Passos diz que Estado tem sido "óbice ao crescimento" e alerta para "previsão miserável" a partir de 2027
Perry Mason
(1957-1966) – Julie Adams
O
antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho afirmou hoje que o Estado tem sido
"um óbice muito grande ao crescimento da economia", apontou uma
"previsão miserável" a partir de 2027 e considerou que "faz-se
pouco" na reforma do Estado
"O Estado hoje ainda é
um óbice muito grande ao crescimento da economia. E cada vez, me parece, a sua
qualidade tem vindo a cair de forma mais gravosa", afirmou, no
lançamento do ensaio "Economia, Inovação e Inteligência Artificial",
editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.
Passos Coelho sublinhou que não se trata de uma
"questão partidária", porque já houve vários partidos no governo, mas
deixou mais um alerta: "Fala-se muito da reforma do Estado, mas faz-se
pouco por isso", considerou.
O atual professor
universitário defendeu que, com a
generalização da inteligência artificial, Portugal tem de se distinguir pela
"qualidade das instituições e a capacidade de investir adequadamente no
capital humano".
"E aí nós temos um atraso grande em relação aos nossos
parceiros. Quando olhamos para as previsões da maior parte das instituições
internacionais, veja qual é a previsão que há para crescimento `per capita` a
partir de 2027: é miserável, e mesmo sem ser `per capita`, é miserável.
Regressaremos à nossa tendência de longo prazo, que é na casa de 1%,
1,1%", previu.
"Se continuarmos assim,
não é a inteligência artificial que nos vai salvar", avisou.
Questionado, em concreto, como é que o Estado pode apoiar as
empresas e a economia de forma a aproveitar ao máximo as potencialidades da
inteligência artificial, Passos Coelho criticou, por exemplo, a forma como
Portugal tem acedido ao financiamento europeu.
"Usamos mal o
financiamento europeu destinado à investigação e ao desenvolvimento. Aplicamos
mal (...) Há uma espécie de empresas que se especializaram na captação desses
fundos e que impedem que outras possam aceder a eles",
considerou, dizendo que há, nesta área, um ecossistema muito enviesado" em
que "são sempre os mesmos que recebem os apoios".
O antigo primeiro-ministro considerou que, se as empresas
que aproveitam esse financiamento "nem crescem, nem inovam mais do que as
outras que não recebem", há "alguma coisa que não está a funcionar
bem".
"Quando nós passamos do Portugal 2020 para o Portugal
2030 e nada mudou na maneira como equacionamos a distribuição de recursos, há
aqui qualquer coisa que não está a funcionar bem. O
Estado não está a usar a inteligência artificial para tirar conclusões, para
mudar os processos, para investir de outra maneira e isso hoje é urgente",
defendeu.
Passos - que assegurou não ser "um pessimista" -
considerou, ainda assim, que a inteligência artificial tem riscos, como tornar
mais facilmente substituível o fator humano.
"Podemos ser altamente produtivos para aqueles que
estão a trabalhar, mas cada vez menos as pessoas terão do que viver, porque não
serão precisas para produzir nada", alertou, avisando
que já são precisos menos juristas ou menos pessoas na área da Medicina.
Por isso, defendeu, as políticas públicas têm de atuar para
que cada país aposte no que os pode distinguir dos outros e que já não será a
tecnologia, "conhecida por todos e que pode ser apropriada por
todos".
"Não podemos ficar de braços cruzados", apelou.
Na conversa com os autores do livro, Óscar Afonso e Nuno
Torres, participou também a cientista e antiga ministra Elvira Fortunato, a um
debate a que assistiram os antigos governantes do PS António Costa Silva e
António Mendonça e o antigo governador do Banco de Portugal Carlos Costa.
Fonte: RTP, 11 de fevereiro de 2026
Já não se faz caça ao financiamento europeu como antigamente, nos bons velhos tempos.
O que é a Tecnoforma?
A Tecnoforma – Formação e Consultoria S.A. nasceu em 1984. À época em que Passos Coelho era deputado – e quando iniciou a relação com o grupo (1996-1999) – a Tecnoforma era detida por Manuel Castro e Fernando Madeira. A empresa dedicava-se quase exclusivamente à formação profissional. Tinha contratos com o Estado, em grande parte envolvendo financiamento da União Europeia.
Até ao final da década de 1990, a empresa tinha negócios em Angola e apostava em acompanhar estudantes africanos em Portugal. Mais tarde, e terá sido por isso que Passos Coelho integrou a empresa, os proprietários decidiram explorar o mercado interno de formação. Foi nessa altura que a Tecnoforma expandiu o negócio ao ganhar concursos ao abrigo do programa Foral, que tinha como objetivo dar formação profissional a funcionários de autarquias. Este programa foi tutelado entre 2002 e 2004 pelo então secretário de Estado da Administração Local, Miguel Relvas.
O que é o Centro Português para a Cooperação?
O Centro Português para a Cooperação (CPPC) foi uma associação criada em 1996 tendo o estatuto de Organização Não Governamental (ONG). E se agora os estatutos de uma ONG são diversos e se é difícil encontrar quer o registo de ONG’s, quer as prestações de contas, mais era há 20 anos, quando a legislação era ainda mais diversa e as obrigações de transparência menores.
Nos serviços oficiais consultados pelo Observador já não há registo da entidade (o número de contribuinte atribuído aparece como inexistente nas bases de dados públicas). No entanto, citados pelo Público, os estatutos da ONG referiam que esta organização tinha como objetivo: “O apoio direto e efetivo a programas e projetos em países em vias de desenvolvimento através de ações para o desenvolvimento, assistência humanitária, proteção dos direitos humanos e prestação de ajudas de emergência”.
Na prática, o CPPC era uma organização do grupo Tecnoforma. A ONG funcionava em Almada, nos escritórios da Tecnoforma, os fundadores eram administradores da empresa (ou alguns trabalhadores) e era a Tecnoforma que financiava a atividade da ONG. Mas apenas um dos administradores da Tecnoforma, João Luís Gonçalves, admitiu ao jornal a relação entre as duas empresas e ainda que era a Tecnoforma quem pagava as despesas da ONG.
Quem fundou o CPPC?
A ONG era presidida por Pedro Passos Coelho, que foi um dos fundadores. Além de Passos Coelho, estavam na lista de fundadores mais alguns sociais-democratas (alguns dos quais tinham passado pela Juventude Social Democrata, JSD), mas também dois socialistas.
Na lista de fundadores encontravam-se – segundo o Público:
Marques Mendes;
Vasco Rato, hoje presidente da FLAD nomeado por este governo;
Ângelo Correia, da Fomentinvest, ex-patrão de Passos;
Fernando Madeira, administrador à época da Tecnoforma;
Fraústo da Silva, que foi dirigente da JSD e foi quem elaborou os estatutos da ONG;
Júlio Casto Caldas, ex-ministro, socialista;
Manuel Castro, que era administrador da Tecnoforma;
Fernando de Sousa, ex-deputado do PS e que ficou a presidir à Assembleia Geral da ONG;
Luís Carvalho, presidente do Conselho Fiscal da ONG, que tinha trabalhado na Tecnoforma e foi mais tarde nomeado administrador da Parque Escolar;
Eva Cabral, ex-jornalista do DN, que também foi da JSD (onde conheceu Passos Coelho) e que na ONG fazia parte do conselho fiscal. Atual assessora do primeiro-ministro.
Fonte: O Observador, 27 de setembro de 2014

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