Spa no Sheraton e luxo nos Açores. A misteriosa viagem a Portugal de uma russa e de uma francesa paga por Jeffrey Epstein
Perry Mason
(1957-1966) – Charles Irving
Hospedadas
em hotéis de luxo, duas mulheres (uma francesa e russa) estiveram em Lisboa,
Porto e Açores, numa viagem paga por Jeffrey Epstein. Há várias modelos que
mencionam Portugal nos ficheiros
Lisboa, Porto e Açores com estadias em hotéis de luxo em
junho de 2018. Este terá sido o trajeto feito pelo menos por duas pessoas muito
próximas a Jeffrey Epstein, o homem acusado de montar uma rede sexual e que
morreu na prisão em 2019. A viagem a território nacional aparece na última
tranche de ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano na
última semana, levantando várias dúvidas sobre qual foi o objetivo e o que
vieram fazer a Portugal.
As menções à viagem a Portugal começam no início de junho de
2018. Num email a que o Observador teve acesso e que, entretanto, foi
apagado da base de dados do Departamento de Justiça, vê-se um e-mail nos
ficheiros que terá sido trocado entre uma mulher chamada Elina e outra pessoa
que não é possível saber quem é, uma vez que o documento está rasurado: “Olá
Elina. Precisamos reservar um bilhete para ir a algum sítio no dia 5 de junho.
Já tomaste uma decisão? Gostavas de ir a Paris no mesmo voo do que [xxx —
rasurado pelo Departamento de Justiça]? Voltar para Rostov [cidade russa]?
Preciso de saber. Eu vou tratar disso hoje se possível. O Jeffrey disse que
podias fazer aquilo que quisesses. Falei com ele agora mesmo.”
A decisão terá sido uma viagem a Portugal. No mesmo email, a
resposta surge logo a seguir: “Gostava de ir a Lisboa e esperar aí por [nome
rasurado]. Ela deve juntar-se a mim no dia 7 e vamos planear uma viagem a
Portugal. Se o Jeffrey concordar com Portugal?”
O milionário concordou
mesmo com que as duas mulheres viajassem para território nacional. E
esta mensagem foi enviada por iPhone com a língua predefinida em russo.
Sobram poucas dúvidas de que as duas mulheres terão estado
em Portugal. Uma delas terá sido a referida Elina. A outra terá sido uma cidadã
francesa cuja identidade o Observador não conseguiu apurar. Nos
ficheiros do caso Epstein, existem várias cópias de bilhetes de avião para
alguém que tinha nacionalidade francesa.
A viagem foi programada diretamente por Lesley Groff, a
assistente pessoal de Jeffrey Epstein, juntamente com Natalia Molotkova, uma
consultora financeira russa contratada pelo homem acusado de pedofilia. A
passagem por Portugal foi feita com o conhecimento total de Epstein, que
parecia bastante interessado em rastrear e monitorizar a estadia da russa e da
francesa em território nacional — a viagem aparece mesmo na sua agenda
preparada todos os dias por Lesley Groff.
A 8 de junho de 2018, por exemplo, na agenda de Jeffrey
Epstein lê-se que duas pessoas (com o nome rasurado) iriam “fazer check-out do Hotel Altis em Lisboa” e iam
alugar “um carro na empresa de aluguer de carros Hertz de forma a conduzir para
o Porto para ficar no Hotel Sheraton entre 8 e 10 de junho”. Natalia Molotkova
era quem reservava diretamente voos e hotéis e esses documentos estão nos
ficheiros do caso Epstein, como este de 6 de junho: “Reserve dois quartos no
Sheraton entre 8 a 10 de junho com o nome das raparigas”.
O itinerário consegue definir-se com bastante precisão.
Lisboa terá sido a primeira paragem desta passagem por Portugal. A cidadã russa
terá viajado desde o aeroporto de Malpensa, na cidade italiana de Milão, rumo à
capital portuguesa no dia 5 de junho de 2018, mostram os bilhetes de avião
incluídos nos ficheiros. O voo foi operado pela
TAP e terá custado, por pessoa, 226,70 euros. Por sua vez, a
francesa terá viajado desde o aeroporto Charles De Gaulle, em Paris, para o
aeroporto Humberto Delgado a 7 de junho de 2018.
A estadia destas duas pessoas terá sido no Altis Avenida Lisboa, de 5 estrelas, ao lado
da estação do Rossio, bem no coração da capital portuguesa. Cada noite naquele hotel terá custado 272 euros,
conforme revelam os documentos. No total, como mostra a prova do pagamento
enviado pela russa, a estadia terá ficado por cerca de mil euros. O que está
ainda por responder é o motivo da viagem e o que as duas raparigas terão feito
— se foi apenas férias ou se houve outro intuito. Sabe-se também que a russa
também terá passado por Sintra no dia 6 de junho.
Desde Lisboa, a 8 de junho, as duas terão viajado de carro
alugado para o Porto (com o preço de 281,72 euros). Terão ficado hospedadas no Hotel Sheraton —
de cinco estrelas —, localizado na zona da Boavista. Segundo uma fatura do
hotel divulgada nos e-mails, consegue perceber-se quanto é que as duas mulheres terão gastado: 504 euros. A
estadia das duas noites terá custado 220 euros por pessoa e até terá havido uma
ida ao spa do estabelecimento hoteleiro, que custou 60 euros.
O último ponto desta viagem a solo nacional terão sido os Açores. As duas mulheres terão viajado no dia
10 de junho desde o aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, até à ilha de
São Miguel, num voo em classe executiva operado pela TAP e que custou aproximadamente 400 euros para as duas,
conforme mostram os documentos.
O hotel em que terão ficado hospedadas foi um dos mais
conhecidos em São Miguel: o Terra Nostra Garden
Hotel, na freguesia das Furnas, de 4 estrelas. As duas mulheres
terão ficado no mesmo quarto do estabelecimento hoteleiro de 10 a 14 de junho e
Jeffrey Epstein
terá pagado, pela estadia, 1031 euros. O milionário terá estado
sempre interessado, a questionar onde estariam; aliás, a 13 de junho,
envia-lhes uma mensagem a perguntar quando é que “iriam para Milão”.
Milão terá sido o local para onde as duas mulheres viajaram
desde Ponta Delgada a 14 de junho de 2018, tendo feito escala antes em Lisboa.
Porém, este não seria o fim da viagem para a russa e a francesa — apenas terá
marcado o término da visita a Portugal. Depois disso, na cidade italiana, terão
ficado hospedadas no hotel de cinco estrelas Milan
Il Duca, numa estadia que ficou por 1044
euros.
E ainda é possível perceber para onde foram as duas mulheres
depois de Milão, de acordo com os documentos. Depois da passagem por Portugal,
terão ficado em Itália de 14 a 17 de junho no Milan Il Duca, outro hotel de
cinco estrelas. Neste dia, terão viajado para Nova Iorque — a cidade onde
Jeffrey Epstein tinha uma casa e onde vivia grande parte do tempo.
Através da análise dos documentos, o Observador não
conseguiu decifrar quem era a cidadã francesa que fez esta viagem: não existe
nenhuma referência ao seu nome na marcação da viagem. Quanto à cidadã russa, é
bastante provável que se trate da modelo russa Elina
Arsenyveva, que aparece outras vezes nos ficheiros Epstein.
Nos ficheiros divulgados pelo Departamento de Justiça, há
algumas menções de passagens por Portugal de modelos e mulheres ligadas a
Jeffrey Epstein, que mantinha uma rede de recrutadores em vários países para
aliciar jovens — muitas delas menores — que mais tarde se tornariam vítimas de
abuso sexual. Algumas delas falam sobre o país, mas de forma descontextualizada
e nunca direta.
Por exemplo, uma dessas modelos é a neerlandesa Sylvia Geersen.
Datada de abril de 2010 (a modelo neerlandesa tinha 25
anos), a sequência de e-mails mostra Jeffrey Epstein a reiterar a queixa de
ingratidão em relação ao comportamento de Sylvia Geersen. Esta que depois se
lamenta sobre a sua vida — e menciona que “Portugal
lhe deve cinco mil euros”, 20% em impostos. “Estou à espera do
dinheiro, mas está a demorar tanto”, desabafou. Não é claro a que dívida é que
a neerlandesa se referia.
Em declarações à imprensa neerlandesa, Sylvia Geersen
confirmou que mantinha contactos regulares com Jeffrey Epstein. Conheceram-se
quando a modelo tinha 21 anos. “Estava completamente sobrecarregada com o que
estava a vivenciar [enquanto modelo]. Conheci Epstein em festas. Ele mandava-me
e-mails ou mensagens de texto regularmente pelo seu BlackBerry”, relatou,
denunciando que o milionário se masturbou em
frente dela, ainda que realce que nunca lhe “tenha tocado”.
Também natural dos Países Baixos, uma das mais reputadas modelos do país, Yfke Sturm,
Yfke Sturm sugeriu até encontrar-se em Paris com o
milionário, caso conseguisse arranjar um “voo tardio de Faro” para a capital
francesa em meados de março de 2012. Na conversa entre os dois, há ainda a
referência a um “homem português muito sortudo”, e que terá tido, depreende-se,
algum tipo de relação com a modelo neerlandesa. “Alguém em Portugal não sabe o
quão sortudo é”, escreveu Jeffrey Epstein.
Confrontada com a sua ligação a Jeffrey Epstein, a modelo
neerlandesa confirmou que trocou mensagens e que se encontrou com ele. Porém,
Yfke Sturm lamentou tê-lo feito: “Com o que sei agora, percebo que o meu
envolvimento anterior foi um erro sério de julgamento”. “Durante esse tempo, era ingénua e não entendia totalmente quem era Epstein ou os
danos que causou. Arrependo-me profundamente disso”, justificou.
Nos milhões de ficheiros divulgados, existem também ligações de modelos estrangeiras que fizeram produções para revistas portuguesas. Uma delas foi a eslovaca Zuzana Gregorová, que fez um ensaio para a GQ Portugal em maio de 2016. Aliás, a modelo enviou as fotografias que tirou para a publicação diretamente para Jeffrey Epstein, como se lê num email: “Estou em Estocolmo neste momento para trabalhar e voltarei a Nova Iorque este fim de semana. Devíamos encontrar-nos em breve… tenho muitas boas notícias. E não, não estou grávida. Aqui está a minha produção da GQ Portugal para maio”.
Outra das modelos que fez produções para a GQ Portugal foi a eslovaca Adriana Čerňanová, que tirou fotografias para a revista em janeiro de 2016. A modelo é, no entanto, apenas mencionada nos ficheiros Epstein num email trocado entre Jeffrey Epstein e Ramsey Elkholy, um dos seus associados que procurava aliciar jovens para a rede sexual.
Dos e-mails, é possível inferir que o padrão de Jeffrey
Epstein era quase sempre o mesmo: oferecia presentes, dinheiro e viagens às
modelos que concordavam em encontrar-se com ele. Em vários países, o milionário
tinha redes montadas para conseguir entrar em contacto e posteriormente aliciar
jovens que considerava atraentes. Por exemplo, numa conversa de 2019 (ano em
que foi preso e em que acabou por morrer), o empresário pediu fotografias a uma
modelo que esteve em Lisboa em fevereiro de 2019.
No dia 20 de janeiro, data de aniversário de Jeffrey
Epstein, a modelo (cuja identidade o Observador não conseguiu apurar)
enviou uma mensagem a dar-lhe os parabéns. A reação do empresário foi apenas
uma: “Photo [fotografia]”. A jovem envia depois uma fotografia em que está
totalmente nua. “Fantástico”, reagiu o homem. Ao longo da conversa, revelada nos
ficheiros, Epstein sugeriu um encontro que depois é cancelado por ele. No dia
seguinte, envia à jovem 2500 euros, sem justificar bem porquê. “Muito obrigado,
senhor! Aprecio muito a sua ajuda. Espero vê-lo antes de me ir embora”, reagiu
a modelo.
Fonte: Observador, 7 de
fevereiro de 2026






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