Seedance 2.0. A plataforma chinesa de IA que está a inquietar Hollywood e o mundo
Perry Mason
(1957-1966) – Diana Millay, Berkeley Harris, Alan Hale Jr.
Um vídeo hiperrealista de Tom Cruise e Brad Pitt gerado por
uma nova plataforma de IA, a Seedance 2.0, acendeu alarmes em Hollywood. A
aplicação da chinesa Bytedance já motivou
críticas da Paramount e da Disney, que acusam a empresa de violar
direitos de autor. Não é novidade que a inteligência artificial está a
conquistar o espaço tecnológico do mundo a uma velocidade galopante. À
competição pela vanguarda da IA, cada vez mais disputada, junta-se agora uma nova
plataforma de criação de vídeo através da IA, a Seedance 2.0.
A aplicação da empresa Bytedance surgiu no início do mês, mas já conseguiu instalar o pânico na indústria cinematográfica norte-americana, depois de um vídeo gerado pela aplicação ter viralizado nas redes sociais. Publicado na semana passada, o vídeo de 15 segundos mostra Tom Cruise e Brad Pitt numa luta corpo a corpo, com um realismo muito próximo dos grandes ecrãs.
A Disney e a Paramount foram rápidas a reagir e, poucos dias
depois, enviaram uma carta para interrupção imediata (cease and desist letter)
da atividade da plataforma chinesa.
A Walt Disney Pictures acusa a Bytedance de abastecer as
ferramentas da Seedance com uma “biblioteca pirata” de personagens protegidas por direitos de autor do estúdio, incluindo as do universo Marvel e
Star Wars.
Assustados com os novos
avanços tecnológicos, a Motion Picture Association, principal
organização comercial de Hollywood, e o sindicato SAG-AFTRA insurgiram-se
igualmente contra a empresa, pelo mesmo motivo.
Exigindo a suspensão imediata da “atividade ilegal” da
Seedance, segundo a descrevem, a Motion Picture Association disse, em
declarações à BBC, que a “ByteDance está a desrespeitar leis de direitos de
autor bem estabelecidas que protegem os direitos dos criadores e sustentam milhões de empregos americanos”. Em
resposta à polémica, a gigante tecnológica garantiu que “respeita os direitos
de propriedade intelectual e que tomou conhecimento das preocupações relativas
ao Seedance 2.0”.
Citada pelo canal público britânico, a empresa chinesa
assegurou ainda que está a “tomar medidas para reforçar as salvaguardas
atuais”, enquanto trabalham “para impedir o uso não autorizado de propriedade
intelectual e semelhanças por parte dos utilizadores”. A Bytedance não
explicitou, no entanto, no entanto, quais são exatamente as providências que
pretendem tomar.
Além das empresas de Hollywood, as próprias figuras da
indústria do entretenimento dos EUA já se
mostraram preocupados com o novo
modelo de IA. Rhett Reese, produtor e roteirista de grandes filmes, como Deadpool,
recorreu à rede social X para reagir à publicação original do confronto entre
Tom Cruise e Brad Pitt.
“Odeio dizê-lo. Provavelmente está tudo acabado para nós”,
redarguiu, aludindo àquilo que acredita ser o fim
da criação artística e original humana em
cinema.
O autor do vídeo viral, Ruairi Robinson, cineasta e produtor irlandês de anúncios publicitários, afirmou no X que precisou apenas de duas linhas de instruções (ou prompts) para conseguir criar esse e outros vídeos. No mesmo dia, Ruairi partilhou ainda vídeos dos dois atores à pancada por causa dos Epstein Files e, ainda, a unirem-se para defrontar um “inimigo comum”: um robô.
O novo modelo de IA, apesar de assustar uns, parece divertir
outros. E a criação de vídeos na plataforma continua a multiplicar-se. Apenas
disponível, para já, na China e capaz de criar somente vídeos curtos, a
Seedance tem sido elogiada pela facilidade de utilização do seu sistema, bem
como pela rapidez com que se consegue gerar conteúdos hiperrealistas de alta
qualidade. E tudo isto, claro, a um custo muito menor do que aquele que seria
necessário despender se elaborado de outra forma.
Mesmo antes desta nova controvérsia, já a inteligência
artificial levantava preocupações no mundo artístico. Em janeiro, durante a
cerimónia de revelação dos nomeados para a 98.ª edição dos Óscares, a
presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, Lynette Howell
Taylor, destacou que “o coração do cinema é, e
sempre será, humano”, fazendo referência à ascensão da IA neste
meio. A Seedance 2.0 junta-se, assim, a uma série de inovações tecnológicas da
China, que tem sido uma aposta do Governo chinês como estratégia de
desenvolvimento nacional.
O país, que tem investido em grande escala no
desenvolvimento de robôs, foi um dos destaques do WebSummit, que se realizou em
Lisboa, no passado mês de novembro, devido ao robô humanoide dançarino da
empresa chinesa Unitree.
Os avanços da potência chinesa ficaram, mais uma vez,
evidentes na celebração televisiva do Ano Novo Lunar, realizada esta semana.
Transmitido no canal estatal da China, o evento contou com robôs humanoides a
lutar artes marciais, a movimentar-se ao passo de danças complexas e a realizar
sketches de comédia.
A China e a sua tecnologia criam algum ceticismo em toda a
janela global, mas sobretudo no seio do seu rival, os Estados Unidos da
América. Ramesh Srinivasan, professor de estudos da informação na Universidade
da Califórnia, citado num artigo da CNN, compara a luta pela vanguarda da
tecnologia entre os EUA e a China, à rivalidade da “corrida espacial” do século
XX com a União Soviética.
De acordo com o professor, existe “uma espécie de fervor
nacionalista em torno de quem vai ganhar a corrida espacial da IA”.
Fonte: RTP, 21 de fevereiro
de 2026

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