O céu é o limite
Perry Mason
(1957-1966) – Nancy Kovack
A ideia
de que governos e instituições podem, sabem e já pulverizaram substâncias na
atmosfera não é paranoia. É história. O que não existe é prova confirmada de um
programa secreto de pulverização de populações civis através de aviação
comercial
Olhe para cima. Não, a sério — olhe. Aqueles riscos brancos
que os aviões deixam no céu sempre existiram. Chamam-se contrails, rastos de
condensação. Vapor de água que congela ao sair das turbinas a dez mil metros de
altitude. Nada de novo.
Mas há quem diga que nem todos os riscos são iguais. Que
alguns ficam horas, alargam-se, cobrem o azul como uma cortina que ninguém
pediu. E é aqui que a conversa se complica — e que muita gente prefere mudar de
assunto.
O termo chemtrails — rastos químicos — tornou-se
sinónimo de teoria da conspiração. Quem o pronuncia arrisca-se ao riso fácil,
ao rótulo de lunático. É conveniente. O ridículo é o melhor silenciador que
existe.
Só que há factos incómodos. Programas de geoengenharia solar
não são ficção científica — são política científica. A Universidade de Harvard
desenvolveu o projeto SCoPEx, que propunha dispersar partículas de aerossóis na
estratosfera para refletir luz solar e arrefecer o planeta. Foi suspenso em
2024, mas não por ser impossível — por ser controverso. A diferença é enorme.
Entretanto, a China assumiu publicamente o maior programa de modificação
climática do mundo, semeando nuvens com iodeto de prata numa área maior do que
a Índia. Israel fê-lo durante décadas. Os Estados Unidos fizeram-no no Vietname
— Operação Popeye, desclassificada — para prolongar as monções e destruir rotas
de abastecimento.
Ou seja: a ideia de que governos e instituições podem, sabem
e já pulverizaram substâncias na atmosfera não é paranoia. É história.
O que não existe — e é preciso dizê-lo com honestidade — é
prova confirmada de um programa secreto e sistemático de pulverização de
populações civis através de aviação comercial. Não há um documento
desclassificado, um whistleblower credível, uma análise laboratorial que
feche o círculo. Há perguntas. Muitas. E há uma resistência institucional a
respondê-las que, essa sim, alimenta a desconfiança.
Quando cidadãos pedem análises independentes ao solo e à
água e são ignorados, a culpa da suspeita não é de quem pergunta. É de quem não
responde. Quando patentes de dispersão atmosférica existem publicamente e os
media tratam qualquer questão sobre o assunto como delírio, o problema não é o
cidadão — é o jornalismo.
O que podem as pessoas fazer? Primeiro, não aceitar nem o
rótulo de conspiracionista nem a versão oficial como verdade revelada. Exigirem
transparência sobre programas de geoengenharia. Pedirem que autarquias façam
análises regulares à qualidade do ar e da água da chuva. Organizarem-se em
associações cívicas que pressionem por respostas. Filmar, documentar, registar.
A democracia não vive de certezas — vive de perguntas sem
medo e de repostas que procurem a verdade. O céu é de todos. E se alguém anda a
mexer-lhe sem nos dizer, o mínimo que podemos fazer é olhar para cima e não ter
vergonha de perguntar: o que é que estão a fazer?
Queremos transparência. E essa, de certeza, que não vai cair
do céu.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 25 de fevereiro
de 2026

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