Governo argentino de Milei celebra fim de políticas de igualdade de género no Dia da Mulher
O presidente
argentino extinguiu a agência de proteção dos direitos das mulheres, eliminou
apoios de emergência a vítimas de violência de género e limitou o acesso ao
aborto legal no país. Os feminicídios também aumentaram na Argentina
O governo argentino, liderado por Javier Milei, celebrou
este domingo, Dia Internacional da Mulher, o desmantelamento de várias
políticas de igualdade de género criadas por executivos anteriores.
"Neste 8 de março, comemoramos o Dia Internacional da
Mulher lembrando que, durante anos, uma nobre causa foi usada para sustentar
estruturas políticas multimilionárias, impor
agendas ideológicas absurdas e
dividir os argentinos. Esse modelo acabou", afirmou a conta oficial do
Palácio Presidencial argentino, na rede social X (ex-Twitter).
Desde dezembro de 2023 que o governo liderado por Milei tem
vindo a desmantelar instituições, programas e regulamentos criados para
garantir e proteger os direitos de mulheres e pessoas da comunidade LGBTI+. Com
o fim da Subsecretaria de Estado de Proteção contra a Violência de Género, extinta
em junho de 2024, do ministério da Mulher, Género e Diversidade, o Estado
argentino deixou de ter, pela primeira vez em 37 anos, uma agência nacional
especializada na promoção dos direitos das mulheres.
Segundo a Amnistia Internacional, o orçamento para os
principais programas de prevenção e combate à violência de género foi reduzido
em 89% desde 2023.
Treze programas estatais também foram eliminados, incluindo
aqueles que ofereciam apoio de emergência em casos de violência de género
extrema e um mecanismo criado para garantir o acesso à justiça, que entre julho
de 2023 e fevereiro de 2024 prestou apoio jurídico e psicossocial a 59 032
mulheres e pessoas com identidades de género diversas, notou a agência de
notícias espanhola Efe.
A Amnistia Internacional também alertou para as crescentes
barreiras enfrentadas por pessoas na Argentina para poderem abortar.
Em 2025, aquela organização recebeu três vezes mais
denúncias sobre obstáculos ao acesso ao aborto do que em todo o ano de 2024.
Naquele ano, a Efe dava nota de várias organizações
feministas argentinas alertavam que a violência de género no país estava
imparável, com casos de vários feminicídios. Em 2025, o país foi marcado por um
triplo feminicídio de Brenda del Castillo, de 20
anos, Morena Verdi, de 20 anos, e Lara Gutiérrez, de 15 anos,
torturadas e assassinadas em setembro. 1
A ministra da Administração Interna argentina, Patricia
Bullrich, chegou a salientar uma suposta diminuição de feminicídios, mas entre
janeiro e 20 de novembro de 2025, tinham sido registados 228 homicídios de
mulheres, quando em 2024, no mesmo período, tinham sido registados 212, segundo
a organização Mulheres da Pátria Latino-Americana (Mumalá).
Expresso, 8 de março de 2026
1. Vida marginal na Argentina: o contexto do triplo feminicídio
Uma
trama que mistura tráfico de droga, consumo, prostituição e abandono. A
psicologia das jovens assassinadas
Morena Verri (20), Brenda Del Castillo (20) e Lara Morena
Gutiérrez (15) desapareceram na sexta-feira, 19 de setembro, quando entraram
numa carrinha branca na rotunda de La Tablada, em La Matanza. Cinco dias
depois, na madrugada de quarta-feira, dia 24, os seus corpos foram encontrados
enterrados no jardim de uma casa em Villa Vatteone, Florencio Varela, com
sinais de extrema tortura e mutilação. Lara teve os cinco dedos de uma das mãos
cortados e uma orelha amputada; Brenda apresentava múltiplos ferimentos de arma
branca e um golpe devastador na cabeça; e Morena foi brutalmente espancada,
sofrendo uma fratura cervical.
Um assassinato brutal como poucos já vistos. As vítimas são
vítimas, mas compreender a sua psicologia ajuda-nos a compreender um fenómeno
cada vez mais preocupante: como o narcotráfico ganhou terreno na Argentina ao
cooptar jovens vulneráveis.
Adolescentes. Brenda
Loreley Del Castillo vivia em
Ciudad Evita com a mãe e os irmãos e, como mãe de um bebé, tentava sustentar a
família com empregos formais numa banca de jornais e vendendo online, embora as
pessoas próximas admitam que por vezes precisava de recorrer a biscates
informais para conseguir pagar as contas. O seu advogado, Javier Baños, disse
ao NOTICIAS que ainda não conseguiram traçar um perfil claro: “Não sei
se ‘trabalhavam juntas’, não tenho essa informação. Em relação à festa,
percebi, pelo que ouvi, que lhes ofereceram 300 dólares cada uma para atuarem
como uma espécie de ‘apresentação’, mas nada de concreto. São apenas rumores.
Ao longo dos dias, descobrimos o que lhes aconteceu, mas compreendo que Brenda
estava no sítio errado à hora errada”. Em relação ao filho de Brenda, Lucca, de
apenas um ano, Baños confirma que está sob os cuidados da sua família direta e
acrescenta: “Os pais de Brenda estão muito abalados. São pessoas humildes. Não
investigamos os seus meios de subsistência ou estilo de vida. Estamos a
concentrar a nossa atenção na investigação. Este é um caso de grande impacto
que afeta toda a sociedade argentina. O que aconteceu é uma abominação. Se esta
situação não nos mobilizar enquanto sociedade, acredito que estamos perdidos”.
Morena, prima de
Brenda, partilhava com ela aspirações, necessidades e laços. Horas antes do
desaparecimento, publicou uma fotografia nas redes sociais dentro da carrinha,
mostrando objetos relacionados com o “Baby Yoda” e o “Luigi”. Estas pequenas
figuras eram, na verdade, aparelhos para o consumo de “Tusi”, a droga que
supostamente usavam quando saíam juntas. Já Lara,
a mais efervescente e dramática das três, tinha apenas 15 anos e vivia com a
avó. Segundo os seus vizinhos, era meiga e tímida, completamente o oposto da
imagem que projetava nas redes sociais e de como se apresentava à noite.
Registo televisivo. Semanas antes do crime, Lara
participou num segmento em direto no programa de Sergio Lapegüe, na estação
América TV, apresentando-se como "Luna" e afirmando ter 20 anos.
Nessa reportagem, confessou trabalhar como prostituta: "Se pagarem em
dólares, melhor ainda", disse. Denunciou
ainda os abusos que sofria enquanto trabalhava: "Estamos nuas, tiram
fotos... atiram-nos água quente". Esta aparição pública apenas
serviu para expor a dura realidade da sua vulnerabilidade.
Após a descoberta, foram divulgadas informações sobre o
relatório pericial de Lara, descrevendo mutilações horríveis. No entanto, a sua
mãe, Estela, refutou estas alegações, afirmando que não correspondiam aos
relatórios oficiais. Exigiu ainda que os média parassem de culpar as vítimas e
respeitassem a memória da sua filha menor de idade.
A hipótese mais divulgada
pela acusação é a de que Brenda tenha roubado um carregamento de
aproximadamente três quilos de cocaína pertencente ao gangue de
narcotráfico liderado por "Pequeño J", que foi detido na noite de
terça-feira, o que terá desencadeado o homicídio por vingança. Entretanto, a
presença da droga Tusi também faz parte da investigação, uma vez que as jovens
terão sido atraídas para uma festa com a promessa de diversão segura, uma
armadilha para o horror que as aguardava.
Nessa noite, entraram na carrinha com matrícula falsificada
em Bajo Flores, viajaram por La Matanza e chegaram a Florencio Varela, onde
foram torturadas. Parte da tortura foi
transmitida em direto num chat privado do Instagram antes de serem assassinadas
e enterradas.
Presunção de culpa. O caso levou à detenção de pelo
menos nove pessoas. Entre os acusados estão Magalí Celeste González Guerrero,
Andrés Maximiliano Parra, Iara Daniela Ibarra e Miguel Ángel Villanueva Silva
(todos transferidos para o estabelecimento prisional de Melchor Romero); Víctor
Sotacuro Lázaro (alegado motorista, detido na Bolívia); Ariel Giménez,
identificado como quem cavou a sepultura; Florencia Ibáñez, sobrinha de
Sotacuro, que esteve presente nessa noite; Matías Agustín Ozorio, cúmplice do
chefe do grupo, preso no Peru; e Tony Janzen Valverde Victoriano, vulgo
“Pequeño J”, identificado como o mentor intelectual, também no Peru. Os
procuradores acusaram-nos de homicídio qualificado com premeditação, traição,
crueldade e violência de género, além de crimes conexos, como obstrução à
justiça.
“Acho impressionante a rapidez com que foram feitas todas as
detenções”, disse ao NOTICIAS um conhecido advogado criminalista que
aparece frequentemente na televisão, mas não representa nenhum dos envolvidos
no crime. “Encontraram o chefe do gangue, o seu braço direito, quem cavou a
cova, quem limpou o local do crime e até todos os telemóveis (que deveriam ter
sido examinados na sexta-feira, dia 3). Dizem até que têm o vídeo da
transmissão em direto. Parece algo que a polícia americana faria. Embora seja
um crime abominável que vai além do que sabemos, este
nível de eficiência parece-me suspeito. Ou querem encerrar o caso
porque alguém importante admitiu que os polícias de escalão inferior perderam o
controlo e entregaram toda a gente; ou, antes das eleições, os partidos
políticos vão começar a lutar para ver quem fica com o crédito por resolver o
caso”, considera.
Este triplo femicídio revela um enredo sombrio e
tragicamente enraizado no país: desigualdade estrutural, exploração e tráfico
de droga. Três jovens mulheres enganadas, torturadas, assassinadas e
enterradas. Agora a sociedade exige verdade e justiça.
Fonte: NOTICIAS, 11 de outubro de 2025


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