O capitalismo já acabou e nem sequer nos apercebemos disso, alerta Yanis Varoufakis

Perry Mason (1957-1966) – Constance Ford

O capitalismo já acabou e o mundo entrou numa era de "tecnofeudalismo", em que as grandes empresas tecnológicas exercem um poder sem precedentes sobre o comportamento humano, afirmou o antigo ministro das finanças grego Yanis Varoufakis

Em declarações à Euronews, após o seu painel na Web Summit Qatar, Varoufakis alertou para o estado da economia global.

"O capitalismo já acabou e nem sequer nos apercebemos disso", sublinhou.

O crescimento das stablecoins está a remodelar discretamente o sistema financeiro de formas arriscadas, disse Varoufakis.

"Donald Trump, com a Lei Genius, privatizou o dólar americano. Manteve a Reserva Federal em baixo... e está a transferir poderes para empresas privadas, essencialmente com uma licença para imprimir dólares", disse.

Varoufakis alertou que esta situação cria um perigoso ciclo de retorno entre a dívida pública e a moeda privada.

"Esta é uma receita para o próximo 2008", disse Varoufakis, acrescentando que milhares de milhões de dólares poderão migrar para stablecoins nos próximos meses, aumentando o risco sistémico.

Ele explicou que as plataformas modernas não produzem bens, mas moldam comportamentos e simulam mercados.

"Qualquer pessoa que detenha esse poder pode dirigir-nos... para nos treinar, ganhar a nossa confiança e infundir-nos desejos. Isto já não é capitalismo. Bem-vindos ao tecnofeudalismo", afirmou.

Varoufakis sublinhou ainda a desigualdade, afirmando que esta é agora cada vez mais impulsionada pela posse daquilo a que chama capital de nuvem. "A questão mais importante agora é saber a quem pertencem as máquinas que podem modificar o nosso comportamento", explicou.

Para reequilibrar o poder económico, Varoufakis apelou para a democratização dos bancos centrais.

"Os bancos centrais devem ser democratizados. O JP Morgan e o Bank of America têm de ter uma conta no banco central", disse. "O dinheiro devia ser um bem comum, não um privilégio."

Embora exista tecnologia para o fazer, a resistência política é grande, porque essas reformas reduziriam a influência das instituições financeiras e das grandes empresas tecnológicas, concluiu o economista grego.

Fonte: Euronews, 2 de fevereiro de 2026

A Lei GENIUS — cujo nome oficial é GENIUS Act (Guiding and Establishing National Innovation for U.S. Stablecoins Act) — é uma lei federal dos Estados Unidos, sancionada pelo presidente Donald Trump em 18 de julho de 2025, que estabelece o primeiro quadro regulatório abrangente para as chamadas stablecoins, um tipo de criptomoeda cujo valor é normalmente ligado ao dólar americano ou a ativos líquidos de baixo risco.

Em termos simples, a lei define quem pode emitir e gerir stablecoins nos EUA, como isso deve acontecer e com que garantias, com o objetivo de trazer mais segurança, transparência e supervisão a esse mercado que até agora estava largamente fora de qualquer quadro regulador federal claro.

Um dos seus pilares fundamentais é a exigência de que estas moedas digitais sejam integralmente lastreadas numa proporção de 1:1 por dólares norte-americanos ou por ativos líquidos de elevada qualidade — como títulos do Tesouro dos Estados Unidos — assegurando, assim, que existe sempre uma reserva real a sustentar cada unidade emitida.

A lei também define quem pode emitir stablecoins, limitando essa atividade a entidades devidamente licenciadas e sujeitas a supervisão. Entre estas incluem-se subsidiárias de bancos segurados, instituições não bancárias autorizadas a nível federal, bem como emissores aprovados por autoridades estaduais, desde que cumpram critérios compatíveis com as normas federais.

Outro eixo central é o reforço da transparência. Os emissores passam a ter a obrigação de publicar relatórios mensais, acessíveis ao público, com informação detalhada sobre as reservas que garantem as moedas em circulação. Além disso, no caso de emissores de grande dimensão — com mais de 50 mil milhões de dólares emitidos — a lei impõe auditorias anuais independentes, com o objetivo de reduzir riscos e aumentar a credibilidade do sistema.

No plano da proteção do consumidor, a Lei GENIUS introduz requisitos de divulgação mais claros e obrigações de conformidade (compliance), nomeadamente em matérias como prevenção do branqueamento de capitais e cumprimento de sanções. A intenção é garantir que as stablecoins não funcionam como uma zona cinzenta financeira, mas sim como instrumentos sujeitos a regras semelhantes às do sistema financeiro tradicional.

Em termos de fiscalização, a lei adota um modelo híbrido, combinando supervisão federal e estadual. Assim, emissores de menor dimensão podem operar sob regimes estaduais, desde que estes respeitem padrões federais; porém, caso cresçam significativamente, ficam sujeitos a maior controlo e supervisão a nível federal.

Por que é importante?

A Lei GENIUS é considerada um marco por criar, pela primeira vez, um enquadramento legal estável e coerente para as stablecoins nos Estados Unidos. Até aqui, este mercado encontrava-se vulnerável a falhas de transparência, fraude e instabilidade, precisamente por não existir uma arquitetura regulatória clara. Ao exigir reservas robustas e supervisão rigorosa, a lei procura aumentar a confiança dos consumidores e investidores e, ao mesmo tempo, integrar este tipo de ativos no sistema financeiro de forma mais segura e previsível.

Além disso, ao obrigar os emissores a manter reservas em ativos líquidos como títulos do Tesouro, a lei pode também contribuir para aumentar a procura por dívida pública norte-americana, reforçando indiretamente o papel do dólar enquanto moeda de reserva global.

O que são stablecoins?

As stablecoins são criptomoedas concebidas para manter um valor estável, ao contrário de ativos como o Bitcoin ou o Ethereum, que podem variar drasticamente de preço num único dia. Em termos simples, funcionam como uma espécie de “dinheiro digital” dentro do universo cripto: em vez de subirem e descerem como os restantes criptoactivos, procuram valer sempre o mesmo — por exemplo, 1 unidade equivalente a 1 dólar, a 1 euro (mais raro) ou, nalguns casos, a uma determinada quantidade de ouro. Esta estabilidade torna-as particularmente úteis para quem quer circular no ecossistema das criptomoedas sem ficar exposto à volatilidade: um investidor pode vender Bitcoin e converter o valor em stablecoins para “estacionar” o dinheiro sem o retirar para o banco, mantendo liquidez e rapidez de transação.

A forma como as stablecoins mantêm essa estabilidade depende do seu modelo. As mais comuns e relevantes são as stablecoins com reservas, em que a entidade emissora promete que, por cada moeda emitida, existe uma reserva equivalente guardada — normalmente em dólares, depósitos bancários ou ativos líquidos de elevada qualidade como títulos do Tesouro. A ideia é simples: se cada stablecoin estiver totalmente garantida por ativos reais, o mercado confiará que ela pode ser resgatada a qualquer momento e, por isso, manterá a paridade com o dólar. Existe, contudo, outro tipo, mais controverso, conhecido como stablecoin algorítmica, que tenta preservar a estabilidade através de mecanismos automáticos de emissão e destruição de moedas, sem reservas equivalentes. Embora teoricamente elegante, este modelo revelou-se extremamente frágil em cenários de pânico, como ficou demonstrado com colapsos históricos que abalaram o sector.

É precisamente por parecerem tão próximas do dinheiro — mas sem serem dinheiro oficial — que as stablecoins se tornaram um dos pontos mais polémicos e sensíveis do mundo cripto. Uma stablecoin indexada ao dólar funciona, na prática, como um “dólar privado” emitido por uma empresa e usado globalmente, o que coloca questões políticas e regulatórias profundas: quem controla esse instrumento, quem fiscaliza, quem garante, e o que acontece se falhar? Ao contrário do dinheiro emitido por bancos centrais, estas moedas não têm, por definição, uma garantia pública automática, o que faz com que a confiança do sistema dependa da credibilidade do emissor e da qualidade real das reservas. Daí surge um problema central: como saber se essas reservas existem mesmo, se são suficientes, se são líquidas e se podem ser mobilizadas rapidamente? Durante anos, a falta de transparência de alguns emissores alimentou suspeitas e polémicas, porque bastaria uma dúvida séria sobre as reservas para desencadear uma corrida aos resgates, semelhante a uma corrida bancária: se muitos utilizadores tentarem converter as stablecoins ao mesmo tempo e o emissor não conseguir responder, a moeda perde a paridade e instala-se o pânico.

Além disso, à medida que as stablecoins crescem, deixam de ser um detalhe do mercado cripto e passam a representar um risco sistémico: se forem usadas em massa para pagamentos, poupança, transferências internacionais e transações comerciais, um colapso deixa de ser um problema “de criptomoedas” e transforma-se num problema financeiro mais amplo, com impacto real na economia. Ao mesmo tempo, também são criticadas por poderem facilitar evasão, fraude ou lavagem de dinheiro, devido à rapidez, alcance global e relativa facilidade de movimentação, sobretudo quando comparadas com o sistema bancário tradicional. Por fim, existe ainda uma tensão ideológica dentro do próprio mundo cripto: muitos defensores das criptomoedas nasceram com o ideal de um sistema descentralizado e independente dos bancos, mas as stablecoins mais importantes dependem exatamente do sistema financeiro clássico — bancos, auditorias, regulação, títulos do Tesouro e, em última análise, a própria arquitetura do Estado. Para alguns, isso representa maturidade e estabilidade; para outros, é a derrota simbólica do projeto original. A controvérsia tem também uma dimensão geopolítica, porque a expansão global de stablecoins indexadas ao dólar pode reforçar o papel da moeda norte-americana como referência mundial, aumentando a procura por dólares e por dívida pública dos EUA, o que é visto por uns como estabilizador e por outros como uma forma moderna de hegemonia monetária.

A produção privada de dinheiro parece sempre uma boa ideia — até ao momento em que a realidade exige que o “dinheiro” se comporte como dinheiro. Enquanto a confiança dura, o emissor recolhe rendas, prestígio e poder. Quando a confiança quebra, descobre-se que a estabilidade era apenas marketing com contabilidade criativa. É um mecanismo recorrente: lucros privatizados durante a expansão, perdas socializadas no colapso. E, no fim, o Estado entra em cena, não por convicção ideológica, mas porque a alternativa é deixar arder o sistema inteiro.

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