Povo salva Povo
Perry Mason
(1957-1966) – Steve Brodie, Florida Friebus, Robert Middleton
Convençam-se
disto, portugueses: o Estado não quer saber de nós para nada. Fomos campeões de
mortes nas grandes cheias de 1967, campeões das mortes covid, campeões dos
fogos florestais
A ministra da Administração Interna, Mara Lúcia Amaral, diz
que não sabe o que falhou. O ministro da Economia, Castro Almeida, diz que as
pessoas têm de usar o salário do mês anterior para fazer face aos prejuízos.
Outro ministro faz videoclips para a MTV.
O primeiro-ministro diz que as vítimas são responsáveis por
terem morrido, porque não evitaram as trágicas consequências.
O que estas manifestações, sem pinga de bom senso ou senso comum,
revelam é que Portugal não tem qualquer competência para enfrentar desastres.
Zero capacidade.
Em menos de um ano, o país atravessou três situações
críticas — o apagão de abril, os grandes incêndios florestais do verão e,
agora, as tempestades — e em todas elas o governo falhou em toda a linha.
Falhou no discurso político, falhou na ação concreta e, como sempre, já tinha
falhado na prevenção.
Ou seja, não é um acidente. É um padrão e é um padrão que
não é novo. Sempre foi assim em Portugal. Sempre. Mas o que hoje se torna verdadeiramente
indesculpável é a persistência da negligência e da incúria em pleno século XXI, num país europeu, com
tantos meios tecnológicos. No Portugal que conhece os riscos, que teve avisos,
que gozou de bastas oportunidades para aprender.
Com dez mortos, pessoas ainda sem água ou luz, prejuízos
avultados, o primeiro-ministro persiste em ter uma fugitiva como ministra numa
pasta tão sensível, continua de camisa espelhante de tão branca e a sua corte
insiste em andar de sapato engraxado. Nada se resolve e tudo se repete, como no
dia da marmota.
Muitos milhões depois, o SIRESP falhou e voltará a falhar,
os governantes erraram, os ministros passaram só para a fotografia. Em janeiro
não houve festa do Pontal mas, na véspera da
catástrofe, Montenegro foi a Ourém, bem ao epicentro da Kristin. Não para
avisar as populações do que aí vinha, não para as proteger, mas para tirar
fotos com refugiados ucranianos.
Convençam-se disto, portugueses: o Estado não quer saber de nós
para nada. Fomos campeões de mortes nas grandes cheias de 1967, campeões das
mortes covid, campeões dos fogos florestais. No dia em que a terra voltar a
tremer como em 1755, vamos morrer. Vamos cair que nem tordos, aos montões. Será
mais cedo ou mais tarde e não vai haver quem nos acuda. Só o Povo salva o Povo
e Portugal é disso máximo exemplo.
Se querem alguma proteção, não esperem por D. Sebastião.
Mexam-se e façam por vocês mesmos. Vão pelos vossos pés.
Tanto assim é que, a terminar o mandato e depois destes nove
meses horribilis em que o nosso país não parou de ser fustigado, o que é
que fez Marcelo Rebelo de Sousa? Foi a Roma ver
o Papa. Caramba! Quanto mais escárnio e desdém é que Portugal
precisará antes de acordar? Quantos mais mortos serão necessários para
despertar?
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 4 de fevereiro de 2026

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