Dois dias, duas denúncias: UE exclui Hungria de "reuniões sensíveis" e receia que extrema-direita alemã passe documentos ao Kremlin
O
acesso a documentos confidenciais da União Europeia (EU) por membros da
Alternativa para a Alemanha (AfD), partido alemão de extrema-direita e
pró-Rússia, está a gerar preocupações em
Bruxelas e em Berlim sobre a
possibilidade de haver deliberações sensíveis a serem expostas a Moscovo
A notícia foi avançada esta terça-feira pelo Politico,
que cita três diplomatas da UE e quatro legisladores alemães, dois dias depois
de uma outra notícia a dar conta de que a Hungria tem sido excluída de
“negociações sensíveis” por receios de que passe informações confidenciais ao
Kremlin.
Comecemos pela AfD. Como com os outros partidos alemães,
também o partido de extrema-direita tem acesso ao banco de dados que contém
milhares de arquivos da UE, entre eles anotações e atas confidenciais de
reuniões de embaixadores, nas quais diplomatas europeus discutem as posições
dos seus países sobre questões geopolíticas - por
exemplo, planos para financiar a Ucrânia com recurso aos ativos russos que a UE congelou após a invasão russa em larga escala do
país vizinho, em fevereiro de 2022.
“Estamos a tomar todo o tipo de precauções em Bruxelas para
proteger reuniões e informações sensíveis”, diz um diplomata sénior europeu ao Politico
sob anonimato - só que existe “uma enorme brecha, do tamanho de Putin, nas
medidas de segurança de Bruxelas” perante o acesso de deputados da AfD aos
materiais confidenciais, ressalta a mesma fonte.
“O problema é que temos um
partido, o AfD, sobre o qual existem suspeitas justificadas de divulgação de
informações para a China ou a Rússia”, diz ao mesmo site Anton
Hofreiter, deputado d’Os Verdes que preside à Comissão de Assuntos da UE do
Bundestag.
“Todos temos cuidado ao partilhar informações sensíveis num
formato com 27 Estados-membros”, refere outro diplomata da UE. “Seja por causa
de [Vitkor] Orbán [primeiro-ministro da Hungria] ou por causa do sistema
alemão, não compartilhamos livremente todas as informações como faríamos entre
os nossos confidentes mais próximos numa reunião com 27 Estados-membros. Esse é
o fator húngaro e esse é o fator AfD.”
Como noticiado no domingo, a UE
está a limitar o fluxo de material confidencial para a Hungria e os líderes dos
diferentes países estão a reunir-se em grupos mais pequenos para acautelar a
possibilidade de Budapeste passar informações sensíveis a Moscovo, após Donald
Tusk, o primeiro-ministro
da Polónia, ter alertado que há suspeitas de que isso já esteja a acontecer.
A informação foi avançada por um funcionário do executivo
europeu, que diz que há crescentes preocupações com países “pouco leais” e os
riscos de passarem informações sensíveis a Vladimir Putin. A mesma fonte deu
como exemplo o facto de que “um embaixador não pode garantir que qualquer
informação sensível que ele partilhe no Coreper [o formato das reuniões de
embaixadores da UE] não chegue diretamente aos russos ou à China”.
Cinco diplomatas e funcionários europeus disseram ao Politico
que estão preocupados com esse risco, mas sublinharam que não haverá nenhuma
resposta formal da UE às novas alegações por
receios de que isso seja
visto como uma interferência nas eleições legislativas da Hungria,
marcadas para o próximo dia 12 de abril.
Ontem, a Comissão Europeia assumiu que os relatos sobre a
possibilidade de o governo Orbán estar a passar informações internas ao Kremlin
são “extremamente preocupantes” e pediu à Hungria que preste “esclarecimentos”
sobre as suas comunicações com a Rússia.
“A notícia de que a equipa de
Orbán informa Moscovo sobre as reuniões do Conselho da UE não deveria ser uma
surpresa para ninguém”, escreveu Tusk na rede social X no domingo, já depois de ter anunciado o seu
apoio ao candidato da oposição húngara, Péter Magyar. “Temos
as nossas suspeitas sobre isto há muito tempo. Esse é um dos motivos pelos
quais só me manifesto quando estritamente necessário e digo apenas o
necessário.”
As suspeitas, quer quanto ao governo húngaro no Conselho
Europeu, quer quanto à AfD e aos seus membros, estão a moldar, ainda que
oficiosamente, a forma como são conduzidas negociações e reuniões mais
delicadas, à medida que os diplomatas levam cada vez mais a sério o risco de
que informações transmitidas nesses encontros cheguem a Moscovo.
Reagindo à reportagem publicada no domingo, o ministro
húngaro dos Negócios Estrangeiros disse tratar-se de “notícias falsas” para
denegrir o governo Orbán.
Os diplomatas com quem o Politico conversou disseram
não ter conhecimento de que estas preocupações tenham sido levantadas
oficialmente - “mais em conversas informais”, disse um dos diplomatas,
acrescentando que há muitos comentários sobre essas preocupações à margem das
reuniões, principalmente entre os países do noroeste da Europa.
Fonte: CNN Portugal, 24 de março de 2026

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