Dos tiros em Abidjan aos relvados de Vila Nova de Gaia: «Havia pessoas a disparar contra a nossa casa»
Este sábado, há final da Taça da Liga e será inédita.
Torreense e Valadares Gaia enfrentam-se e, no meio de todas as histórias
possíveis de serem contadas, há uma que sobressai. Pela novidade, pela coragem
e por toda a resiliência.
Margaux Chauvet, hoje, veste a camisola do emblema gaiense,
mas tinha apenas três anos quando aprendeu, sem perceber, o que significava
fugir para sobreviver.
A média defensiva soma, para já, três jogos pelo clube. Mas
a história que carrega vai muito além do futebol e começa num dos episódios
mais violentos da Guerra Civil da Costa do Marfim, um conflito que marcou
profundamente o país africano e mudou o rumo da sua vida.
Em 2004, num dos momentos mais críticos da guerra, a
violência atingiu um novo pico. Após um ataque da aviação marfinense que matou
soldados franceses, a resposta militar de França - com a destruição da força
aérea do país - desencadeou motins em Abidjan. A cidade tornou-se palco de
confrontos, saques e perseguições.
Os estrangeiros, especialmente franceses, passaram a ser
alvo. A família Chauvet estava entre eles.
O pai trabalhava na embaixada francesa e viu o seu nome e
morada cair nas mãos de grupos hostis. Durante dois dias, ficaram barricados em
casa, enquanto no exterior se acumulava a tensão. “As pessoas estavam a tentar
arrombar as portas”, recordou mais tarde. Dentro, Margaux e o irmão eram
protegidos pelos pais, num ambiente de medo constante.
A fuga aconteceu sob o som de tiros
“Só me lembro de ter de sair do país e de ir para outro
sítio de helicóptero, porque havia pessoas a disparar contra a nossa casa”,
contou a própria jogadora, anos mais tarde, ao SBSNews.
Primeiro, uma saída apressada de carro até um hotel. Depois,
horas de espera. Por fim, um helicóptero militar que retirou a família do país,
numa operação que envolveu milhares de evacuados naquele fim de semana. Tudo
contado pelo próprio pai, Renaud Chauvet, ao mesmo portal.
“Quando os motins começaram, os guardas foram alvo. Passámos
dois dias fechados em casa com as crianças, Vincent e Margaux, a sermos
atacados. Havia pessoas a tentar arrombar as portas e, graças a Deus, eu
tinha-as reforçado nesse verão. Saímos de casa com pessoas a disparar para o
ar. A Margaux estava debaixo do meu braço, saltámos para um carro e fomos até
um hotel, onde ficámos durante três horas. Um helicóptero militar veio e
levou-nos. Nesse fim de semana, oito mil famílias foram evacuadas. Foi muito mau.”
“Quando os meus pais contam essas histórias, nem consigo
acreditar que passámos por aquilo”, recordou a jovem jogadora. A memória é
fragmentada, mas o impacto ficou.
À liberdade do futebol
Depois da fuga, a família passou por França antes de
encontrar estabilidade na Austrália. Foi em Wollongong que Margaux começou a
reconstruir a infância, e foi também aí que o futebol entrou na sua vida,
impulsionado pelo irmão.
Cresceu a jogar muitas vezes entre rapazes, num contexto
onde o futebol feminino ainda dava os primeiros passos. O talento levou-a ao
Illawarra Stingrays e, mais tarde, ao Football NSW Institute, etapas
fundamentais na formação. Aos 17 anos, já competia ao mais alto nível do
futebol australiano.
Estreou-se pelas Western Sydney Wanderers na A-League Women
e rapidamente chamou a atenção, não só pela qualidade, mas pela personalidade.
Num dos primeiros jogos, permaneceu em campo até ao fim apesar de cãibras
severas, numa demonstração de resistência que os treinadores não esqueceram.
Seguiu-se uma passagem pela Europa, no KR Reykjavik, na
Islândia, antes de regressar à Austrália para representar o Sydney FC. Aí,
encontrou a fase mais estável da carreira, afirmando-se como uma jogadora
versátil - capaz de atuar na defesa e no meio-campo - e ganhando espaço num dos
clubes mais competitivos do país.
Apesar de ainda não somar títulos de relevo, construiu um
percurso sólido, marcado pela consistência e pela evolução. E mantém um
objetivo claro.
Elegível para várias seleções, Chauvet nunca escondeu o
sonho de representar a Austrália. Já passou por estruturas jovens e integrou um
campo de identificação de talento das Matildas, mantendo viva a ambição de
chegar à seleção principal.
Agora, a história continua em Portugal. No Valadares Gaia,
os primeiros três jogos são apenas o início de um novo capítulo. Um capítulo
que, como todos os anteriores, nasce da adaptação a um novo país, a um novo
campeonato, a uma nova realidade.
Mas há algo que permanece inalterável. Margaux Chauvet é
produto de um percurso onde o futebol nunca foi apenas futebol. Foi refúgio,
reconstrução, identidade. E, talvez por isso, cada jogo tenha um significado
que vai muito além das quatro linhas.


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