Nike discrimina brancos? Chefe dos direitos civis de Trump intima gigante do desporto
Perry Mason
(1957-1966) – Ivan Dixon, Kenneth MacDonald
Uma
agência federal dos Estados Unidos, responsável pela proteção dos direitos
civis dos trabalhadores, revelou esta quarta-feira que está a investigar a
gigante do vestuário desportivo Nike por alegada discriminação de trabalhadores
brancos através das suas políticas de diversidade
A Comissão para a Igualdade de Oportunidades no Emprego
(EEOC, na sigla em inglês) revelou a investigação numa moção apresentada a um
tribunal federal do Missouri, na qual exige que a Nike cumpra integralmente uma
intimação para fornecimento de informação, na prática obrigando a empresa a
cooperar.
A guerra de Trump contra a DEI
As alegações da EEOC são o mais recente exemplo da forma
como a Casa Branca tem usado a agência de direitos civis para visar iniciativas de diversidade nas empresas,
numa altura em que a administração Trump e Lucas fizeram da análise de
discriminação ligada ao DEI (programas de Diversidade, Equidade e Inclusão) uma
prioridade declarada.
Ao contrário do que é habitual nos processos da EEOC, não
foram trabalhadores da Nike a apresentar a queixa por discriminação.
As acusações partiram da então comissária Andrea Lucas, em
maio de 2024, entretanto nomeada presidente da EEOC pelo presidente dos EUA.
A queixa baseou-se em informação pública sobre contratações,
incluindo os relatórios anuais "Impact Reports" da própria Nike e
dados disponíveis no seu site.
A denúncia citava, por exemplo, o
objetivo anunciado pela Nike em 2021 de atingir uma representação de 35% de
minorias raciais e étnicas entre
os trabalhadores dos serviços corporativos até 2025.
Muitas empresas norte-americanas assumiram compromissos
semelhantes na sequência dos vastos protestos antirracistas de 2020,
desencadeados pela morte de George Floyd, um homem negro desarmado, às mãos da
polícia.
Discriminação nas contratações?
As empresas têm defendido que estes compromissos não são quotas, mas metas que esperam atingir
através de medidas como o alargamento do recrutamento e a eliminação de
eventuais preconceitos no processo de contratação.
A administração Trump tornou a oposição à diversidade,
equidade e inclusão (DEI, na sigla em inglês) um tema central nas políticas
federais, argumentando repetidamente que os programas minam o
"mérito" e podem traduzir-se em discriminação inversa.
DEI é uma designação abrangente para políticas laborais e
institucionais destinadas a reforçar a proteção e a contratação de grupos
sub-representados ou marginalizados e a enfrentar barreiras ligadas à raça,
género, deficiência ou outras características.
Críticos à direita apresentam o DEI menos como uma tentativa
de corrigir desvantagens históricas e mais como «discriminação positiva»,
defendendo que pode afastar alguns candidatos, incluindo trabalhadores brancos,
em favor de outros.
Estas narrativas são frequentemente promovidas por grupos da
extrema-direita nos EUA e em partes da Europa.
Essa leitura tem sido usada para justificar ordens
executivas que instruem organismos públicos a reduzir gabinetes e programas de
DEI e a reformular práticas de recrutamento, formação e contratação em toda a
administração.
Outros casos ligados ao DEI
A Casa Branca tem também associado o DEI a polémicas de
grande visibilidade.
Após a queda mortal de um
avião na região de Washington, DC, no início do seu segundo mandato,
Trump sugeriu, sem apresentar provas, que as políticas de contratação da
Administração Federal de Aviação (FAA) ligadas ao DEI poderiam ter sido um
fator e ordenou uma revisão da aviação centrada no que descreveu como o impacto
das "políticas de DEI e woke".
Aliados de Trump repetiram alegações de que o DEI teria baixado os padrões no controlo de tráfego aéreo,
mas verificadores de
factos e especialistas do setor afirmaram que esses argumentos
deturpavam as políticas de recrutamento existentes e não demonstravam qualquer
ligação com o acidente.
Noutros domínios, a administração tem procurado retirar
considerações de DEI das forças armadas em nome da "prontidão",
enquanto organismos como a Agência de Proteção Ambiental (EPA) invocaram
prioridades anti-DEI para cancelar grandes programas de subvenções.
O esforço mais alargado do Pentágono para eliminar conteúdos
relacionados com o DEI também levantou críticas, depois de responsáveis
admitirem que algum material foi removido ou arquivado por engano, incluindo
tributos históricos.
EEOC investiga Nike
De acordo com documentos judiciais, a EEOC pediu à empresa
os critérios utilizados para escolher trabalhadores a despedir, a forma como
regista e utiliza dados sobre raça e origem étnica dos funcionários e
informação sobre programas que, alegadamente, ofereciam mentoria, liderança ou
oportunidades de desenvolvimento de carreira restringidas a certos grupos
raciais.
Em comunicado, a Nike afirmou que tem procurado cooperar com
a EEOC e que a intimação "parece uma escalada surpreendente e pouco
habitual".
"Já fornecemos milhares de páginas de informação e
respostas escritas detalhadas às perguntas da EEOC e estamos a concluir o envio
de informação adicional", acrescentou a empresa numa nota enviada à Associated
Press.
A Nike parece ser a empresa de maior perfil visada até agora
pela EEOC com uma investigação formal e pública contra programas de DEI. Em
novembro, a EEOC emitiu uma intimação semelhante ao prestador de serviços
financeiros Northwestern Mutual.
"Quando existirem indícios fortes, incluindo
declarações das próprias empresas em extensa documentação pública, de que
programas relacionados com diversidade, equidade e inclusão podem violar
proibições federais de discriminação racial ou outras formas de discriminação
ilegal, a EEOC tomará todas as medidas necessárias, incluindo o recurso a
intimações judiciais, para garantir a possibilidade de investigar de forma
plena e exaustiva", Andrea Lucas em comunicado.
Direitos civis de trabalhadores brancos
A revelação surge dois meses depois de Lucas ter publicado
um apelo nas redes sociais a exortar homens
brancos a apresentarem-se se tiverem sofrido discriminação racial ou de género no trabalho.
A publicação pedia aos trabalhadores abrangidos que
contactassem a agência "o mais depressa possível" e remetia para uma
ficha informativa da EEOC sobre discriminação relacionada com programas de DEI.
A queixa apresentada por Lucas surgiu poucos meses depois de
a America First Legal, um grupo jurídico conservador fundado pelo principal
conselheiro de Trump, Stephen Miller, ter enviado à EEOC uma carta com queixas
contra a Nike e a pedir à agência que avançasse com uma acusação da própria
comissão.
A America First Legal inundou a EEOC, nos últimos anos, com
cartas semelhantes a pedir investigações às práticas de DEI de grandes empresas
norte-americanas.
Não é claro quantas outras empresas poderão estar a ser alvo
da EEOC através deste tipo de queixas apresentadas por comissários. A agência
está proibida de revelar qualquer acusação, seja de trabalhadores ou de
comissários, exceto se resultar em multas, acordos, ações judiciais ou outras
medidas públicas.
Ao abrigo do Título VII da Lei dos Direitos Civis, os
empregadores estão proibidos de usar a raça como critério de contratação ou de
outras decisões laborais.
Lucas tem alertado há muito que muitas empresas correm o
risco de violar a Lei dos Direitos Civis, aprovada após longas lutas dos
movimentos pelos direitos civis nos EUA para proteger comunidades vulneráveis,
como trabalhadores negros e latinos, por, na sua opinião, não contratarem
trabalhadores brancos em número suficiente.
Fonte: Euronews, 5 de fevereiro
de 2026

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