A ministra israelita Orit Strock foi acusada pela própria filha de abusos sexuais, num caso que ganhou contornos trágicos após a jovem ter sido encontrada morta

 

A filha da ministra responsável pelos assentamentos ilegais em Israel, Shoshana Strock, foi encontrada morta na madrugada do passado domingo (15), na sua casa, numa zona rural no norte da Palestina ocupada.

Shoshana Strock tinha 34 anos. Segundo as investigações preliminares da polícia, não existem indícios de homicídio.

Orit Strock anunciou a morte da filha nas redes sociais, afirmando: “É com o coração partido que comunico o falecimento da nossa querida filha, Shoshana.”

No entanto, a própria Shoshana indicava que não existiam laços afetivos entre ambas. Pelo contrário: a jovem tinha apresentado inúmeras denúncias públicas de abusos sexuais frequentes alegadamente cometidos pelos próprios pais desde a infância, que descrevia como parte de rituais macabros. Em abril do ano passado, chegou a formalizar uma queixa junto das autoridades, relatando o seu historial de abusos e pedindo proteção, alegando encontrar-se “sob ameaça”. Contudo, a polícia terá ignorado o caso e imposto restrições à divulgação pública de informações sobre o mesmo.

A jovem alertara, em dezembro, que os seus alegados abusadores seriam pessoas com grande poder, incluindo parlamentares, altos funcionários, líderes de comunidades judaicas e rabinos. “Pessoas que podem fazer qualquer um de nós desaparecer”, escreveu no seu perfil de Facebook. “Se disserem que me suicidei, não acreditem”, acrescentou.

Pessoas próximas de Shoshana, que estiveram com ela no dia anterior à sua morte, afirmaram ao jornalista Sefi Rachlevsky que não se tratava de uma pessoa com tendências suicidas, contrariando assim versões divulgadas por apoiantes do regime que apontam para suicídio e levantando suspeitas entre aqueles que defendem a hipótese de perseguição.

Na tarde de domingo, após a notícia da morte da filha da ministra israelita, realizou-se um protesto silencioso em sua memória na Praça Sion, no centro de Jerusalém. Os organizadores criticaram a inoperância das autoridades: “A polícia não conduziu a investigação de forma completa nem lhe prestou proteção. Os serviços sociais não responderam”, afirmou um dos organizadores ao Jerusalem Post. “As autoridades abandonaram Shoshana e continuam a abandonar crianças e mulheres na sua situação”, denunciou um manifestante.

Ainda no domingo, Benjamin Netanyahu e vários ministros expressaram apoio a Orit Strock. O gabinete do primeiro-ministro declarou que este falou com Strock e “recebeu com profunda tristeza” a notícia da morte da filha.

O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, o ministro da Imigração e Integração, Ofir Sofer, e o líder do partido Shas, o deputado Aryeh Deri, estiveram entre os que apresentaram apoio e condolências a Strock.

Smotrich acrescentou que “qualquer pessoa que explore tamanha dor e a mais terrível perda para atacar ou incitar em momentos como este é uma pessoa vil e desprezível”.

Ele tem estado na linha de frente do combate do regime às menores críticas à política do governo, sobretudo em relação ao genocídio em Gaza. Ele já negou a existência e pregou a dizimação do povo palestiniano pela fome e pela sede, dizendo ser “justo e moral”.

Num vídeo em que expôs pela primeira vez a sua história, logo após formalizar a queixa à polícia, Shoshana acusou a mãe e o pai, Avraham Strock, de abusos sexuais. Afirmou ainda que os rituais eram filmados — “o que significa que, na prática, constituíam pornografia infantil”. Referiu também a possibilidade de existir uma rede criminosa mais alargada por detrás desses abusos filmados.

Uma publicação no seu perfil pessoal de Facebook, feita em janeiro deste ano, mencionava o rabino Zvi Thau, líder espiritual do partido de extrema-direita Noam, com representação parlamentar e alinhado com o Partido Sionista Religioso — o mesmo de Orit Strock, presidido por Smotrich — e com o governo de Netanyahu. Nessa publicação, Thau era acusado de participar nos rituais realizados pelos pais, nos quais alegadamente tentava forçar a jovem a ter relações sexuais com homens e com rapazes menores.

“Rituais em que homens gays e crianças eram levados a colocar as mãos no meu peito e, dessa forma (…) obrigavam-me a acreditar que sentia atração por homens, e a eles que sentiam atração por mulheres”, escreveu Shoshana, descrevendo uma prática aparentemente semelhante ao que seria uma “cura gay”, também pregada por pastores evangélicos no Ocidente.

A mãe, Orit Strock, é assumidamente contrária aos direitos da comunidade LGBT. Numa entrevista concedida antes de ser nomeada ministra, em dezembro de 2022, defendeu que médicos judeus possam recusar tratar um paciente caso isso contrarie as suas crenças religiosas, o que incluiria negar cuidados de saúde a pessoas homossexuais. Na altura, o Partido Sionista Religioso procurava aprovar uma lei discriminatória no mesmo sentido. Com base nessa proposta, o deputado Simcha Rothman afirmou também que, por exemplo, proprietários de hotéis poderiam recusar a entrada a hóspedes gays.

A ministra é igualmente conhecida por posições hostis em relação aos palestinianos. Tendo vivido ela própria em colonatos considerados ilegais — primeiro no Sinai e depois em Hebron — declarou já que o povo palestiniano não existe e que um Estado palestiniano nunca virá a existir. Defende a ocupação militar de Gaza e a anexação da Cisjordânia, e opôs-se a acordos de cessar-fogo durante a ofensiva em Gaza em 2024.

Uma das últimas publicações de Shoshana ocorreu a 28 de fevereiro. No vídeo, apresentou um breve resumo biográfico e relatou alegados casos de pedofilia no seio da sua família. “Desde os dois anos e meio de idade, os meus pais usaram-me em cerimónias de pedofilia, nas quais fui preparada e condicionada sob o efeito de drogas e hipnose, sofrendo abusos sexuais”, afirmou.

A partir dos 13 anos, segundo o seu testemunho, o pai começou a prostituí-la, obtendo rendimentos à sua custa. “O abuso continuou durante anos”, relatou no vídeo.

O assédio por parte do pai terá persistido até aos últimos dias de Shoshana, que não recebeu proteção das autoridades apesar de ter pedido ajuda à polícia. No mesmo vídeo, descreveu uma visita recente do pai ao apartamento onde residia: “Veio ao meu apartamento e abusou novamente de mim. Trouxe outra pessoa com ele, que está a ser preparada para ser o meu próximo manipulador depois de meu pai morrer. Porque é assim que funciona: eles passam de geração para geração o abuso, a prostituição e a exploração sexual de crianças e mulheres.”

Após o ocorrido, Shoshana fugiu do seu apartamento e estava abrigada em casa de pessoas solidárias. Ela disse não ter mais como se sustentar financeira ou emocionalmente. Sofria de Transtorno Dissociativo de Identidade – um transtorno psiquiátrico raro caracterizado por diferentes estados de personalidade e causado principalmente por traumas graves na infância, como abuso sexual. “Estou numa condição mental muito difícil”, afirmou ela no vídeo, clamando por ajuda psicológica.

O sonho de Shoshana, que era formada em Psicologia, era justamente ajudar outros sobreviventes de rituais sexuais.

A jovem era apenas uma entre onze filhos do casal Strock. Em 2007, outro de seus filhos, Zviki, foi responsável por cometer um crime monstruoso contra um rapaz palestiniano. Junto com amigos, ele invadiu um bairro palestiniano e sequestrou e torturou um adolescente de 15 anos. De acordo com relatos da época, o gangue algemou, espancou, despiu e atropelou-o com um veículo todo-o-terreno antes de o deixar amarrado num campo. A vítima conseguiu escapar horas depois, sendo encontrada sangrando e com ferimentos graves. Um cabrito recém-nascido também teria sido pontapeado até à morte pelo gangue.

Zviki foi condenado a dois anos e meio de prisão, mas foi libertado nove meses antes do final de sua pena. Logo após a condenação, Orit Strock criticou a sentença, acusando o tribunal de “acreditar nas testemunhas árabes”.

Fonte: FEPAL, 17 de março de 2026

Alegações de abuso

Em abril de 2025, Shoshana Strook iniciou uma série de revelações públicas através das redes sociais e depoimentos em vídeo. Ela afirma ter apresentado uma queixa policial em Itália solicitando ajuda e proteção contra as ameaças ligadas à sua família. A queixa foi então encaminhada para a polícia israelita, onde está a ser analisada pela unidade Lahav 433.

Alegou ter sido sujeita a graves abusos sexuais, físicos e psicológicos por parte dos seus pais e de um dos seus irmãos, desde os dois anos de idade. O seu irmão já foi condenado por abuso de outro menor.

Aos 13 anos, Strook afirmou que o pai a "vendeu" em Telavive. Alegou ainda ter sido forçada a participar em terapia de conversão e descreveu o ambiente em que vivia como um "culto sádico". Yael Shitrit confirmou que também sofreu abusos sexuais ritualísticos, e Strook acredita que os incidentes foram filmados. A Bonot Alternativa instou a polícia estatal a "investigar, examinar e descobrir a verdade".

Após os comentários de Strook sobre o alegado abuso sexual, foi divulgado um relatório de investigação pelo jornalista Noam Barkan. Barkan conseguiu identificar várias mulheres que alegavam abusos rituais semelhantes e os nomes de alguns rabinos foram repetidamente mencionados como possíveis abusadores. Após as publicações de Strook nas redes sociais e a reportagem de investigação, várias mulheres testemunharam no Knesset sobre o alegado abuso sexual que sofreram quando menores, no âmbito de cerimónias rituais religiosas. Strook compareceu no Knesset com outras alegadas vítimas, mas não pôde participar devido a uma ordem judicial de silêncio.

A sua família alega que, antes destas revelações, também foi abusada na Austrália por um traficante de droga japonês.

Morte

A 15 de março de 2026, Shoshana Strook foi encontrada morta na sua residência, no norte de Israel. A sua mãe, Orit Strook, fez uma viagem secreta na tentativa de a ajudar. A polícia israelita abriu uma investigação formal sobre as circunstâncias da sua morte. Os críticos alegam que a ordem de silêncio impede os meios de comunicação israelitas de noticiar completamente as suas alegações.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu emitiu um comunicado dizendo que "recebeu com profunda tristeza" a notícia da morte de Strook. Após a sua morte, o rabino Shmuel Eliyahu rejeitou as suas alegações de que o abuso sexual ritual ocorre em Israel.

Fonte: Wikipédia

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