Filho de Khamenei, ex-combatente e próximo da Guarda Revolucionária. Quem é Mojtaba Khamenei, novo líder supremo do Irão?
O
segundo filho de Ali Khamenei foi escolhido como líder supremo do Irão. De
perfil discreto, mas de linha dura, Mojtaba Khamenei é uma escolha pela
"continuidade"
“O nome de Khamenei vai continuar”. A promessa, proferida na
tarde deste domingo por um dos membros que compõem a assembleia responsável por
eleger o novo líder do Irão, foi rapidamente interpretada como o sinal de que o
segundo filho do aiatola morto no primeiro dia do conflito com os EUA e Israel
seria confirmado como seu sucessor. Mas o anúncio formal só chegaria várias
horas depois: Mojtaba Khamenei, que foi por estes dias descrito pelo presidente norte-americano como uma escolha
“inaceitável”, foi nomeado novo líder supremo.
O sucessor do aiatola Ali Khamenei foi escolhido pela
Assembleia de Peritos, órgão composto por 88 elementos. Foi um “voto decisivo”,
sublinhou a assembleia no anúncio desta noite, apelando para que todos os
cidadãos do país, “especialmente as elites e os intelectuais dos seminários e
universidades”, jurem lealdade à nova liderança e a salvaguardem a unidade num
momento crítico para o Irão.
O filho de Khamenei vai assumir o comando da autoridade
religiosa e política do Irão e também das suas forças armadas, uma decisão que
não será bem vista pelos Estados Unidos e Israel. Esse foi um fator que pesou
na decisão, explicou o aiatola Mohsen Heidari Alekasir num vídeo publicado este
domingo. Segundo o membro da Assembleia dos Peritos, o candidato foi
escolhido com base na orientação de Khamenei de que o líder máximo do Irão
devia ser “odiado pelo inimigo”. “Até o Grande Satã [os EUA]
mencionou o nome dele”, destacou Alekasir.
Mojtaba Khamenei será apenas o terceiro líder supremo do
Irão. O primeiro, depois da revolução islâmica de 1979, foi o aiatola Ruhollah
Khomeini, e o segundo o pai de Mojtaba, Ali Khamenei.
De perfil discreto, mas de linha dura, Mojtaba Khamenei
é uma escolha pela “continuidade”
Aos 56 anos, Mojtaba Khamenei nunca tinha sido eleito ou
escolhido para uma posição de governação no regime iraniano. Isso mudou. Agora
o segundo filho de Khamenei prepara-se para ascender ao cargo de maior
importância no Irão. Pouco se conhece sobre Khamenei, uma figura influente mas
que se mantém nas sombras do poder. “É uma espécie de mistério até mesmo dentro
do Irão”, descrevia este domingo o The New York Times. No mesmo sentido,
a Al Jazeera aludia ao seu “perfil discreto”: “Não profere palestras
públicas, sermões de sexta-feira ou discursos políticos, a ponto de muitos
iranianos nunca terem ouvido a sua voz, apesar de saberem há anos que ele era
uma estrela em ascensão dentro do establishment teocrático”.
O recém eleito líder supremo iraniano nasceu em 1969 em
Mashhad, a segunda maior cidade do Irão e lugar de grandes peregrinações,
relata a imprensa internacional. Cresceu num ambiente marcado pela visão
política e religiosa que emergiu da revolução de 1979, que derrubou o regime do
Xá Mohammad Reza Pahlavi, e estudou teologia nos seminários de Qom, centro
iraniano de estudos teológicos xiitas.
Mojtaba Khamenei serviu nas fileiras do Corpo da Guarda
Revolucionária Islâmica do Irão (IRGC, em inglês), integrando o batalhão Habib.
As relações com esta força mantêm-se até aos dias de hoje, aponta a Al
Jazeera, que escreve que vários dos seus camaradas prosseguiram nesta força
e chegaram a cargos de destaque. A IRGC foi, aliás, um dos primeiros setores do
regime a comprometer-se com Khamenei. Em comunicado, esta força disse que o
recém eleito líder é “um novo amanhecer e uma nova fase da revolução e do
governo da República Islâmica”. Já o secretário do Conselho Supremo de
Segurança Nacional do Irão, Ali Larijani, sublinhou que será capaz de guiar o
país num “período delicado”.
Em 2019, Khamenei foi sancionado pelo departamento de
Tesouro dos EUA por “representar o líder supremo do Irão numa capacidade
oficial, apesar de nunca ter sido eleito ou escolhido para uma posição no governo
além do trabalho no gabinete do pai”. “O Líder Supremo delegou parte das suas
responsabilidades de liderança a Mojataba Khamenei, que trabalhou em estreita
colaboração com o comandante da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária
Islâmica e também com a Força de Resistência Basij para promover as ambições
regionais desestabilizadoras e os objetivos opressivos internos do pai”,
destacou na altura o organismo.
Mojtaba Khamenei está a ser descrito como uma escolha pela
“continuidade” do regime, apesar de a manutenção do poder na família nunca ter
sido desejado pelo pai. Ali Khamenei terá mesmo dito aos conselheiros mais
próximos que não queria que o filho fosse o seu sucessor, para evitar criar uma
dinastia como a que foi derrubada em 1979, disseram ao NYT três fontes seniores
iranianas com conhecimento sobre o processo de seleção.
A esse propósito, Karim Sadjadpour, investigador do Carnegie
Endowment for International Peace, partilhou na rede social X as posições de
Ali Khamenei sobre a sucessão hereditária. “O Islão declara a monarquia e a
sucessão hereditária erradas e inválidas”, diz a frase atribuída a Khamenei.
Apesar deste ponto, Mojtaba Khamenei era apontado desde a
morte do pai como um dos sucessores mais prováveis. “Mojtaba é a escolha mais
sensata neste momento porque está intimamente familiarizado com a gestão e
coordenação do aparato de segurança e militar”, sublinhou o analista Mehdi
Rahmati, de Teerão, em entrevista ao jornal norte-americano. “Ele já estava no
comando”. “Também está mais preparado do que outros candidatos para rapidamente
consolidar o poder”, disse por sua vez Vali R. Nasr, especialista no Irão e
xiismo na Universidade de Johns Hopkins.
“Tem uma base de apoio sólida dentro da Guarda
Revolucionária Islâmica (IRGC), em particular entre as gerações mais jovens e
radicais”, disse à agência Reuters Kasra Aarabi, diretor do núcleo de pesquisa
sobre a Guarda Revolucionária do Irão na organização norte-americana United
Against Nuclear Iran. “Mojtaba é ainda pior e
mais linha-dura que o seu pai”, apontou o ex-diplomata
norte-americano Alan Eyre. O especialista no Irão notou que era o candidato
favorito da Guarda Revolucionária e que terá “muitas vinganças para executar”.
Apesar do nível de preparação e do apoio das IRGC, as
credenciais de Mojtaba Khamenei para assumir a liderança também têm sido postas
em causa. O motivo? O filho de Ali Khamenei possui apenas o título
‘hojatoleslam’, ou seja, é um clérigo de nível médio e não um aiatola, título
concedido aos clérigos do alto escalão xiita. Ainda assim, nota a Al Jazeera,
o pai também não era aiatola quando se tornou líder supremo do Irão em 1989 e a
lei foi acomodada para permitir a sua nomeação.
EUA tinham dito que filho de Khamenei era escolha
“inaceitável”, Israel prometeu perseguir qualquer sucessor
Mojtaba Khamenei vai assumir o controlo do Irão numa altura
em que o conflito com os Estados Unidos da América e Israel parece não ter fim
à vista. Os ataques lançados pelos dois países provocaram
não só a morte do pai de Khamenei, mas também da mãe, da irmã e da mulher.
Israel terá tentado atingir Mojtaba num ataque na semana passada, disse à CNN
uma fonte israelita. No entanto, as autoridades de Telavive acreditam que
apenas ficou ferido.
Os EUA assumiram o desejo de estar envolvidos na escolha do
novo líder supremo do Irão e deixaram claro ao longo da última semana que não
consideravam Mojtaba Khamenei uma escolha apropriada. O presidente Donald
Trump, que ainda não se pronunciou sobre o anúncio, tinha dito na quinta-feira
ao Axios que Khamenei era uma escolha “inaceitável” e que queria “alguém que
trouxesse harmonia e paz ao Irão”. Este domingo já tinha avisado que o sucessor
não iria durar muito sem o aval de Washington.
“Supomos que ele vai dar continuidade ao legado do pai, ou
seja, vai ser um clérigo ideológico de linha dura”, reagiu à CNN o ex-diretor
da CIA David Petraeus.
As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês), por sua vez, garantiram no domingo que “o longo braço do Estado de Israel continuará a perseguir todos os sucessores [do aiatola] e todas as pessoas que procuram nomear um sucessor”.
Quanto à reação no Irão, ao longo da noite a televisão
estatal, controlada pelo regime, transmitiu a imagem de grandes multidões a
celebrar a nomeação do novo líder em vários pontos do país. No entanto, na
capital era possível ouvir os opositores a gritar “morte a Mojtaba” a partir de
janelas e telhados, relataram por mensagem ao NYT moradores em Teerão.

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