Europeus cobardes dão carta branca aos EUA e a Israel para uma guerra ilegal
Enquadram
a crise não como um ato de guerra contra um Estado-membro da ONU, mas como uma
consequência natural da recusa de Teerão em capitular incondicionalmente
Na sequência dos novos ataques dos Estados Unidos e de
Israel contra o Irão, a aliança transatlântica ofereceu uma resposta que
confirmou o que muitos, tanto no Ocidente como fora dele, sempre souberam: para
Londres, Paris, Berlim e Bruxelas, a chamada “ordem
internacional baseada em regras” foi reduzida a uma premissa simples
e brutal: a força faz o direito — desde que a força seja ocidental.
A declaração conjunta do E3 — França, Alemanha e Reino Unido
— é uma lição exemplar de evasão. “Não participámos nestes ataques, mas estamos
em estreito contacto com os nossos parceiros internacionais, incluindo os
Estados Unidos e Israel”, declararam. O texto
enumera igualmente todas as referências e justificações usadas pelos críticos
mais duros do Irão — “programa
nuclear, programa de mísseis balísticos, desestabilização regional e repressão
contra o seu próprio povo”.
Nenhuma menção ao direito internacional que proíbe
explicitamente a agressão. É particularmente orwelliano que os líderes europeus
“exortem a liderança iraniana a procurar uma solução negociada”, quando o
ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, estava
literalmente a fazer exatamente isso no dia anterior, em Genebra.
Ao não condenar os ataques, o E3 deu carta branca à
administração Trump e à administração Netanyahu. Enquadram a crise não como um ato
de guerra contra um Estado-membro da ONU, mas como uma consequência natural da
recusa do Irão em aceitar incondicionalmente a sua capitulação. A lógica é
perversa: o alvo é culpado pelo ataque, e os
agressores são vistos como restauradores da ordem.
Para compreender esta abdicação política e estratégica, é
necessário examinar as motivações que movem os líderes europeus — não para as
justificar, mas para expor os cálculos cínicos por detrás da sua cobardia.
Em primeiro lugar, há a Ucrânia. Desesperados por manter
Washington envolvido na crise de segurança europeia, Bruxelas e a maioria das
capitais europeias calcularam que entrar em conflito com Washington sobre o
Médio Oriente, ou, na verdade, sobre qualquer lugar no Sul Global, é um luxo
que não se podem dar ao luxo de ter. Isto segue-se à reação igualmente acanhada
da UE ao ataque dos EUA à Venezuela, há menos de dois meses.
Não só, como alguns líderes europeus pareceram, de facto,
encorajados pela facilidade com que os EUA raptaram o presidente venezuelano
Nicolás Maduro e a sua mulher, esperando que, talvez, o mesmo pudesse ser
replicado no caso do presidente russo Vladimir Putin. Aliás, é perfeitamente
razoável sugerir, como fez Emma Ashford, do Stimson Center, que a operação na
Venezuela desempenhou um papel importante ao encorajar Trump a pensar que a
mudança de regime no Irão seria igualmente pacífica.
Em segundo lugar, existe uma animosidade genuína em relação
ao regime iraniano — e não sem razão. A brutal repressão dos protestos em janeiro
de 2026, o apoio à Rússia na sua guerra na Ucrânia e a utilização persistente
de cidadãos com dupla nacionalidade como reféns diplomáticos contribuíram, com
razão, para que a República Islâmica tivesse poucos aliados nas capitais
europeias.
Mas eis a verdade incómoda que os dirigentes europeus se recusam a encarar:
a antipatia por um regime não justifica a conivência com uma guerra ilegal
contra o mesmo. O direito internacional não é um sistema de recompensas pelo
bom comportamento. É um conjunto de restrições concebido precisamente para
momentos como este — quando Estados poderosos se convencem de que o alvo é tão
odioso que as regras normais já não devem ser aplicadas.
O Ocidente já cometeu este erro antes. A invasão do Iraque
foi justificada pela diabolização de Saddam Hussein. O bombardeamento de Belgrado foi precedido pela caracterização do presidente
sérvio Slobodan Milosevic como um ator singularmente monstruoso. Em cada caso,
a gratificação de curto prazo de «fazer algo» em relação a um regime desprezado
deu lugar a uma catástrofe estratégica de longo prazo — a erosão das normas
jurídicas internacionais que protegem todos os Estados, incluindo os
ocidentais.
Um eurodeputado belga de esquerda expressou a situação de
forma muito mais direta do que qualquer ministério dos Negócios Estrangeiros
ousou: "A UE tolera a guerra de agressão
ilegal e não provocada dos EUA e de Israel contra o Irão. A falha da Europa em
defender os princípios básicos do direito internacional legitima o
comportamento dos Estados pária e coloca vidas em risco em todo o mundo. Vergonhoso.
Perigoso."
De facto, ao recusar chamar ao ataque EUA-Israel aquilo que
ele é — uma guerra de agressão ilegal e não provocada — a UE não se mostra
neutra. Ela está a desmantelar ativamente a própria estrutura jurídica que
afirma defender e da qual depende, em última instância, a sua própria segurança. Ela diz
a Teerão e ao Sul Global que as negociações diplomáticas são meramente um
incentivo para baixar a guarda, um engano a respeitar apenas até que a potência
hegemónica decida que está pronta para uma ação militar.
Aliás, numa repetição impressionante da Guerra dos Doze
Dias, em junho passado, estes ataques ocorreram enquanto as negociações
nucleares EUA-Irão, mediadas por Omã, mostravam, alegadamente, progressos. A
mensagem é inequívoca: não faz sentido dialogar com os EUA, pois
o país não negoceia de boa-fé, e os seus aliados europeus estarão sempre
disponíveis para dar cobertura diplomática a Washington.
Um caso de dissidência na Europa, contudo, oferece um
vislumbre de um caminho não trilhado. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, foi o único entre os líderes
dos principais países europeus a rejeitar a "ação militar unilateral dos
EUA e de Israel" por contribuir para "uma ordem internacional mais
incerta e hostil".
Da mesma forma, o ministro dos Negócios Estrangeiros da
Noruega, Espen Barth Eide, observou
corretamente que os chamados ataques preventivos violam o direito
internacional, a menos que um ataque seja "iminente". Estes
dirigentes compreendem que as normas jurídicas internacionais não são
facultativas e que a sua aplicação seletiva prejudica a posição da Europa onde
mais importa para o continente: na Ucrânia.
No entanto, Espanha e Noruega são as exceções. A corrente
dominante, representada pelo E3 e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula
von der Leyen, está absorvida a gerir as consequências da agressão — não só por
ter falhado completamente em impedir a agressão através de um acordo
diplomático entre os EUA e o Irão, como também por ter exacerbado as tensões ao
reativar as sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o Irão. A resposta de von
der Leyen foi convocar um "Colégio de Segurança especial" na
segunda-feira para discutir os "ataques injustificados do Irão contra
parceiros", tratando, na prática, a escalada como um problema causado pela
retaliação do alvo.
Como afirmou a experiente especialista em política externa
europeia, Nathalie Tocci, em reação à declaração ineficaz de von der Leyen:
"Alguma opinião sobre o ataque militar ilegal dos EUA/Israel? Penso que
nem sequer se pode definir isso como hipocrisia. Na hipocrisia existe pelo
menos a pretensão de considerar as normas importantes. O único consolo é que
nos tornámos totalmente irrelevantes no Médio Oriente."
É difícil discordar deste epitáfio
implacável para a política externa europeia. Nem sequer a hipocrisia
permanece — apenas a irrelevância. Enquanto o Médio Oriente oscila à beira de
uma nova e extensa guerra, a história não será benevolente para com aqueles que
não contribuíram para qualquer solução diplomática que a impedisse, e que
depois a endossaram, dando o golpe final na “ordem internacional baseada em
regras”.
Eldar Mamedov
Fonte: Responsible Statecraft, 1 de março de 2026

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