TikTok sob a bandeira dos EUA. Será que o cavalo de Troia da China também funciona para Trump?
Perry Mason
(1957-1966) – Davey Davison
Na China, chama-se Douyin, o equivalente nacional do TikTok.
Uma plataforma personalizada para utilizadores chineses, e naturalmente controlada pelo Partido Comunista no poder.
A sua influência também levanta preocupações na Europa.
A empresa-mãe das duas plataformas irmãs, a ByteDance,
expandiu o seu império por todo o mundo, desde a aquisição do Musical.ly, para
atingir mais de 1,5 mil milhões de utilizadores em todo o mundo, principalmente
jovens.
Nos Estados Unidos, com 170 milhões de utilizadores do
TikTok, o debate público começa a centrar-se na
questão de saber se a plataforma é um instrumento de ingerência do regime
chinês.
"Sabemos que os dados dos utilizadores foram
transferidos para a China e utilizados pelo regime chinês", explica a
jornalista Océane Herrero. "Houve sanções a nível europeu e a plataforma
construiu centros de dados na Europa e nos Estados Unidos para tentar recuperar
estes mercados e reconquistar a confiança".
TikTok passa a estar sob controlo dos EUA, primeiras
suspeitas de censura política
O outro ponto de preocupação é o algoritmo: será que o
TikTok pode impulsionar conteúdos políticos e favorecer um candidato em
detrimento de outro? "Uma eleição na
Roménia foi cancelada, com base em suspeitas de manipulação através do TikTok",
recorda ainda a autora do livro Le système TikTok, Comment la plateforme
chinoise modèle nos vies (ed. du Rocher, 2023).
Depois de uma saga jurídica, o TikTok, ameaçado de proibição
pelos Estados Unidos, acordou no final de janeiro de 2026 que um consórcio de investidores americanos iria gerir as suas operações no país.
Océane Herrero tem acompanhado todo o caso: "Neste
caso, assistimos a um desenvolvimento por parte de Donald Trump, que está a
sair vitorioso do caso. Em 2020, foi o primeiro a querer banir a plataforma.
Agora, tem sido um grande defensor da outra solução".
E por uma boa razão: à frente deste consórcio está Oracle,
um gigante tecnológico cofundado por Lary Ellison, um amigo muito próximo e
grande doador do presidente dos EUA.
"Isto mostra a importância de quem controla estas
plataformas no cenário político, porque este consórcio, supostamente, tem mão
nas regras de moderação da plataforma e na política de segurança", aponta
a jornalista do Politico.
Suspeitas de censura na plataforma já foram relatadas por
utilizadores do outro lado do Atlântico, nomeadamente sobre vídeos de abusos do
ICE, ou sobre o caso Epstein, que há meses ensombra o mandato de Donald Trump.
Alguns utilizadores afirmaram que estes temas foram
ocultados da plataforma. Para Océane Herrero, é preciso estar atento: "O
consórcio disse que se tratava de um problema técnico, ligado aos centros de
dados, no momento da transição dos chineses para eles. Neste momento, é muito
difícil distinguir entre o que dizem e o que serão as regras de moderação no
futuro. De qualquer forma, isto mostra que os utilizadores americanos estão
muito atentos e sensíveis a esta questão do controlo das plataformas".
A dependência tecnológica da Europa em relação às redes
sociais americanas
Sob controlo chinês ou americano, o TikTok continua a
suscitar suspeitas na Europa. Desde março de 2023, funcionários públicos da
União Europeia e de vários Estados-membros, incluindo a Bélgica, estão
proibidos de descarregar o TikTok nos seus telefones. Com 200 milhões de
utilizadores em todo o continente, "é claramente uma plataforma que está
sujeita a um grande escrutínio, como o X de Elon Musk".
Com a vontade reiterada da
administração americana de interferir na Europa, a dependência das
ferramentas digitais norte-americanas levanta cada vez mais questões.
Embora existam de facto plataformas europeias alternativas
para substituir as redes sociais dos multimilionários americanos, deixar os
hábitos para trás também exige um esforço por parte dos utilizadores, implica
"começar do zero, numa plataforma onde os seus entes queridos, as pessoas
que seguem não estão necessariamente", observa Océane Herrero.
Que resposta forte poderia a Europa dar aos Estados Unidos?
O acordo dos norte-americanos com o TikTok abriu certamente um precedente, mas
para torcer o braço das redes sociais desta forma, segundo a jornalista, são
necessários investidores "com o apoio financeiro e as competências
técnicas.
“É o caso da Oracle, e é necessário um esforço maior na
Europa". Tanto mais que a questão da regulamentação das plataformas é
"um assunto extremamente complicado nas negociações comerciais com os
Estados Unidos. Ameaçam regularmente com retaliações". A qual dos algoritmos
vai a Europa demorar mais tempo a prestar atenção, ao chinês ou ao americano?
Fonte: RTP, 2 de fevereiro de 2026

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