Netanyahu foi informado de planos do Hamas para um ataque em grande escala em 2018, diz jornal israelita

Perry Mason (1957-1966) – Mike Mazurki, Raymond Burr

Plano foi concretizado com o ataque de 7 de outubro de 2023, do qual o primeiro-ministro israelita negou sempre ter conhecimento prévio, apesar de vários relatos em sentido contrário

Benjamin Netanyahu recebeu, já em 2018, pelo menos dois alertas dos serviços de inteligência sobre um plano do Hamas para lançar um ataque coordenado e de grande escala contra o sul de Israel - ou seja, muito antes da ofensiva de 7 de outubro de 2023, revela o jornal israelita Ynet. O plano, mais tarde conhecido como “Muros de Jericó”, descrevia a infiltração simultânea de milhares de combatentes através de dezenas de pontos na fronteira, acompanhada de ataques a bases militares, kibutzim (comunidades agrárias coletivas) e infraestruturas estratégicas. Em 2022, terá recebido um novo briefing sobre o plano.

As informações terão circulado entre o Shin Bet (serviços de informação interna), a Mossad (principal agência de espionagem externa do país), o Conselho de Segurança Nacional e o Comando Sul das Forças Armadas. Em 2018, um relatório interno já sublinharia a complexidade e o alcance excecional da ameaça, que sublinhava que o Hamas estava a desenvolver uma capacidade ofensiva inédita. Embora boa parte dos analistas duvidasse da execução integral do plano, reconheceram um salto estratégico por parte do movimento que controlava Gaza.

Netanyahu tem negado repetidamente ter sido informado sobre qualquer plano detalhado antes de 7 de outubro, apesar de o diário norte-americano New York Times ter noticiado, meses após o ataque, que as autoridades de Israel tido conhecimento do plano da ofensiva pelo menos um ano antes, considerando-a, porém, pouco provável. Documentos oficiais apresentados recentemente pelo primeiro-ministro israelita omitem partes relevantes das avaliações recebidas em 2018, o que tem alimentado críticas de antigos responsáveis dos serviços secretos, que o acusam de não ter tomado qualquer medida nem exigido esclarecimentos.

Em 2023, o Egito já tinha revelado que avisara Israel sobre os riscos de um possível ataque e que os Estados Unidos tinham confirmado os alertas. Abbas Kamel, ex-chefe dos serviços de informações do Egito, garante ter telefonado a Netanyahu dez dias antes do ataque: “Avisámos que a situação ia explodir em breve e que seria grande. Subestimaram esses avisos”.

Netanyahu tem recusado uma comissão estatal de inquérito independente às falhas que permitiram que o Hamas entrasse, a 7 de outubro de 2023, através de vários pontos da fronteira entre Gaza e Israel, num ataque em que morreram 1200 pessoas e 251 foram tomadas como reféns.

Fonte: Expresso, 10 de fevereiro de 2026

Diz o ABC da geoestratégia e do cálculo político que são necessários dois para dançar o tango. Nesse caso, não é evidente se os acontecimentos resultaram de uma instigação deliberada e maliciosa por parte de Israel, ou se constituíram antes o aproveitamento de uma oportunidade excecional para reforçar a sua supremacia regional — em particular perante o Irão, o seu inimigo simbólico e estrutural da sua democracia — e conquistar e consolidar território na Palestina. (Os outros territórios: a Jordânia ou da Arábia Saudita, por exemplo, virão num futuro próximo).

A data do ataque não poderia ter sido mais conveniente: decorria um festival de música com milhares de jovens inúteis e descartáveis, muitos deles estrangeiros, oferecendo o cenário ideal para maximizar o impacto mediático junto da opinião pública internacional, nas Nações Unidas e em visitas oficiais: Netanyahu exibia, então, como cenouras vexatórias, fotografias emolduradas de reféns. A operação dos pagers explosivos destinados ao Hezbollah estava em marcha. A lista de alvos para destruição já definida, como ficou patente na explosão de parte do aeroporto internacional de Alepo. A recolha de inteligência sobre os inimigos da região encontrava-se bastante avançada. Reinava a confiança — sustentada no investimento feito — na reeleição de Trump e na derrota de Kamala Harris. Os sistemas de defesa israelitas na fronteira de Gaza estavam, misteriosamente, de férias ou avariados, e os palestinianos entraram em Israel com a facilidade de quem entra num Starbucks.

Dificilmente poderia ter sido escolhido um momento mais propício para uma operação moldada e mediatizada para o “mundo livre” como o horror dos “40 bebés decapitados” — imagem-choque, incontestável, da barbárie atribuída a monstros.

A historiografia da guerra ensina, contudo, que tais ficções fundadoras cumprem uma função específica: mobilizar a emoção coletiva, obliterar dúvidas críticas e legitimar respostas militares desproporcionais. Desde a Primeira Guerra Mundial, com a difusão das histórias das “mãos cortadas de crianças belgas”, até à “incubadora do Kuwait” em 1990, que serviu para justificar a intervenção norte-americana no Golfo, a utilização de imagens de inocência violentada constitui uma das técnicas mais eficazes de propaganda de guerra (Ellul, Propaganda, 1962; Herman & Chomsky, Manufacturing Consent, 1988).

Assim, mais do que um simples acontecimento trágico, este episódio insere-se num padrão reconhecível: o da manipulação mediática enquanto instrumento estratégico de poder, onde o horror é moldado e amplificado para sustentar propaganda política e imperialista.

Numa abordagem mais de acordo com a realidade no terreno, Israel nunca divulgou quantos dos seus agentes integravam o holocaústrico ataque do grupo islamita a 7 de outubro de 2023, nem quantas das 1200 pessoas foram, de facto, mortas pelo Hamas e quantas pelas forças armadas e polícia israelitas através da ativação do Protocolo Hannibal. Numa era em que os serviços secretos monopolizam a informação e moldam a perceção do real, resta ao cidadão comum, desprovido de acesso aos briefings confidenciais, um último bastião de liberdade: a lógica aristotélica. Pois, como ensinava o velho Estagirita, o que se contradiz não pode ser verdadeiro. E assim, no meio do ruído e da manipulação, só o que resiste à razão merece ser acreditado. Simplesmente, é ilógico e um atentado à inteligência dos consumidores de informação mediatizada, que os israelitas tenham informações minuciosas, ao mais ínfimo detalhe, sobre o Hezbollah, a Síria, os houthis, o Irão e até sobre os americanos, e, pelo lado absurdo, viviam na mais perfeita ignorância sobre planeamentos operacionais do Hamas, quando têm uma brigada, a Duvdevan, especificamente treinada para infiltração no grupo.

A justificação do erro humano do embaixador Oren Rozenblat é simplesmente pateta e ridícula: "E nós estávamos dormindo. Especialmente pensando que outras pessoas deveriam pensar como nós. Eles, não. Eles têm princípios de religião extremos. Sacrificar as suas vidas para destruir Israel é mais importante do que os filhos. E esse foi o nosso erro.”

Uma variante da versão da “soneca do embaixador” afirma que, em Israel, predominava um deslumbrado otimismo gerado pelos Acordos de Abraão, e que ninguém acreditava que o Hamas pudesse parar o ímpeto negocial de Donald Trump, através da sua vedeta Jared Kushner, na reconciliação dos países árabes com os israelitas.

A outra justificação, a do erro informático, é LOL: um inquérito israelita concluiu que a polícia recebeu com várias horas de atraso um aviso crucial do Shin Bet sobre atividades suspeitas do Hamas em Gaza, devido a uma atualização dos sistemas de comunicação realizada na noite anterior ao ataque de 7 de outubro de 2023. O alerta, emitido às 3h03, destinava-se às Forças de Defesa de Israel, ao Conselho de Segurança Nacional e à polícia, depois de o Shin Bet detetar membros do Hamas a ativar cartões SIM israelitas. No entanto, a falha técnica impediu que a polícia fosse informada antes do início do ataque.

A investigação procurou esclarecer a discrepância entre os serviços secretos, que afirmavam ter transmitido o aviso em tempo útil, e a polícia, que alegava só o ter recebido quando já era demasiado tarde. A causa do atraso — a atualização do sistema — só foi descoberta posteriormente, durante o próprio inquérito.

Finalmente, o relatório oficial, que encerra o caso, prime a tecla da sequência de azares. Concluiu que havia uma "falha sistémica e organizacional de longa data" no seio do Exército, nomeadamente uma "discrepância entre a realidade estratégica e operacional e a perceção (...) da realidade relativa à Faixa de Gaza e ao Hamas".

O documento destacou igualmente uma "falha de inteligência" militar na sua "incapacidade de dar o alerta", mesmo quando o Exército dispunha de informações "excecionais e de elevada qualidade".

Lamentando os "processos deficientes de tomada de decisão e de destacamento das forças na noite de 7 de outubro de 2023", o comité apontou falhas ao nível do Estado-Maior, da direção de operações, da direção de informações militares, do Comando Sul, mas também da Força Aérea e da Marinha.

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