Defesa em mosaico e quarto sucessor: não interessa quem lidera no Irão
Regime
iraniano preparou-se para resistir a um ataque com a descentralização da defesa
e com um sistema de liderança com vários substitutos preparados
Desde 28 de fevereiro sucedem-se os ataques aéreos a visar
as altas figuras do regime teocrático iraniano. Segundo Teerão, o sucessor de
Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, sobreviveu com ferimentos ao bombardeamento que matou o seu pai, mulher, filho, irmã e
cunhado, entre outros. Mas o facto de só ter comunicado através de
duas mensagens escritas levanta questões, quer entre os iranianos, quer no
estrangeiro, sobre quem está de facto na liderança do país, e se o regime está
perto de cair para o lado qual galinha decapitada. Com os Guardas da Revolução
a assumirem na sombra o controlo das operações, graças à doutrina do mosaico o
Irão aparenta resistir às bombas que tanto destroem alvos militares como matam
os seus dirigentes.
Três dias após o início dos ataques aéreos dos Estados
Unidos e Israel, o Irão avisou o mundo, através do chefe da diplomacia, que
caber-lhe-ia a si decidir o curso da situação. “Podemos decidir quando e como a
guerra terminará”, escreveu Abbas Araghchi. O ministro dos Negócios
Estrangeiros disse também que o seu país teve
“duas décadas para estudar as derrotas do exército norte-americano na região”,
tempo suficiente para extrair “lições”.
Muitos poderiam ser tentados a comparar Araghchi com o
ministro da Informação de Saddam Hussein, quando as suas afirmações sobre a
invasão anglo-americana chocavam com a realidade, por vezes de forma cómica.
Mas a mensagem de Araghchi continha ainda uma outra informação: Teerão dispunha
do alegado poder de terminar a guerra devido à “defesa descentralizada em
mosaico”.
A ideia da defesa em mosaico — que decorre em paralelo à
defesa proporcionada pelas forças armadas convencionais do país, Artesh — terá
sido concretizada pelos Guardas da Revolução, o todo-poderoso Estado dentro do
Estado que foi criado para proteger a teocracia xiita, mas que foi gradualmente
expandindo a sua atuação do nível militar e de segurança para a esfera
económica — e agora, com a nomeação de Mojtaba Khamenei, para a política e
religiosa.
Inspirado nos exemplos de regimes altamente centralizados,
como era o do xá, ou o do vizinho Iraque, sob Saddam, o general Mohammad Ali Jafari é o autor do conceito da
defesa em mosaico, quando dirigia o Centro de Estudos Estratégicos
dos Guardas da Revolução, em 2005. Jafari, que depois comandou o Corpo dos
Guardas da Revolução Islâmica entre 2007 e 2019, preparou o seu país para o
momento que se está a viver: organizou-se um poder descentralizado, tanto a
nível político como militar, com a criação de 31 unidades combatentes, uma por
cada província.
A organização horizontal subdivide-se entre os Guardas da
Revolução, as suas forças especiais al-Quds, e as milícias basij. Cada uma das
forças funciona de forma autónoma, sem depender de ordens superiores, e é
dotada do próprio comando militar, equipamento e serviço de informações. “O
sistema torna-se mais resiliente, mesmo que seja talvez mais difícil de
comandar, já que, mesmo que a cadeia de comando seja interrompida, continuam a
lutar”, considera Thierry Coville, investigador do francês Instituto de Relações
Internacionais e Estratégicas. “Ao contrário do funcionamento na época do xá,
se provavelmente não são capazes de vencer, ainda assim são capazes de resistir
durante muito tempo”, considera em entrevista ao Libération.
A doutrina inclui outra peça-chave: o “quarto sucessor”. O
objetivo é prevenir um vácuo de liderança, ao pré-determinar múltiplos níveis
de liderança preparados para assumir a autoridade caso quem esteja a exercer
funções fique impedido. Segundo a Al Jazeera, antes de morrer, Ali
Khamenei terá dado instruções para se escolherem até quatro substitutos para
cada cargo de topo.
Nesta teia, não interessa tanto quem são os dirigentes, mas
que há dirigentes a garantir o funcionamento do sistema. “O cálculo iraniano é
que o custo se tornará demasiado elevado para os EUA e, eventualmente, para os
europeus, se eles resistirem durante muito tempo”, diz Coville. Até lá,
especula-se quem de facto comanda o país, mas tudo aponta para a linha dura dos
Guardas da Revolução. Que, segundo o New York Post, favorecerá a
substituição de Ali Larijani no Conselho de Segurança pelo irmão Sadiq
Larijani.
Fonte: Diário de Notícias, 19 de março de 2026

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