O que aconteceu a Vítor Jorge? A trajetória do homem por trás do massacre do Osso da Baleia

O.P.J. Pacifique Sud (2019) - Lou Vogin

A história de um dos crimes mais impactantes de Portugal não começou na Praia do Osso da Baleia, mas sim décadas antes, num ambiente de violência, desamor e traumas profundos que moldaram a mente do homem que viria a ser conhecido como o 'Mata-Sete'

Vítor Jorge nasceu num ambiente de profunda negligência e hostilidade. Filho de uma prostituta que trabalhava em Lisboa, foi deixado aos cuidados dos avós na Amieira, Marinha Grande. A sua infância foi marcada pelo "aprendizado do desamor", vivendo entre as discussões constantes e agressões físicas dos avós, além de lidar com o estigma de ser chamado de "filho da puta" pelos colegas de escola.

"A mãe, Maria da Piedade, passa a vida em Lisboa. Poucas são as vezes que regressa à casa dos pais para ver Vítor. Na escola e na aldeia, os outros meninos não brincam com ele. Dizem que é o filho da puta. Mas há um dia em que Maria da Piedade vai buscar o filho e leva-o para uma nova vida completamente diferente. Acabam-se as idas à missa ou à catequese, Vítor deixa de viver numa casa e passa a dividir um quarto com a mãe. O mesmo quarto onde todas as noites esta recebe os clientes."

Um dos episódios mais traumáticos ocorreu quando Vítor tinha apenas seis anos. No quarto dos avós, ele testemunhou o próprio tio, embriagado, lançar-se sobre as filhas bebés gémeas que dormiam, sufocando-as até à morte. Este contacto precoce e brutal com a violência doméstica e o infanticídio marcou indelevelmente a sua psique, estabelecendo um padrão de horror que o acompanharia até à idade adulta.

"Aquele rapazito está ali, no quarto dos avós, a olhar para as duas primas que dormem tranquilamente. Este é um daqueles dias em que o tio aparece, está outra vez embriagado. Aproxima-se da cama onde as bebés dormem e lança-se para cima das suas duas filhas. Sufoca-as com o corpo. Esmaga-as e rebenta aquelas duas bebés. Mata-as. E aquele rapaz continua ali de pé a ver tudo isto acontecer. Este é o momento que o vai marcar para sempre. Aos seis anos, este não é o primeiro nem será o seu último encontro com a violência."

Na adolescência, a mudança para Lisboa com a mãe não trouxe estabilidade. Vítor partilhava o mesmo quarto onde a mãe recebia clientes, sendo forçado a coexistir com a atividade sexual comercial dela. Esta exposição constante ao sexo visto como algo "sujo" ou transacional gerou nele uma obsessão semirreligiosa pelo pecado e pela pureza, sentimentos que mais tarde direcionaria de forma trágica para a sua própria família.

Ao constituir família com Carminda, Vítor replicou, de certa forma, o ambiente de tensão. Embora aos olhos dos vizinhos parecessem uma família integrada, as paredes de casa escondiam agressões e um controlo obsessivo. O crescimento das filhas, Anabela e Sandra, e o despertar da sexualidade destas, tornou-se um gatilho para Vítor, que via nelas o "pasto dos prazeres do mundo" e sentia a necessidade doentia de as "salvar" através da morte.

Na madrugada de 1 de março de 1987, o delírio de Vítor materializou-se num massacre. Matou cinco jovens na Praia do Osso da Baleia e, posteriormente, a sua mulher e a filha mais velha num pinhal. Nos seus escritos, revelou uma frieza assustadora: poupou o filho varão para "perpetuar a semente do mal", enquanto justificava o assassinato da esposa por esta não ser virgem quando casaram.

"Tinha lá até um papel que foi escrito antes dos crimes, como é óbvio, em que dizia, mato a minha mulher porque não era virgem quando nos casámos, mato as minhas filhas para não serem pasto dos prazeres do mundo e deixo viver o meu filho para perpetuar a semente do mal. Ao contrário de muitos outros crimes, este tem uma particularidade. Embora já não seja possível falar com Vítor Jorge, conseguimos saber o que se passava na sua cabeça no momento em que matou."

Após o crime, Vítor escondeu-se num palheiro, onde foi eventualmente capturado num estado de extrema debilidade física. O julgamento foi um marco mediático em Portugal. Apesar da tentativa da defesa em alegar inimputabilidade, Vítor foi condenado a 20 anos de prisão efetiva no estabelecimento prisional de Coimbra, onde cumpriu a pena de forma exemplar, chegando mesmo a desempenhar funções na capela da prisão.

Em 2001, após sair em liberdade condicional, Vítor Jorge procurou o anonimato em França e, mais tarde, na Córsega. Viveu uma vida "apagada", trabalhando em limpezas e tentando fugir do estigma de "Mata-Sete". O ciclo de violência terminou há cerca de sete anos quando, num último ato solitário e sem deixar explicações escritas, tirou a própria vida com recurso a comprimidos.

Fonte: SIC, 10 de março de 2026

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