“Sabíamos que era para o Bad Bunny, mantivemos o sigilo”. Como uma camisola viajou de Santo Tirso até à Califórnia
A peça
é da Zara mas foi na fábrica da Sidi que foi produzida a camisola com o número
64 bordado que Benito Antonio Martínez Ocasio usou no espetáculo do Super Bowl.
Tudo começou no fim de janeiro
Se houve detalhe do espetáculo da Super Bowl que chamou a
atenção foi a camisola bordada com o número 64 e o nome Ocasio usada por Bad
Bunny. Ainda não era dia em Portugal e já se sabia que era da Zara. O que só se
soube na segunda-feira ao fim do dia é que tudo começou em São Salvador do
Campo, Santo Tirso, na fábrica da Sidi, uma empresa portuguesa que trabalha
regularmente com a Inditex. “Já tivemos peças com visibilidade, mas nenhuma
como esta”, diz Diana Costa.
O Grupo Sidi, de Pedro Oliveira e Diana Costa, recebeu o
pedido da Zara nos últimos dias de janeiro e, “em sigilo” e “em quatro dias”,
fez a amostra, obteve aprovação e produziu mil camisolas que foram expedidas no
dia 2 de fevereiro. “Sabia que era para o Bad Bunny, não sabia qual era o
evento ia usá-la”, conta Diana Costa ao ECO.
Na segunda-feira de manhã, conta, “reconheci-a de imediato”.
E foi um orgulho. “Quando acordámos e vimos as publicações do concerto, com
todo o destaque à volta, ficámos maravilhados. Não só pelo espetáculo, mas por
termos conseguido manter o sigilo do início ao fim”.
Depois de obter autorização da Zara, legítimos detentores da peça, a Sidi partilhou a informação nas redes sociais. “A camisola usada por Bad Bunny na Super Bowl – orgulhosamente produzida pela Sidi”.
A camisola foi feita à medida para o Bad Bunny e foram
produzidas mil peças, um lote de pequenas dimensões se comparado com os pedidos
habituais da Inditex, na ordem das 20, 30, 50 mil unidades – um detalhe que
chamou a atenção de quem trabalha na Sidi. Recebi o pedido, tudo o resto é
feito “internamente”.
“A Zara apresenta o modelo pretendido, nós fazemos o
desenvolvimento. Enviamos um croqui do modelo, com o tipo de malha, e aplicamos
os bordados ou patches. Depois a Zara deu o ‘ok’ final. Só depois produzimos a
quantidade pedida”.
Neste caso, a peça é de felpo à americana, 100% algodão
orgânico, com certificação GOTS (obrigatória para quem trabalha com algodão
orgânico). O patch é feito – o número 64, o apelido Ocasio, as tiras da
camisola – e depois colocado na camisola.
“Cumprimos rigorosamente o que o cliente pediu”, diz Diana
Costa. A relação entre as empresas é longa. O grupo Sidi nasceu em 2005, produz
vestuário em malha e trabalha com a Zara há mais de uma década, produzindo
sobretudo t-shirts e sweat shirts. Agrega três empresas, uma linha de produção
própria, uma fábrica de confeção e 40 colaboradores. Dos 12 milhões de euros
anuais de faturação, a Inditex representa 30% (3,6 milhões de euros), diz Diana
Costa. “Conhecemos bem o cliente e vamos ao encontro do que nos pedem. A
experiência ajuda-nos a acertar”.
Têm sido dias agitados, com muitos telefonemas, desde que
revelaram a participação neste acontecimento que já foi reproduzido quase 60
milhões de vezes só no YouTube. “Já nos perguntaram se não havia camisolas”,
diz Diana Costa. E a resposta é um não claro. A Zara, detentora da peça, já
disse que não a pretende comercializar e a Sidi tão-pouco o fará, “por razões
contratuais”.
“Nem o meu filho e a minha filha, que trabalham na Sidi, se
atreveram a pedir, porque o princípio é que a empresa está sempre em primeiro
lugar. O departamento da Inditex que trabalhou connosco sabe que pode confiar
em nós, e isso conta muito”.
Já há camisolas à venda em sites de 2.ª mão
O cantor agradeceu aos trabalhadores da Zara. “Obrigada pelo
tempo, talento e coração que puseram nisto. Obrigada por torná-lo real. Este espetáculo
também é vosso. Espero que o desfrutem. Vemo-nos em breve! Benito”.
A Zara sublinhou, em comunicado, que a colaboração com Bad
Bunny teve como único objetivo “ajudar a tornar a visão artística de Benito
completa”. A marca acrescentou que vestiu também os bailarinos, a banda e a
orquestra do espetáculo, frisando que o guarda-roupa “nunca teve qualquer
intenção de ser comercializado”.
Só os colaboradores da Inditex envolvidos no projeto
receberam uma camisola semelhante à de Bad Bunny. Horas depois, segundo a
Bloomberg começaram a surgir em plataformas de revenda como a Vinted e eBay. Os
valores pedidos podem chegar aos 30 mil euros.
A empresa recusou comentar a revenda destas peças que,
segundo Diana Costa, não são, no entanto, exatamente iguais às que foram
produzidas com patch na Sidi. “As da Inditex são estampadas, é diferente da
nossa. A nossa tem um patch aplicado. Essa versão não foi feita por nós”,
afirma Diana, esclarecendo que não sabe qual será o destino das outras 999 que
foram expedidas para a Inditex.
Fonte: ECO, 10 de fevereiro de 2026


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