Histórias de Amor Moderno: “Perdi a virgindade aos 13 anos com um rapaz 4 anos mais velho. Não foi bom nem mau, foi o possível"
Perry Mason
(1957-1966) – Hugh Marlowe, Ron Starr
“Há uma
coisa de que não se fala quando falamos de violência em casa, mas que eu sinto
e acredito que aconteça com outras pessoas: parece que sou incapaz de me sentir
feliz. Há sempre uma tormenta qualquer, indizível e invisível, um tolhimento no
estômago, uma impossibilidade de desfrutar.” Todos os sábados, a Máxima
publica um conto sobre o amor no século XXI, a partir de um caso real
A minha mãe dizia “cuidado com a tempestade” e eu sabia o
que ela queria dizer: o meu pai entrara em casa
e vinha com os copos. A minha mãe dizia-o a sorrir, como se tivesse
alguma graça - ou como se ela encontrasse uma certa piada naquela tragédia
bruta, em que o seu marido entrava casa adentro com o humor profundamente
adulterado. Umas vezes, chegava eufórico, a
achar-se hilariante, mas a ser muitíssimo inconveniente, indelicado, malcriado.
Outras, vinha frustrado, irritado, irado.
Tudo dependia de como fora o dia e de como lhe caíra a bebida. Em qualquer dos
casos, sempre que chegava depois de ter bebido muito, era bruto. Era um animal.
E isto acontecia todas as semanas, às vezes duas, três vezes numa semana.
O que acontecia a seguir, quando a tensão que semeava
atingia o limite - eu e a minha mãe entrávamos em pânico, os sorrisos nervosos,
os termos gentis, as tentativas vãs de não o melindrar, tudo a culminar na
inevitável ordem delicada da minha mãe, “é melhor ires para o quarto, filha”,
com um sorriso triste e uma lágrima a escapar -, era tão previsível quanto
violento. Os objetos começavam a voar, eram arremessados contra paredes, contra
outros objetos ou simplesmente para o chão. Depois, contra a minha mãe. E
contra mim, caso eu não seguisse a ordem bondosa da mãe e ficasse para ver o
que acontecia.
Tinha 9 anos quando o meu pai nos deixou, mas foram 9 anos
com muitas marcas, algumas delas físicas, sobretudo na minha mãe - e nas
paredes, nos armários, na mobília (mas também em mim, no lado esquerdo do
queixo, onde ainda hoje tenho a cicatriz do corte que fiz quando voei
desamparada até à quina da mesinha da sala - foi ele que me atirou, “sai-me da frente, imbecil”) -, e também das
outras, daquelas que não estão à vista. Tenho muitas marcas por dentro. Não me
refiro ao ressentimento nem à tristeza, que cicatrizes dessas podemos
consegui-las de muitas maneiras. Falo das outras, dos medos, das hesitações,
das inseguranças, dos traumas.
Há uma coisa de que não se fala quando falamos de violência
em casa, mas que eu sinto e acredito que aconteça com outras pessoas: parece
que sou incapaz de me sentir feliz. A felicidade nunca existe, em momento
algum. Há sempre uma tormenta qualquer, indizível e invisível, um tolhimento no
estômago, uma impossibilidade de desfrutar, um receio perpétuo de um mal
latente que não sabemos onde está (mas ele está à espreita), nem sequer se
existe. É por isso que hoje sou capaz de olhar para alguém e perceber se são
vítimas. Nós, as vítimas, adquirimos um olhar particular, uma expressão muito
específica, semelhante àquela que a minha mãe tinha quando me pedia que fosse
para o quarto, quando me dizia “vem aí tempestade”: uma tristeza conformada e
sorridente, mas com um sorriso que esconde uma derrocada por dentro.
O meu pai fugiu para o estrangeiro. Ao início, não sabíamos
dele nem o que lhe tinha acontecido. Certa tarde, não voltou do trabalho. Só
isso. Achámos que ia chegar tarde e bêbado. Tememos por tudo o que aconteceria
a seguir. Que loiças partiria, qual de nós ameaçaria atirar da janela do
segundo andar, quanto tempo duraria a tempestade, algum vizinho chamaria a
polícia, alguém bateria à nossa porta para saber o que se passava? Porém, nada
aconteceu. Simplesmente, não voltou para casa.
A minha mãe procurou por ele nos dias seguintes, telefonou
para os hospitais, para a polícia, para alguns amigos dele que ela conhecia,
para o local de trabalho. Nada. Ninguém sabia dizer-nos o que quer que fosse.
Só meses mais tarde uma ex-colega dele, que encontrou a minha mãe na rua,
deixou a sugestão: ele não terá ido para fora
com a mestiça? “Mas qual mestiça?”, perguntou a minha mãe. A outra
olhou-a com espanto e com pena.
Nesse dia, a minha mãe ficou a saber que o meu pai andava metido com uma boliviana chamada Andrea. Uma mulher robusta, de cabelos
louros e raízes escuras, unhas compridas e trajes reduzidos. “Uma alternadeira, é o que é”, desabafou a
antiga colega do meu pai. Para a minha mãe tanto se lhe fazia quem ela era ou o
que fazia. Custou-lhe, doeu-lhe, desiludiu-a. A minha mãe amava o meu pai, de
verdade. “Nem eu sei como nem porquê”, diz-me, de vez em quando. Mas lá que
gostava, gostava.
A partir dessa informação, a minha mãe conseguiu encontrar o
fio à meada e, seguindo esse fio, encontrou o paradeiro do marido: vivia no Sul
de Espanha com a sua boliviana. Descobriu o endereço e o número de telefone.
Perguntou-me se eu queria contactá-lo. Eu disse-lhe que não. Ela também não o
fez. Desde então, de vez em quando lembrava-se dele - nos aniversários, nossos
ou dele, no Natal - e perguntava-me “de certeza que não lhe queres ligar?” Eu
nunca quis. O meu, pai se algum dia for um homenzinho remotamente decente, há
de pegar ele próprio num telefone e ligar para casa. Se quiser. Se não quiser,
não tenho nada para lhe dizer. Nunca mais.
Claro que, ao fim de alguns anos e com as feridas a
começarem a sarar, a minha mãe encontrou um novo companheiro. O Dinis, 8 anos mais novo do que ela, 12 anos mais do
velho do que eu. E eu, na época, estava a passar da puberdade à
adolescência, naquela altura em que as meninas passam a ganhar formas e curvas
de contornos frescos e firmes.
Esta não é uma história clássica em que passo a vida a ser
abusada ou violentada. Há nuances. O Dinis nunca me fez mal. Agora, não digo
que não tenha tentado ter alguma coisa comigo. Não à base da força, não à custa
da chantagem, mas com sedução. Com delicadeza. Com festas no limite do que é
apropriado. Com beijinhos na orelha e no pescoço e segredos ditos ao ouvido de
forma demasiado lânguida. Até que um dia, a sorrir, eu lhe disse “és patético e, se não parares com isso, vou contar à
minha mãe”.
Nunca mais repetiu. Mas a relação dele com a mãe nunca mais
foi a mesma. Acho que perdeu entusiasmo. Talvez eu fosse o seu principal motivo
de interesse. Desconfio que era. Acabaram tudo passados alguns meses. A minha
mãe não voltou a ter um companheiro. Não sei se tem ou teve namoros ou flirts
ou one night stands. Espero que os tenha tido, coitada. Que não se tenha
remetido ao celibato conformado.
Eu tive vários companheiros na vida. Comecei a namorar muito
cedo. Aliás, acredito que o Dinis ficasse muito desapontado comigo caso tivesse
consumado os seus desejos: aquilo que ele queria eu já não tinha para lhe dar.
Perdi a virgindade aos 13 anos com um rapaz 4 anos mais velho. Não foi bom nem
mau, foi o possível numa tarde de inverno em que não sabíamos o que fazer e em
que os beijos e toques nos levaram longe demais. No dia seguinte, não nos
falávamos - não sei se por vergonha ou por ressentimento. Se calhar, por ambos.
À medida que fui crescendo, senti sempre dificuldade em
ligar-me de uma maneira estável e verdadeira a alguém, mesmo quando gostava
realmente da pessoa com quem estava. Sim, vivia estados de paixão, era capaz de
o fazer. Contudo, quando a relação parecia avançar, encaminhar-se para qualquer
coisa estável ou séria ou mais profunda - não sei como classificar -, sentia
uma espécie de repulsa, uma pulsão indomável para me afastar, para quebrar,
romper, rasgar, fugir dali. Ignorar o que vivera e o que faltava viver com quem
quer que eu estivesse.
Foram precisos anos e anos de reflexão, de autoanálise e de
alguns conselhos - uns melhores do que outros - de pessoas que me foram sendo
próximas, mas nunca íntimas. A intimidade é uma dimensão que mantenho
reservada, um território praticamente armadilhado. Mesmo a nível emocional e
sentimental, só concedo o privilégio da
proximidade à minha mãe, minha companheira de sempre e a quem serei
leal e com quem serei absolutamente franca enquanto estivermos as duas à face
da Terra.
A minha relação mais recente acabou e deixou-me triste. Ao
fim de todos estes anos a batalhar contra as minhas limitações e barreiras, dei
por mim a baixar finalmente a guarda. Permiti-lhe que se aproximasse. Dei-lhe
autorização para que fôssemos mais longe do que apenas a coisa física de nos
termos mutuamente. Partilhámos casa, quarto e cama, dividimos mesa e sofá.
Eventualmente, começámos a sair juntos. Não me lembro de alguma vez ter
sucedido eu apresentar-me em público com um companheiro, um namorado. Tudo foi
sempre sigiloso na minha vida sentimental, romântica e sexual, nunca quis ser
associada a homem algum. Com o David cedi. Permiti-me ser mais normal, mais
semelhante às outras pessoas. Só que ele desiludiu-me. Foi precisamente em
público que ele começou a revelar uma faceta que me assustou e acabou por
repelir.
Sempre que saíamos, o David
tornava-se estranhamente possessivo. Como se quisesse mostrar que eu
era a companheira dele. Mas fazia-o de uma maneira não natural, demasiado
ostensiva. Senti-me desconfortável desde que começou a agir assim, mas fiz um
esforço para não estragar tudo. Na minha cabeça, tinha cautelas, pois tentava
não exagerar. Eu talvez tenha exagerado no passado, com outras pessoas, noutras
relações, ou o que quer que fossem - bastava que quisessem levar a intimidade
para outro patamar e eu automaticamente retraía-me. Pois, desta vez, com o
David, esforcei-me para não cometer esse tipo de erros. Fui deixando acontecer.
Até que chegou a um ponto em que soaram alarmes e alertas.
Eu já tinha visto aquele tipo de comportamento antes. No meu pai, quando
saíamos em família: a maneira como agarrava a minha mãe, como se pretendesse
exibi-la e mostrar a todos que a controlava, a forma como lhe falava, demasiado
assertiva, a falta de delicadeza mesmo quando pretendia parecer gentil - sempre
ríspido, exigente, mandão. Não, não era isso que eu queria para mim. Não outra
vez nesta vida.
Quando disse ao David que não suportava a sua maneira de ser
comigo, ele pareceu-me surpreendido. Não entendia onde podia estar o erro, o
seu exagero ou as suas más maneiras. E eu não tinha como dar-lhe exemplos
concretos do que estava errado no comportamento e na postura dele. Soube apenas
dizer-lhe que já tinha visto, noutros tempos, alguém comportar-se assim e que o
desfecho da história fora bastante infeliz.
Não sei se estou a fazer bem ao afastar-me dele. Gosto do
David. Tenho medo, mas também tenho raiva de passar a vida a sentir medo.
Fonte: Máxima, 31 de janeiro de 2026

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