Como Trump nos arrastou a todos para uma grande guerra sem sequer nos avisar
A postura dos Estados Unidos em relação aos aliados antes da guerra com o Irão era o equivalente geopolítico a um slogan estampado num blusão que ficou famoso por ter sido usado pela primeira-dama Melania Trump: “Eu realmente não me importo. E vocês?”
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A administração Trump não se limitou a rejeitar coligações e deixou de procurar a legitimidade diplomática que marcou a Guerra do Golfo de 1990-91 ou mesmo a invasão do Iraque em 2003; lançou o seu ataque, juntamente com Israel, sem sequer avisar muitos dos seus aliados.
Considere-se, por exemplo, a surpresa causada durante uma
viagem ao Dubai a um membro importante do governo italiano, um país mais
alinhado com a ideologia de Trump do que a maioria dos países europeus. “Pensem
na falta fundamental de coordenação que isto representa: o ministro da Defesa de um dos aliados mais próximos dos
EUA estava no teatro de operações quando tudo começou, e não fazia ideia”,
lembra um responsável norte-americano.
Nove dias depois, a guerra arrastou o mundo mais
profundamente do que nunca para o vórtice desorientador que já definia a vida
americana na era turbulenta da política destrutiva de Donald Trump. Os ataques
iniciais dos EUA e de Israel - que mataram o Líder Supremo do Irão, o aiatola
Ali Khamenei - desencadearam um pandemónio regional. Os governos europeus e do
Médio Oriente viram-se confrontados com uma guerra repentina que não era a sua
e que a maioria não desejava. As autoridades mobilizaram-se para resgatar
cidadãos presos numa zona de combate cada vez maior. A subida vertiginosa dos
preços da energia afetou economias frágeis e a agitação tomou conta da política
interna. No Golfo, os aliados dos EUA enfrentaram uma saraivada de drones e
mísseis que destruiu a opulenta calma das reluzentes cidades de vidro que
brotavam do deserto e paralisou um importante entroncamento da aviação global.
Agora, alguns aliados estão a ficar frustrados com o aumento
dos custos económicos, o receio de uma crise migratória caso o Irão entre em
colapso e a vulnerabilidade dos seus cidadãos. E preocupam-se com o que pode
acontecer a seguir.
Mas, apesar do triunfalismo do governo e da determinação dos
seus críticos em comparar a mais recente guerra dos Estados Unidos ao lamaçal
do Iraque, é demasiado cedo para avaliar com justiça como poderá a guerra
terminar.
Os ataques aéreos implacáveis dos EUA e de Israel - numa
estratégia militar que parece muito mais planeada do que a política - têm
grandes probabilidades de neutralizar o poder de Teerão de ameaçar os seus
vizinhos. Isto beneficiaria o Médio Oriente como um todo, consolidaria a imagem de Trump como um líder forte na
região, livraria Israel de uma ameaça existencial e melhoraria a
segurança nacional dos EUA após quase 50 anos de conflito com a República
Islâmica.
Mas, sem uma mudança completa de regime, os iranianos podem
ainda pagar um preço elevado se, em vez de uma contrarrevolução, o que se
seguir for uma repressão. E se a guerra de Trump destruir o Estado iraniano e
desencadear uma guerra civil, uma crise de refugiados ou graves consequências
económicas poderão desestabilizar o mundo.
"Mantenham a calma e não os humilhem"
A guerra revelou novas verdades geopolíticas às nações
ocidentais e do Médio Oriente, que não conseguem conviver com Trump, mas também
não conseguem viver sem ele.
É difícil perceber porque é que os aliados europeus e do
Golfo não previram isto. Esta guerra é o epítome vigoroso de uma nova doutrina “America First”, que consiste em
utilizar o poderio americano para impor uma visão inédita dos interesses dos
EUA. Tal como a deposição do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos
EUA, reflete a declaração de Stephen Miller,
um dos principais conselheiros de Trump, à CNN no ano passado, de que as “leis
férreas do mundo” significam que as nações fortes podem governar pela força. É
a personificação do temperamento explosivo de Trump, da sua propensão para
correr riscos enormes, da sua aversão à estratégia e do seu zelo pelo poder
irrestrito. O presidente mais imprevisível da era moderna transformou agora a
maior superpotência do mundo na sua influência mais perturbadora.
Um diplomata europeu diz à CNN que o principal impulso para
contribuir militarmente para o conflito é “proteger os interesses nacionais”.
Outros defenderam que lidar com Trump é também um interesse
nacional fundamental. "Por enquanto, estamos a tentar manter a calma e não
os humilhar", acrescenta um diplomata europeu, explicando que a
hostilidade pode ser contraproducente.
Julien Barnes-Dacey, diretor de programas para o Médio
Oriente no Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, refere que os europeus
"foram apanhados de surpresa".
"Estão, globalmente agora, a responder aos caprichos
diários de um presidente norte-americano que está a causar imensa
perturbação", diz Barnes-Dacey. E acrescenta: "Estão entre a espada e
a parede... Por um lado, querem agarrar-se a algum
sentido de direito internacional, ou à ordem baseada em regras, e,
por outro lado, estão a tentar desesperadamente manter-se nas boas graças de
Trump."
Embora os europeus estejam chocados com o desprezo de Trump
pelas instituições internacionais, a sua própria fragilidade militar obriga-os
a agir com cautela em relação a um presidente que é crucial para a sua defesa.
“É demasiado simplista dizer
que os europeus são defensores incondicionais do direito internacional.
A maioria dos europeus está a dizer: ‘Condenamos os seus métodos, mas toleramos
as suas motivações’”, afirma Nicholas Dungan, CEO da CogitoPraxis, uma
consultora estratégica sediada em Haia.
“Assim, enquanto Israel e os Estados Unidos prosseguem com a
guerra que iniciaram, os europeus tentam envolver-se sem se envolverem e
comprometerem sem se comprometerem”, diz Dungan.
Mas Trump, encorajado pelo seu formidável poder militar,
parece alheio aos esforços europeus para chegar aos Estados Unidos. “Não me importo”, apontou à CBS no sábado, quando
questionado se desejava mais ajuda. “Podem fazer o que quiserem.”
As ondas de choque da guerra com o Irão atingiram em cheio
uma aliança transatlântica já abalada pelas renovadas exigências de Trump, em janeiro,
para que a Gronelândia se juntasse aos Estados Unidos.
A “relação especial” está em crise depois de Trump ter
reagido com raiva à recusa inicial do Reino Unido em permitir que os pilotos
norte-americanos realizassem missões de combate a partir das suas bases. O
pressionado primeiro-ministro Keir Starmer condenou a “mudança de regime vinda dos céus” e
falou em nome de uma nação traumatizada pela Guerra do Iraque e profundamente
ofendida pela recente minimização, por parte de Trump, das baixas aliadas nas
guerras pós-11 de setembro.
Outros países europeus realizaram um exercício de equilíbrio
mais eficaz. O presidente francês, Emmanuel
Macron, não pôde “aprovar” ataques “fora do Direito Internacional”.
Mas chamou a atenção de Trump ao enviar o porta-aviões francês para proteger os
interesses da França.
O chanceler alemão, Friedrich
Merz, conduziu uma visita delicada à Sala Oval expressando
preocupações partilhadas sobre os programas nucleares e de mísseis do Irão e
condenando as suas ameaças contra Israel. Mas o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, pôs em risco laços comerciais
vitais ao proibir a utilização de instalações militares norte-americanas para
ataques contra o Irão e acusar os EUA de jogarem "roleta russa com o
destino de milhões".
A Casa Branca foi surpreendida pelos ataques aos países
do Golfo
Enquanto a Europa se apressava a lidar com a diplomacia e as
consequências económicas, a situação no Golfo era mais dinâmica.
Os bombardeamentos de mísseis e drones iranianos criaram um
espetáculo chocante no Kuwait, Arábia Saudita, Omã, Emirados Árabes Unidos,
Catar e Bahrein, alguns dos quais se tornaram refúgios luxuosos para
expatriados europeus e americanos. O corte na produção de gás natural
liquefeito no Catar e o encerramento efetivo do Estreito de Ormuz - um ponto
vital para o trânsito de petróleo - estão a agravar o caos económico.
Inacreditavelmente, a administração Trump pareceu
surpreendida com as represálias do Irão, um testemunho da superficialidade do
planeamento da Casa Branca para a guerra e, talvez, um mau presságio para o que
está para vir.
Um oficial militar israelita admite que a suposição
pré-guerra era de que havia uma "alta probabilidade de que as bases
americanas na região fossem visadas" assim que o conflito começasse. Mas o
responsável reconhece que Israel e os EUA não previram totalmente a extensão
dos ataques iranianos contra alvos civis nos países do Golfo. “Infelizmente,
isso tornou-se parte da estratégia deles”, vinca o responsável aos jornalistas.
Paul Musgrave, professor de Ciência Política na Universidade
de Georgetown, com sede no Catar, concorda que a equipa de Trump subestimou a
resposta iraniana. A “surpresa” do governo com o facto de esta operação não ter
sido tão rápida como a deposição de Maduro na Venezuela “levou-me a crer que
pensavam mesmo que os iranianos estavam a fazer bluff”, diz.
“Os iranianos perturbaram a vida aqui. Não arrasaram Doha
nem do Dubai, mas cumpriram de facto as promessas que fizeram repetidamente, de
forma clara e enfática, antes do início das hostilidades.”
Embora a intensidade dos ataques de drones e mísseis
iranianos contra os países do Golfo tenha diminuído, o arsenal da República
Islâmica continua a ser politicamente potente, ainda que não seja militarmente
decisivo. Os ataques visaram depósitos de combustível no Aeroporto
Internacional do Kuwait, no domingo, horas depois de o edifício da Instituição
Pública de Segurança Social do país ter sido incendiado num ataque com um
drone. Na Arábia Saudita, duas pessoas morreram e outras 12 ficaram feridas
quando um projétil militar atingiu um edifício de habitação.
Isto ajuda a explicar a crescente preocupação regional. Numa
chamada telefónica com Trump, no sábado, o emir do Catar, o xeque Tamim bin
Hamad Al-Thani, enfatizou a “importância de conter a crise e intensificar a
diplomacia para lhe pôr fim”. E Omã, que estava a mediar as negociações entre
os EUA e o Irão que Trump interrompeu, também está preocupado. O ministro dos
Negócios Estrangeiros, Badr Albusaidi, alertou no domingo que a região estava
num “ponto de viragem perigoso”.
Alguns funcionários governamentais e militares das nações do
Golfo começam a ficar irritados com o tom bombástico do governo, disseram três
fontes familiarizadas com o assunto. “As mensagens provenientes de Washington
são quase pornográficas. Parece que os líderes estão a deliciar-se com o
derramamento de sangue, sem um objetivo final claro. Entretanto,
as economias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) estão a ser afetadas”,
diz um antigo alto funcionário norte-americano que se encontra atualmente na
região.
O que a América de Trump espera dos seus aliados
O desfecho da guerra será também um campo minado para os
aliados dos EUA.
Um regime clerical remodelado no Irão - sob o comando do
recém-empossado Líder Supremo Mojtaba Khamenei, caso este sobreviva - pode
representar uma ameaça externa menor, mas exigirá ataques militares regulares
para o manter sob controlo. Qualquer futuro governo liderado por restos da
Guarda Revolucionária Islâmica pode dar prioridade à repressão interna, mas
também ameaçar a região. Ninguém quer o caos de um colapso social no Irão. E todos sabem que Trump pode simplesmente espelhar a sua
abordagem interna, declarando vitória, abandonando o conflito e deixando que
todos os outros lidem com as consequências.
A administração Trump parece obcecada com a fraqueza
europeia. O secretário da Defesa, Pete Hegseth,
por exemplo, desafiou os aliados que “desesperam e se escandalizam” enquanto
“hesitam sobre o uso da força”.
Uma forma de a Europa reparar a rutura sem comprometer os
seus princípios seria ajudar-se a si própria.
Sophia Gaston, investigadora sénior do Centro de Política
Nacional e Segurança Nacional do Departamento de Estudos de Guerra do King’s
College de Londres, afirma que os EUA esperam
três coisas da sua aliança com a Grã-Bretanha: alinhamento estratégico,
alinhamento cultural e capacidades excecionais. Uma demonstração de
capacidade de defesa eficaz poderia justificar as diferenças de estratégia e de
cultura em Washington.
“Quanto mais um país como a Grã-Bretanha investe na sua
soberania, prosperidade e capacidade, mais atraente se torna para os Estados
Unidos como parceiro, e mais capaz se torna de defender os seus próprios
interesses contra a turbulência de uma tal aliança”, acrescenta Gaston.
No Golfo, as atitudes em relação aos EUA serão influenciadas
pelas consequências da guerra, mas também pelo comportamento do Irão.
“Acho que é justo dizer que, se é um residente médio do
Golfo, está, no mínimo, irritado ou incomodado com os Estados Unidos, e ainda
mais com Israel”, aponta Musgrave. “Mas quem está a disparar sobre nós não são
os Estados Unidos nem Israel, e o Irão pode ter uma estratégia calibrada para
aumentar a pressão sobre os países do Golfo, tentando criar uma cisão entre
eles e os Estados Unidos. Mas, no final do dia, é o Irão que está a disparar
sobre nós.”
Alguns observadores preveem que a raiva contra o Irão pode
fazer com que alguns países do Golfo vejam com mais bons olhos a normalização
das relações com Israel - uma prioridade de Trump. O primeiro-ministro
israelita, Benjamin Netanyahu, disse à Fox
News, na semana passada, acreditar que a guerra será uma “porta de entrada
para a paz” na Arábia Saudita.
No entanto, dois antigos altos responsáveis israelitas que
mantêm uma relação próxima com os países do Golfo disseram estar a ouvir uma
“crescente preocupação” com as últimas iniciativas militares de Israel. “Nos últimos dois anos e meio, Israel entrou em guerra e
anexou partes da Síria, do Líbano e da Faixa de Gaza, além de atacar o Catar. E
há ministros de extrema-direita no governo israelita que declaram querer
controlar o território até ao Eufrates e ao Tigre”, disse um
responsável, referindo-se aos rios no Iraque. “Portanto, há países que se
questionam se o objetivo da guerra com o Irão é apenas para que Israel se torne
a nova potência hegemónica regional.”
As consequências da guerra com o Irão são graves e cada vez
mais abrangentes. Elas transformarão o mundo.
A estratégia característica de Trump é desmantelar as
estruturas estabelecidas antes de ver como as peças se encaixam e encontrar
alguma forma de declarar vitória. Aplicada ao Médio Oriente, esta estratégia é
extraordinariamente arriscada e impossível de prever pelos aliados.
O presidente disse à revista The Atlantic, em abril
passado, que, no seu primeiro mandato, tinha “duas coisas a fazer: governar o país e
sobreviver”. E acrescentou: “E no segundo mandato, governarei o país e o mundo”.
Esta guerra mostra ao resto do mundo o quão tumultuosa será
esta postura.
Fonte: CNN Portugal, 9 de março de 2026


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