade de críticas que tenho visto sobre a tendência é, a meu ver, a razão pela qual ela existe.”

Fonte: CNN Portugal, 8 de fevereiro de 2026

1.

A provocação a Trump surge depois de este ter atacado Clinton num comício na noite de segunda-feira, afirmando que ela “foi schlonged” na sua última eleição — usando um termo derivado de uma palavra iídiche vulgar para pénis — e que a sua prolongada ida à casa de banho durante o debate democrata foi “demasiado nojenta” para ser comentada.

A palavra vem de “schlong”, um termo de origem iídiche (shlang), usado em inglês informal como gíria vulgar para pénis. No inglês coloquial americano, “to get schlonged” significa algo como: ser derrotado de forma humilhante; levar uma tareia; ser “fodido” politicamente (no sentido figurado, mas com carga sexual implícita).

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