Donald Trump foi jurado num concurso de modelos para adolescentes com participantes até aos 14 anos
Imagens
antigas de 1991 reaparecem e levantam questões sobre o envolvimento de Trump no
polémico concurso "Look of the Year"
Ressurgiram imagens de arquivo que mostram Donald Trump como
jurado no concurso de modelos "Look of the Year" de 1991, que contou
com participantes até aos 14 anos. A competição, organizada pela Elite Model
Management, enfrentou acusações de ter sido usada como fachada para homens
ricos explorarem raparigas menores de idade. Embora não tenha sido feita
qualquer acusação direta de má conduta contra Trump, o seu envolvimento próximo
com o evento gerou um escrutínio renovado, principalmente à luz da sua posterior
imersão no mundo dos concursos de beleza e dos reality shows.
Por que razão isso importa
As imagens ressurgidas ganharam repercussão no meio do escrutínio
público em curso de figuras poderosas ligadas ao criminoso sexual condenado
Jeffrey Epstein. A associação de Trump ao concurso "Look of the Year"
reflete redes de influência sobrepostas, nas quais as mulheres jovens e
adolescentes navegavam frequentemente por estruturas de poder adultas com pouca
proteção, levantando questões sobre a cultura que envolve tais acontecimentos.
Os detalhes
Em 1 de setembro de 1991, as candidatas embarcaram no Spirit
of New York para um cruzeiro noturno com passagem pela Estátua da Liberdade,
onde jovens aspirantes a modelos de biquíni e minissaia dançavam enquanto os
convidados homens mais velhos observavam. Trump, então com 45 anos, patrocinou
a competição e abriu as portas do Hotel Plaza para receber as candidatas e os
eventos. Atuou também como um dos 10 jurados. As antigas participantes
descreveram uma atmosfera que parecia menos uma audição profissional e mais um
campo de provas para obter acesso, com pressão para comparecer a jantares
privados e encontros noturnos com jurados e executivos de agências.
Os participantes
Donald Trump
O 45.º presidente dos Estados Unidos, que desempenho funções
como jurado no concurso de modelos "Look of the Year" de 1991.
John Casablancas
O fundador da Elite Model Management, que organizou o
concurso "Look of the Year".
Gérald Marie
Um ex-executivo e jurado da Elite que enfrentou acusações de
várias mulheres, que nega.
David Copperfield
Um mágico que foi jurado do concurso "Look of the
Year" em alguns anos e negou as alegações de conduta imprópria feitas por
ex-participantes.
Fonte: NYC Today, 4 de março de 2026
Modelos adolescentes, homens poderosos e jantares privados: quando Trump organizou o Look of the Year
Donald Trump, então com 45 anos, com as participantes do
concurso Look of the Year de 1991, ano em que foi jurado
No início dos anos 90, Donald Trump foi jurado no maior
concurso de modelos do mundo - que, entretanto, foi alvo de alegações de abuso.
Veja como as pessoas que lá estavam se lembram.
A 1 de setembro de 1991, um grande iate privado navegava em
direção à Estátua da Liberdade. Estava uma noite clara e com uma brisa
agradável, e do convés superior do Spirit of New York, podia ver-se um
pôr-do-sol dourado a reluzir no horizonte de Manhattan. No convés inferior, uma
festa estava em pleno andamento. Dezenas de raparigas adolescentes com vestidos
de noite e minissaias, algumas com apenas 14 anos, dançavam sob luzes de
discoteca. Poderia ter sido um baile de finalistas do liceu, não fosse a multidão
de homens mais velhos à sua volta.
À medida que a noite avançava, alguns dos homens – muitos
com idade suficiente para serem pais ou até avôs das raparigas – juntaram-se a
elas na pista de dança, pressionando-se contra as raparigas. Um homem calvo de
fato envolveu duas jovens modelos com os braços, olhando lascivamente para uma
câmara que registava a noite: “Pode colocar algumas mulheres bonitas à minha
volta, por favor?”
A festa a bordo do Spirit of New York foi um dos vários
eventos a que Donald Trump, então com 45 anos, compareceu com um grupo de 58
jovens aspirantes a modelo nesse mês de setembro. Viajaram de todo o mundo para
competir no concurso Look of the Year da Elite, um evento anual que se
realizava desde 1983 e já era creditado por ter lançado as carreiras de Cindy
Crawford, Helena Christensen e Stephanie Seymour. Em causa estava um prémio que
mudaria as suas vidas: um contrato de 150 mil dólares com a então principal
agência de modelos do mundo, a Elite Model Management, dirigida por John
Casablancas.
Trump esteve intimamente envolvido no concurso de
Casablancas. Em 1991, foi o principal patrocinador, abrindo as portas do Plaza,
o seu luxuoso hotel em estilo de castelo com vista para o Central Park,
transformando-o no local principal do evento e hospedando as jovens modelos.
Foi também um dos dez membros do júri.
Em 1992, Trump voltou a acolher a competição. Numa noite igualmente dourada, no início de setembro desse ano, outro grupo de concorrentes embarcou no Spirit of New York, fretado para outro cruzeiro da Elite. Uma das raparigas que seguia no barco era Shawna Lee, então com 14 anos e vinda de uma pequena cidade perto de Toronto. Recorda como as candidatas foram incentivadas a descer as escadas, uma a uma, e a dançar para Trump, Casablancas e outros. Lee, uma adolescente introvertida que adorava desenhar, mas detestava a escola, estava pela primeira vez em Nova Iorque. "Uma mulher da agência estava a pressionar-me", recorda. "Eu disse-lhe: 'Não vejo porque é que descer as escadas e dançar à frente daqueles dois tem alguma coisa a ver com eu me tornar modelo'. E ela respondeu: 'Não, estás ótima, tira o blazer e vai lá fazer'. Então desci as escadas. Não dancei – mandei-lhes um beijo, dei uma volta e fui-me embora."
Candidatas aguardam para embarcar no iate Spirit of New
York, setembro de 1991
Outra candidata, que tinha 15 anos na altura, também se
recorda de ter sido convidada a desfilar para Trump, Casablancas e outros
homens no barco em setembro de 1992. Conta que um organizador lhe disse que, se
recusasse, seria excluída da competição. “Eu sabia, no fundo, que aquilo não
estava bem”, recorda. “Não era para ser julgada nem fazia parte da competição –
era para o entretenimento deles.”
Embora o folheto oficial da Elite afirmasse que as
candidatas tinham entre 14 e 24 anos, todas as que o Guardian
entrevistou, a competir nos dois anos, tinham entre 14 e 19 anos. Algumas
vieram para Nova Iorque acompanhadas pelos pais ou encarregados de educação;
outras, sozinhas. Muitas estavam longe das suas famílias pela primeira vez.
Para elas, a pressão era grande e a expectativa para impressionar os jurados,
enorme. Como Casablancas as tinha alertado no início da competição, numa cena
gravada pelas câmaras de TV: “Serão julgadas, constantemente julgadas.” (Em
1991 e 1992, o concurso Elite foi filmado para um especial televisivo de 60
minutos, com entrevistas e imagens de bastidores, e posteriormente exibido na
Fox – uma incursão inicial na reality TV.) Casablancas era uma figura
poderosa na indústria e, para muitas das novas aspirantes a supermodelos, esta
parecia uma oportunidade imperdível.
Três décadas depois, começa a surgir um retrato muito diferente da competição. Nos últimos seis meses, o Guardian falou com dezenas de ex-participantes do Look of the Year, bem como com pessoas influentes do setor, e obteve 12 horas de filmagens inéditas dos bastidores. As histórias que ouvimos sugerem que Casablancas e alguns dos homens na sua órbita usaram o concurso para se envolverem em relações sexuais com jovens modelos vulneráveis. Algumas destas alegações configuram assédio sexual, abuso ou exploração de adolescentes; outros casos são mais precisamente descritos como violação.
John Casablancas com Naomi Campbell, que coapresentou a final do concurso Look of the Year de 1991
Trump com Casablancas, no hotel Plaza de Trump em Nova Iorque, local da entrega dos prémios Look of the Year de 1991
Nenhuma alegação semelhante foi feita contra Trump, que na
altura namorava com Marla Maples, a mulher que em 1993 se tornou a sua segunda
mulher. Mas o seu envolvimento próximo no concurso levanta questões ao
presidente. Sabia que Casablancas e outros mantinham relações sexuais com as
candidatas? Porque é que um homem na casa dos 40 anos, cujo principal negócio
era o desenvolvimento imobiliário, quereria promover um concurso de beleza para
adolescentes?
Os jornalistas vasculharam quase todos os cantos da vida do
45º presidente, mas a sua amizade com Casablancas e o seu envolvimento no
concurso Look of the Year em 1991 e 1992 foram amplamente ignorados. No
entanto, o concurso é mais do que uma simples nota de rodapé na história de
Donald Trump. Com o tempo, viria a revelar-se a base da sua transição para a reality
TV. Ele chegou mesmo a casar-se com uma ex-concorrente do Look of the Year:
a atual primeira-dama, Melania Trump, ficou a um passo de uma viagem a Nova
Iorque em 1992, depois de ter ficado em segundo lugar na fase de qualificação
eslovena.
Quando John Casablancas chegou a Nova Iorque em 1977, aos 35
anos, rapidamente causou furor. Apelidado de "o ladrão" por aliciar
modelos de agências rivais para a sua agência Elite Model Management, ganhou a
reputação de agente implacável. Bonito e carismático, filho de uma ex-modelo da
Balenciaga e de um rico banqueiro espanhol, fundou a agência que viria a ser a
Elite em Paris, no final dos seus 20 anos. Poucos anos depois de se ter
estabelecido em Nova Iorque, Casablancas estava a gerar milhões de dólares em
receitas a cada ano e a inaugurar a era da supermodelo. As amigas glamorosas
frequentavam as festas da Elite em discotecas da moda como o Studio 54.
Não é claro como é que Casablancas conheceu Trump, mas, de
acordo com várias ex-modelos que o encontraram durante a década de 1980, o
empresário tornou-se presença constante nas suas festas. Com a inauguração da
Trump Tower na Quinta Avenida de Nova Iorque em 1983 e a aquisição do resort
Mar-a-Lago, na Florida, em 1985, Trump ganhou a reputação de playboy de sucesso
por mérito próprio. Em 1987, publicou "A Arte da Negociação" e
seguiu-se uma onda de publicidade. "Está no topo de um império de 3 mil
milhões de dólares", proclamou o Washington Post, "e parece
ter o toque de Midas".
Talvez não fosse surpreendente que Trump, uma celebridade
nova-iorquina que gostava de namorar com mulheres bonitas, viesse a conhecer o
agente de modelos mais famoso da cidade. "Trump era bom nas relações
públicas e isso era algo que o John apreciava", diz Jeremie Roux, que
agora dirige a System, uma agência de modelos que cofundou com Casablancas em
2009. "Para Trump, tanto a imprensa boa como a negativa eram boas."
Patty Owen, estrela das capas da Elle e da Cosmopolitan, recorda-se de ter visto Trump em festas da Elite já em 1982. "Ele estava sempre no bar. Era lá que ficava e era lá que todas as novas modelos se reuniam", conta. "Sempre que o via, pensava: porque é que o John precisa de o convidar?" Barbara Pilling, também modelo da Elite na altura, contou-nos que Trump a convidou para jantar no verão de 1989 numa festa da indústria. Lembra-se de Trump perguntar quantos anos ela tinha. “Eu disse 17 anos e ele respondeu: ‘Isso é ótimo – não és demasiado velha, nem demasiado nova’.”
Stacy Wilkes no Spirit of New York, em 1991, com a vencedora desse ano, Ingrid Seynhaeve
Shawna Lee (segunda a contar da direita) com outras
candidatas no concurso Look of the Year de 1992
Em entrevista ao The Guardian, quatro ex-modelos da
Elite contam que, no final dos anos 80 ou início dos anos 90, quando eram
adolescentes, a agência exigia que comparecessem a jantares privados com Trump,
Casablancas e, por vezes, outros homens. Uma delas era Shayna Love, uma modelo
australiana que tinha 16 anos quando veio a Nova Iorque pela primeira vez no
verão de 1991. Ao recordar um jantar a que assistiu, diz agora: “Era
apresentado como o nosso dever enquanto modelos na agência. Não era um convite.
Era como se dissessem: têm de ir fazer isto”. Conta que o jantar a que
compareceu, no qual estiveram presentes 10 ou 15 modelos, foi servido numa mesa
comprida numa zona reservada de um restaurante sofisticado. “Eu estava numa
ponta com o John, e o Trump estava na outra ponta… rodeado pelas outras
raparigas.”
Na primavera de 1991, Trump e Casablancas fecharam um acordo
comercial. Trump patrocinaria a final do concurso Look of the Year e hospedaria
as candidatas no Plaza, que também serviria de sede. Na altura, Trump
enfrentava sérias dificuldades financeiras e estava perto de apresentar um
pedido de falência ao abrigo do Capítulo 11, mas isso não pareceu desmotivá-lo.
Nas imagens de bastidores recentemente descobertas do Look of the Year de 1991,
Trump faz uma série de aparições ao lado de Casablancas, que descreve como “o
meu amigo John”. A dado momento, Casablancas revela como ele e Trump firmaram a
sua parceria comercial. “Tinha-me preparado para uma longa reunião com Donald
Trump para lhe explicar porque é que isto seria um grande sucesso”, diz
Casablancas à plateia. “Na verdade, eu não tinha terminado a minha terceira
frase e ele disse: ‘Adorei a ideia. Vamos a isso’.”
Trump
nega agora ser amigo de Casablancas. Os representantes do presidente
disseram ao Guardian que este nega isso “nos termos mais fortes
possíveis”. Trump, disseram, “mal o conhecia, passou muito pouco tempo com ele
e sabia muito pouco sobre ele”.
Stacy Wilkes nunca tinha estado num local como o Plaza Hotel
de Nova Iorque quando chegou ao hotel de Trump com outra candidata, em setembro
de 1991. Na altura com 16 anos, vivia em Louisville, no Kentucky, com a mãe,
que lutava para sobreviver. A adolescente fazia vendas de garagem e cortava
relva para ganhar dinheiro extra. “Estava tão entusiasmada por estar num
hotel”, diz ela. “Sair de uma zona pobre do Kentucky para um lugar como este –
sentia-me como a criança do filme Home Alone.” Recorda-se de se sentir
deslocada num hotel onde “tudo era dourado”.
A adolescente tinha sido selecionada no âmbito de uma
extensa busca internacional, supervisionada por Casablancas, por “novos
rostos”. Muitas candidatas vieram de competições de qualificação depois de
vencerem eliminatórias regionais, ou de serem descobertas em centros comerciais
e lobbies de hotéis ou, num caso, na praia. Casablancas tinha visitado o centro
comercial local de Wilkes para realizar um evento de recrutamento da Elite um
ano antes, quando tinha 15 anos. O seu agente local enviou-a ao seu encontro,
dizendo-lhe o que vestir e como agir. Ela diz: “Disseram-me para soltar o
cabelo à frente da cara e depois, tipo, sacudi-lo e olhar para ele”.
Um ano depois, Wilkes estava entre as que foram recebidas no aeroporto por uma multidão de fotógrafos e levadas para limusinas – uma receção de supermodelo. “Foi bastante agradável”, recorda ela. As candidatas reuniram-se sob lustres de cristal no Plaza para encontrar Casablancas. Disse-lhes que seriam avaliadas durante vários dias antes de uma noite de gala, quando a vencedora seria coroada. As raparigas passariam por transformações e participariam em sessões fotográficas, vestindo spandex para uma rotina de exercícios em frente ao Plaza. As imagens de bastidores mostram Casablancas a informar as aspirantes a modelos que a atenção estaria focada não só na aparência, mas também na "vossa forma de ser, na vossa atitude, na vossa personalidade, no vosso espírito de cooperação".
Da esquerda para a direita: John Casablancas, o fotógrafo Patrick Demarchelier e Gérald Marie, chefe do escritório da Elite em Paris e jurado do concurso Look of the Year de 1991
Donald Trump com as participantes do concurso Look of the
Year de 1991, ano em que foi jurado
Aos 16 anos, Wilkes era uma das participantes mais velhas do
Look of the Year. O documentário da Fox de 1992 relatava que a média de
idades era de 15 anos, e as entrevistas do filme deixam evidente a juventude de
muitas participantes. Perante os jurados para a etapa crucial de fatos de
banho, as aspirantes a modelo são convidadas a falar sobre si mesmas. "Eu
canto e adoro animais", diz uma rapariga, nervosa. Outra diz aos jurados:
"Gosto de cães grandes e de chocolate". Mais tarde, durante uma
sessão fotográfica, um fotógrafo instrui uma jovem de 15 anos para mostrar mais
o decote, puxando o sutiã para baixo. "Mais", diz-lhe. "Mais.
Mais."
Em 1991, havia 10 jurados no total, oito deles homens,
incluindo Trump, Casablancas, o famoso mágico David Copperfield e o presidente
da divisão europeia da Elite, Gérald Marie. Para a prova de fatos de banho, os
jurados, incluindo Trump e Casablancas, sentaram-se à mesa num dos sumptuosos
salões do Plaza, avaliando as modelos adolescentes. "Senti-me tão
desconfortável, parada ali de fato de banho", recorda Wilkes. Conta que, a
certa altura do concurso, os jurados disseram que devia emagrecer:
"Parecia que se estavam a unir contra mim".
A participante que ficou em terceiro lugar em 1991 foi Kate
Dillon, então com 17 anos. Dillon, que se tornou uma modelo plus size de
sucesso, diz que muitas das concorrentes eram "de sítios muito pobres. Eu
vinha de uma família com recursos, por isso era algo divertido para fazer
durante uma semana para faltar à escola – mas muitas destas raparigas estavam
desesperadas". Ela recorda vários eventos “fora de horas” ao longo dos
cinco dias de competição. “Era muito claro que havia oportunidades para sair e
festejar (party) com o Donald”, diz ela. As candidatas foram levadas a
acreditar “que se fosses simpática com certas pessoas, coisas boas te
aconteceriam, e acho que era por isso que as raparigas saíam”.
Cada vez que trocávamos de roupa, Trump arranjava um motivo
para vir aos bastidores.
As imagens dos bastidores vistas pelo Guardian
mostram breves excertos do futuro presidente a interagir com as modelos do Look
of the Year. Numa receção noturna, parece desempenhar o papel de anfitrião,
movendo-se majestosamente pelos salões ornamentados do Plaza, de fato e
gravata, conversando com convidados VIP e candidatas. “Como estão as candidatas
canadianas?”, questiona, antes de se dirigir a um grupo de aspirantes a modelos
canadianas e de se apresentar. Noutra altura, circula no convés superior do
Spirit of New York enquanto o barco se prepara para partir. Vestindo um blazer
creme fluído, uma camisa cor-de-rosa com o decote aberto e um boné de basebol
grande, Trump sorri enquanto posa para fotografias e conversa com várias
raparigas. Uma delas conta-lhe que está a terminar a escola.
Algumas ex-participantes recordam-no presente enquanto se
preparavam para os eventos. "Cada vez que trocávamos de roupa, parecia que
Trump encontrava um motivo para vir aos bastidores", diz Wilkes. Uma
participante canadiana de 1992 recorda incidentes semelhantes. "Ele vinha
e dizia: 'Ei, meninas, estamos prontas?'", conta. "Lembro-me de
pensar: 'Em que é que me fui meter?'" Trump nega, "nos termos mais
fortes possíveis", ter-se comportado de forma inadequada com qualquer
participante do Look of the Year. Os seus representantes afirmam que não tinha
conhecimento de nenhum ambiente predatório na altura.
Outros, no entanto, observaram um lado perturbador do
concurso. Ohad Oman, um jovem repórter de uma revista em Telavive, foi enviado
para cobrir o evento em 1991 e 1992. Assistiu a várias das festas pós-evento e
recorda-se de ter visto raparigas a beber álcool. Recorda uma festa
particularmente depravada, dizendo ao Guardian: “Vi raparigas sentadas
no colo de tipos e lembro-me de um tipo colocar a mão dentro da blusa de uma
rapariga. Lembro-me de pensar que eram mais novas do que eu, e eu tinha 17 para
18 anos”. (A idade legal para beber é 21 anos nos EUA.)
Outros que estavam presentes recordam-se de modelos menores de idade a serem servidas com álcool no concurso. Os representantes de Trump dizem que este não forneceu álcool às participantes, nem incentivou nenhuma modelo, menor de idade ou não, a beber álcool, sublinhando que “não bebe álcool e não incentiva outros a fazê-lo”.
Uma imagem de uma filmagem inédita da final do concurso Look
of the Year de 1991
A final da competição de 1991 foi um glamoroso baile de gala
no salão de baile do Plaza Hotel. Casablancas e a supermodelo Naomi Campbell
apresentaram os vencedores, enquanto 10 finalistas desfilavam com uma série de
mudanças de roupa, percorrendo um palco decorado com colunas de girassóis.
Trump estava sentado na primeira fila ao lado de várias celebridades, com a
filha Ivanka, de nove anos, ao colo.
Ingrid Seynhaeve, uma belga de 18 anos, foi coroada
vencedora. Ao final da noite, Seynhaeve estava rodeada de fotógrafos. Os
convidados foram saindo do salão de baile enquanto se iniciava uma festa noutro
dos grandes salões do Plaza Hotel. Nas imagens recentemente descobertas, é
possível ouvir um homem fora do enquadramento a dizer: “Vamos lá, miúdas. Vamos
dar-vos uns copos”.
Nos meses que antecederam e sucederam os concursos, a Elite
enviou várias das suas modelos adolescentes para Milão, Nova Iorque ou Paris
para trabalhos, geralmente sozinhas. Shawna Lee, a jovem canadiana de 14 anos
que se sentiu pressionada para desfilar no Spirit of New York, em 1992, tinha
passado o verão anterior em Paris, a trabalhar para a Elite. Recorda os dias em
castings e as noites em festas, incluindo na lendária discoteca Les Bains
Douches.
Depois de uma noite de copos na discoteca, uma das primeiras
vezes que bebeu álcool, conta que um executivo sénior da Elite lhe ofereceu
boleia para casa na sua moto. Gérald Marie, então com pouco mais de 40 anos,
era o chefe do escritório da Elite em Paris, uma figura poderosa na indústria
da moda e jurado do Look of the Year de 1991. Lee aceitou a oferta.
"Pensei: 'OK, claro', porque dependia sempre de alguém para me levar para
casa", conta. Mas ela alega que, em vez de a levar para casa, Marie
levou-a para o seu apartamento e disse-lhe para ir para o quarto dele. Lee diz
que inicialmente recusou, perguntando pela sua mulher. Diz que Marie respondeu:
“Oh, não, vem dormir para a cama comigo, não te preocupes”, e ela cedeu.
“Então, não sei, simplesmente fui.”
Lee diz que o movimento #MeToo a encorajou a falar sobre o
que aconteceu a seguir. Foi a sua primeira experiência sexual. “Simplesmente
congelei”, diz ela. “Eu não sabia bem o que fazer.” Olhando para trás, 30 anos
depois, sente que foi explorada. “Senti-me muito pressionada”, diz ela. “Eu era
muito nova e fui manipulada.” Contou a uma amiga o que tinha acontecido, e isso
logo chegou aos agentes da Elite. “Toda a gente sabia que algo tinha
acontecido, mas desvalorizaram a situação”, diz Lee, que tem agora 42 anos e
trabalha como maquilhadora em Toronto. “Era entendido que o melhor para mim era
afastar-me disto e varrer para debaixo do tapete.” As questões sobre os
alegados maus-tratos de Marie a modelos adolescentes não são novas. Em 2000, a
revista New York noticiou que duas executivas da Elite imploraram a
Casablancas e Marie que parassem de se relacionar com modelos menores de idade,
mas foram ignoradas. ("Somos homens", terá dito Marie. "Temos as
nossas necessidades.") Em 2011, a supermodelo e atriz da Elite, Carré
Otis, alegou que Marie a violou repetidamente quando era modelo aos 17 anos em
Paris, na década de 1980. Há dois anos, outra modelo da Elite, Ebba Karlsson,
acusou Marie de a violar quando tinha 21 anos.
Marie não respondeu a uma carta formal do Guardian, mas num breve telefonema insistiu que nunca agrediu sexualmente nenhuma modelo e negou as acusações específicas feitas por Lee. "É absurdo, não conheço essa pessoa", disse. "Acusações como esta estão a tornar-se muito fáceis de fazer. Francamente, dói."
Trump com a filha Ivanka, de nove anos, na final do concurso
Look of the Year de 1991
Outros homens intimamente envolvidos com o Look of the Year
durante este período foram acusados de má conduta sexual por
ex-participantes. Algumas alegações constam de processos judiciais instaurados
há décadas; outras foram partilhadas pela primeira vez com o The Guardian.
O jornal decidiu não publicar algumas destas alegações, a pedido das mulheres
envolvidas.
Uma alegação já tornada pública diz respeito a David
Copperfield, associado de Casablancas e Trump, que foi jurado do Look of the
Year em 1988 e 1991 e que namorou com outra supermodelo da Elite, Claudia
Schiffer. Há dois anos, enquanto o movimento #MeToo tinha repercussões na
indústria do entretenimento, foi alvo de alegações por parte de Brittney Lewis,
uma participante de 17 anos do Look of the Year de 1988, realizado no Japão. De
acordo com o seu relato, publicado no site de notícias de entretenimento The
Wrap, Copperfield convidou-a para um concerto na Califórnia depois de ela
ter regressado a casa, no Utah. Lewis alegou que viu Copperfield colocar algo
no seu copo e depois ficou em branco, mas diz que reteve memórias vagas dele a
agredi-la sexualmente no seu quarto de hotel. Copperfield declarou no Twitter,
na altura, que tinha sido “falsamente acusado” no passado e que agora estava a
ter de “enfrentar outra tempestade”. E acrescentou: “Por favor, pelo bem de
todos, não se precipitem em julgamentos”. Em resposta às perguntas do Guardian
sobre a alegada agressão, os seus representantes disseram que as alegações eram
falsas e seriamente difamatórias.
Várias das participantes de 1991 recordam-se de Copperfield se comportar de uma forma que agora lhes parece inadequada. Stacy Wilkes conta que Copperfield ligou para o quarto de hotel que partilhava com outra participante de 15 anos, convidando a outra rapariga para o seu quarto. Outra recorda-se de traduzir um telefonema de Copperfield para espanhol para poder convidar uma participante adolescente para o seu quarto de hotel. Aimee Bendio, que participou no concurso Look of the Year em 1991, aos 14 anos, afirma que Copperfield e o seu assistente entraram em contacto com ela em sua casa várias vezes após a sua participação no concurso, "para saber como estava a correr a minha carreira". Conta que o mágico a convidou para os seus espetáculos, oferecendo-se para lhe enviar uma limusina, mas ela recusou.
O mágico David Copperfield no Spirit of New York, em 1991, ano em que foi jurado
Copperfield com a sua ex-namorada Claudia Schiffer
Maya Rubin, uma participante de 16 anos em 1991, conta que
Copperfield a abordou no Spirit of New York. "Eu disse-lhe que era de
Israel", recorda. "Ele disse-me que a mãe sempre quis que ele se
casasse com uma judia." Meses depois, conta, o mágico enviou-lhe um postal
de Natal. Copperfield nega categoricamente ter-se comportado de forma
inadequada com qualquer participante em qualquer momento.
No início dos anos 90, as participantes do concurso Look of
the Year que conseguiam contratos de modelo com a Elite eram apresentadas a uma
empresa de consultoria financeira em fase de arranque, a Star Capital
Management. Era gerida por um associado de Casablancas, David Weil. Instalada
nos escritórios da Elite em Manhattan e patrocinadora oficial do concurso Look
of the Year, a empresa de Weil anunciou os seus serviços no programa da
competição de 1991 com a fotografia de uma menina vestida com roupas e joias de
adulto, acompanhada do slogan: "Tal como tu, não somos apenas mais um
rosto bonito."
No ano seguinte, a Star Capital Management geria milhões de
dólares ganhos pelas modelos da Elite. O negócio logo chamou a atenção das
autoridades federais, que mais tarde acusaram Weil e o seu sócio de roubar pelo
menos 1,2 milhões de dólares aos seus clientes. Em 1998, Weil declarou-se
culpado de acusações federais de fraude. Também se declarou culpado de violação
(statutory rape) de uma modelo de 15 anos que conheceu no Look of the
Year em 1992.
Weil foi condenado a cumprir pena na prisão aos fins de
semana durante três meses e obrigado a registar-se como agressor sexual durante
10 anos. Mark Lawless, um advogado de Nova Iorque que interpôs um processo
civil por fraude contra a Star Capital Management em nome da vencedora do
concurso Look of the Year de 1991, Ingrid Seynhaeve, e outros, afirma que, ao
inspecionar o escritório, encontrou um quarto adjacente. Uma das gavetas da
secretária, recorda, continha “balas e preservativos”. Weil recusou comentar
quando contactado pelo Guardian.
Quatro anos após a condenação de Weil, em 2002, Casablancas enfrentou o seu próprio conjunto de acusações nos tribunais civis. Uma ex-concorrente do Look of the Year, conhecida apenas por Jane Doe 44, interpôs um processo acusando-o de a ter abusado sexualmente vezes sem conta, desde os 15 anos de idade. O abuso começou, segundo o processo, no Look of the Year de 1988, no Japão, onde Casablancas disse a Doe que se estava a “apaixonar” por ela. No final da competição, segundo o processo, “as participantes beberam e festejaram até altas horas da noite” e Casablancas disse à adolescente para ir para o seu quarto de hotel. Aí, Casablancas abusou sexualmente da rapariga “várias vezes ao longo da noite”. O abuso terá continuado no ano seguinte; quando a rapariga engravidou, Casablancas disse-lhe que “iria fazer um aborto”. O aborto terá sido “organizado e pago” pela Elite. Casablancas tinha 46 anos na altura.
John Casablancas com a sua terceira mulher, Aline
Wermelinger, em 1995; conheceram-se quando ela era uma das candidatas ao
concurso Look of the Year de 1992
O processo alegava ainda que Casablancas “se envolvia num
padrão de sedução, exploração sexual e/ou abuso de raparigas menores de idade,
incluindo raparigas de apenas 14 ou 15 anos”. Mas, em 2003, o tribunal superior
de Los Angeles rejeitou as acusações contra ele porque não vivia na Califórnia,
onde o processo tinha sido aberto. Na altura, um advogado de Casablancas disse
que as alegações não tinham fundamento.
Os representantes de Trump disseram ao Guardian que
este nega veementemente ter qualquer conhecimento, na altura, de que
Casablancas se tivesse alegadamente envolvido em relações sexuais com
candidatas ao Look of the Year, incluindo aquelas que eram menores de idade, ou
que Casablancas alegadamente permitia que outros explorassem ou abusassem de
modelos adolescentes.
Mas o interesse sexual de Casablancas por raparigas
adolescentes era anterior a este período. O seu casamento com a sua segunda
mulher, a modelo dinamarquesa Jeanette Christiansen, terminou em 1983, quando
veio a público que mantinha um caso com uma modelo de 15 anos, Stephanie
Seymour. Casablancas, que estava na casa dos 40 anos na altura, descreveu mais
tarde Seymour como uma "mulher-criança". Conheceu a sua terceira
mulher, a modelo brasileira Aline Wermelinger, em 1992, quando esta era uma das
participantes do concurso Look of the Year e estava hospedada no Plaza Hotel de
Trump. Casaram no ano seguinte; Casablancas tinha 51 anos e ela, 17.
Segundo o seu próprio relato, Donald Trump conheceu o
financeiro Jeffrey Epstein no final da década de 1980. "É muito divertido estar com
ele", disse Trump à revista New York em 2002. "Dizem
até que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, e muitas delas são
bastante jovens." Depois de Epstein ter sido acusado de tráfico sexual de
menores, no ano passado, o presidente distanciou-se, dizendo aos jornalistas que
conhecia o financeiro "como toda a gente em Palm Beach o conhecia",
mas que não falava com ele há 15 anos. "Não era fã dele, isso posso
garantir", disse. Os representantes de Trump disseram ao Guardian
que este tinha "expulsado o sr. Epstein" de Mar-a-Lago por
comportamento inadequado com as funcionárias.
As fotografias de Trump com Epstein, que possuía uma casa
perto de Mar-a-Lago, foram amplamente divulgadas após a detenção do financeiro,
no ano passado. Também voltou a atenção o testemunho de Virginia Roberts
Giuffre, que disse ter sido abordada pela primeira vez pela amiga de Epstein, a
socialite britânica Ghislaine Maxwell, enquanto trabalhava como assistente de
spa em Mar-a-Lago, em 1999.
Parece também que Epstein tinha uma ligação a Casablancas
durante a década de 1990. De acordo com um processo judicial apresentado nos
EUA há três meses, em 1990, Casablancas enviou uma modelo adolescente para o
seu primeiro "casting test" numa morada residencial no Upper East
Side de Nova Iorque, para encontrar um "fotógrafo" que, segundo se
veio a descobrir, era Epstein. O processo refere que Epstein ordenou que a
jovem de 15 anos se despisse antes de lhe tirar fotografias, empurrando-a
contra uma parede e agredindo-a sexualmente.
George Houraney, um empresário cujo concurso de beleza
American Dream Calendar Girls se realizava nos casinos de Las Vegas desde 1978,
recorda-se de ter encontrado Epstein em Mar-a-Lago em janeiro de 1993. Houraney
diz que Trump lhe pediu para organizar uma festa nesse mês com algumas das
finalistas do seu concurso, prometendo convidar chefes de agências de modelos e
potenciais patrocinadores para a sua competição. "Ele fez-me trazer todas
estas raparigas de avião e deu-me um orçamento de 30 mil dólares para bilhetes
de avião e limusinas para as ir buscar ao aeroporto", diz. “As miúdas
estavam todas arranjadas, na esperança de encontrar todos estes VIPs.” Mas,
depois de uma hora na festa, Houraney diz que parecia haver apenas um outro
convidado: Epstein. “Pensei: ‘Donald, onde estão os tipos? O que se passa
aqui?’ E ele disse: ‘Bem, é isto.’” Houraney diz que percebeu que “isto é
basicamente uma festa do Jeff Epstein”.
Embora desconfiado de Epstein, Houraney estava ansioso por
ter Trump como sócio. Um mês antes, em dezembro de 1992, Trump tinha-se reunido
com Houraney e Jill Harth, que geriam o concurso em conjunto. Procuravam um
novo patrocinador para o concurso, que todos os anos apresentava modelos dos 16
aos 22 anos a competir para aparecer em calendários de parede usando biquínis e
fatos de banho enquanto posavam com carros clássicos. Num jantar no Oak Room do
Plaza, Harth, Houraney e Trump discutiram a possibilidade de transferir a
competição American Dream de Las Vegas para um dos casinos de Trump. “Ele
queria transformar isto na maior e melhor coisa que podia fazer. Falava sobre
televisão e usava todos os seus contactos”, disse Harth mais tarde.
Eventualmente, o concurso foi realizado no Trump Castle em Atlantic City, em
novembro de 1993, mas apenas durante um ano.
A parceria azedou e terminou em dois processos judiciais,
mas para Trump foi um prelúdio para uma série de empreendimentos mais rentáveis
no negócio da beleza. Em 1996, garantiu o que o New York Daily News
descreveu como “o seu melhor negócio até então”. Após meses de negociações,
Trump adquiriu a Organização Miss Universo num negócio estimado em 10 milhões
de dólares, que lhe deu o controlo de três grandes e consolidados concursos de
beleza: Miss Universo, Miss EUA e Miss Teen EUA. Três anos depois, fundou a
Trump Model Management, contratando muitos colaboradores da Elite.
Para Wolfgang Schwarz, um veterano agente de modelos na Áustria que trabalhou de perto com Casablancas e conheceu Trump no Plaza no início dos anos 90, a decisão de Trump de criar a sua própria agência teve a ver com o desejo de ter a sua própria fonte privada de modelos. "Se tiver a sua própria agência e for o proprietário, pode dizer aos seus agentes para organizarem uma festa", diz Schwarz. "É mais fácil do que ligar para 15 agências em Nova Iorque." Os representantes de Trump afirmam que este entrou no negócio da moda porque era uma oportunidade de negócio "muito lucrativa".
Kate Dillon, em imagens dos bastidores do concurso de 1991
Casablancas com a vencedora do prémio Look of the Year 1992,
Mariann Molski, então com 14 anos
O acordo com o Miss Universo permitiu a Trump concretizar a
sua ambição de transformar um concurso de beleza num evento internacional
televisionado. Em 1997, vendeu 50% das ações da empresa à CBS. Cinco anos
depois, no meio de uma queda nas audiências do Miss Universo, Trump intermediou
um acordo com a NBC que levou ao lançamento de O Aprendiz em 2004.
A entrada na reality TV posicionou Trump como um
magnata influente com um perfil mediático significativo. De muitas maneiras,
foi uma progressão natural do seu envolvimento em concursos de beleza. Onde
antes julgava jovens modelos, cujas esperanças, rivalidades e inseguranças se
tornavam enredos de programas de TV no documentário Look of the Year da Fox,
agora separava impiedosamente aspirantes a empresários em vencedores e
vencidos.
Três décadas depois dos concursos no Trump’s Plaza, é
impressionante refletir sobre as fortunas divergentes de quem participou.
Muitos dos homens poderosos que Casablancas trouxe para ajudar a julgar as
raparigas prosperaram nos anos seguintes. Gérald Marie é agora o presidente de
uma prestigiada agência de modelos em Paris, a Oui Management. Embora Marie
tenha dito ao Guardian que se reformou, a sua página de LinkedIn lista
as suas responsabilidades na agência de "novos talentos em ascensão"
como a procura e gestão de talentos. A Oui Management não respondeu ao nosso
pedido de comentário. David Copperfield continua a ser um artista proeminente,
com uma residência atual no resort MGM Grand, em Las Vegas.
As fortunas das adolescentes que participaram foram
variadas. Algumas tornaram-se modelos de sucesso, atrizes de Hollywood e
apresentadoras de TV, enquanto muitas outras levaram vidas mais tranquilas.
Ingrid Seynhaeve, a vencedora de 1991, tornou-se o rosto da Ralph Lauren e da
Dior, apresentou o programa de TV Topmodel da Bélgica e continua a
protagonizar campanhas de grande impacto. Outras candidatas com quem falámos
incluem uma esteticista, uma dona de casa, uma maquilhadora, uma professora de
ioga e uma motorista de autocarro.
Em 1992, a coroa foi para uma das mais jovens concorrentes
do Look of the Year: Mariann Molski, de 14 anos. Meses após a sua vitória, um
perfil no Chicago Tribune relatou que a estudante desportiva do ensino
secundário estava "à beira de uma carreira do tipo com que a maioria das
jovens apenas sonha". Embora tenha tido algum sucesso como modelo, não é
claro o que lhe aconteceu nos anos seguintes; registos públicos dos EUA indicam
várias detenções por violações de liberdade condicional, delitos relacionados
com álcool e prostituição, embora não haja nada que indique que tenha sido
acusada formalmente. O paradeiro atual de Molski é desconhecido, mas acredita-se
que tenha vivido em situação de sem-abrigo no Arizona.
Após anos de má gestão financeira, a Elite foi forçada à
falência em 2004. A marca Elite continua a ser utilizada por duas agências
separadas, pertencentes a diferentes entidades corporativas. Uma delas é a
Creative World Management, que comprou a divisão de Nova Iorque em 2004.
Afasta-se fortemente da empresa e da era Casablancas, afirmando que condena
"completamente" os tipos de "comportamento deplorável" que
alegadamente ocorreram no passado.
A outra herdeira da marca é a Elite World Group, que opera a sucessora do Look of the Year, um concurso global semelhante para a próxima modelo jovem de destaque, chamado Elite Model Look. Ela também se distancia da era Casablancas. "Não toleraríamos a conduta que descreveu", disse a empresa ao The Guardian. "Empoderar as nossas modelos e proteger a sua segurança é a nossa principal prioridade".
Donald Trump com as participantes do concurso Elite Look of
the Year de 1991
John Casablancas reformou-se no Brasil no início dos anos
2000. Morreu no Rio de Janeiro em 2013, aos 70 anos, muito antes de o movimento
#MeToo anunciar um novo padrão de responsabilização para homens poderosos
acusados de explorar mulheres e raparigas. Nunca chegou a ver o seu antigo
associado, Donald Trump, ascender à Casa Branca, apesar de uma série de
alegações sobre o próprio tratamento de Trump para com as mulheres. Há agora pelo menos 25 alegações
de má conduta sexual contra o presidente, que vão desde investidas
indesejadas e assédio a graves agressões sexuais. Mais de metade refere-se a
modelos ou participantes de concursos de beleza. Trump nega ter-se comportado
de forma predatória ou inadequada com qualquer mulher ou rapariga.
Em entrevista ao The Guardian, 30 anos depois, várias
ex-concorrentes do Look of the Year acreditam que um momento #MeToo para o
mundo da moda já deveria ter acontecido há muito tempo. "As raparigas são
jovens e veem estes agentes como figuras parentais, e não são", diz Shawna
Lee. “Tudo o que dizem é lei, seja ‘Vai cortar o cabelo’ ou ‘Vai usar este
vestido’. É uma pena que não tenha havido mais consequências para estes
homens.”
Após o Look of the Year de 1991, Stacy Wilkes regressou a
Louisville e abandonou a faculdade, apesar de ter dito aos jurados que iria
terminar os estudos. “Achei que era esse o motivo da minha derrota”, diz ela,
“por isso pensei que poderia muito bem desistir se quisesse tornar-me modelo.
Estávamos realmente sem dinheiro, por isso pensei em tentar ganhar dinheiro
para a minha mãe, mas não resultou”. Está satisfeita com o rumo que a sua vida
tomou, vivendo em Louisville com o seu companheiro e três gatos, mas acrescenta
que as mulheres estavam a levantar preocupações na altura e foram ignoradas:
“Acho que as modelos dos anos 90 se esforçaram muito, repetidamente, e ninguém
acreditou no que tínhamos para dizer.”
Kate Dillon, agora empresária que vive em Seattle, recorda o
concurso como algo que “explorava os atributos e os corpos das mulheres. Muitas
destas raparigas estavam desesperadas. Pensavam que ser modelo era atrair os
homens, o que não é verdade”. Havia um clima de oportunismo, diz ela. “Não há
dúvida de que os homens pensavam: ‘Sim, semana do Look of the Year, vamos
garantir que a minha agenda está livre para receber raparigas no meu
apartamento.’
“O que é ótimo é que agora temos uma linguagem e um
precedente de jovens a dizer: ‘Não, não vou deixar que isto continue’”,
acrescenta Dillon. “Nunca aceitariam ser tratadas da forma como eu fui.”
Fonte: The Guardian, 14 de março de 2020


















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