Soldados-robôs já foram enviados para a Ucrânia
Empresa
norte-americana Foundation testa o modelo humanoide Phantom MK-1 em cenários
reais de combate, no que será um passo decisivo para a automatização da guerra
O teatro de batalha da guerra na Ucrânia, que já dura há
cinco anos, deixou de pertencer exclusivamente aos humanos. Como noticia esta
semana a revista Time, a empresa de tecnologia de defesa Foundation,
baseada em São Francisco, já enviou dois dos seus robôs humanoides, os Phantom
MK-1, para território ucraniano.
Envolto em aço preto e com um visor de vidro fumado que
esconde cinco câmaras que captam informação para a IA que o comanda, este robô foi desenhado para interagir com o mundo
exatamente como um soldado humano. É capaz de manusear pistolas,
espingardas e até espingardas de assalto M-16.
Mike LeBlanc, cofundador da Foundation e veterano do Corpo
de Fuzileiros Navais dos EUA (Marines) com experiência no Iraque e Afeganistão,
defende a iniciativa com um "imperativo moral".
Segundo LeBlanc, colocar robôs em combate em vez de jovens
recrutas reduz não só a perda de vidas humanas, mas
também os crimes de guerra induzidos pelo stress e pelo trauma do combate.
Ucrânia como laboratório
Na Ucrânia, onde o conflito se transformou numa guerra de
robôs — com o lançamento de cerca de 9000 drones por dia — o Phantom MK-1 está
a ser testado em missões de reconhecimento e apoio, escreve a revista
norte-americana.
LeBlanc descreve a situação atual como algo já muito
automatizado: "É uma guerra robótica completa, onde o robô é o combatente
principal e os humanos são o apoio."
A
versatilidade deste humanoide permite-lhe entrar em bunkers baixos, transportar
mantimentos e operar armamento existente sem necessidade de adaptações
dispendiosas. Além disso, o seu rasto de calor, semelhante ao de um ser humano,
pode ser utilizado para confundir os sistemas de vigilância inimigos.
Conexão com Donald Trump
A ascensão da Foundation não é apenas tecnológica, é também
política. A Time revela que um dos filhos
do atual presidente dos EUA Eric Trump é um dos investidores da empresa
e foi mesmo nomeado diretor de estratégia da empresa há pouco tempo.
Este apoio coincide com uma mudança de postura em
Washington: a administração Trump tem vindo a reduzir as proteções e
regulamentações sobre a Inteligência Artificial, revogando ordens executivas
que visavam mitigar riscos de segurança nacional e ética.
O "declive escorregadio" ético
Nem todos partilham do entusiasmo da Foundation.
Especialistas em direitos humanos e ética, como Bonnie Docherty da Harvard Law
School, alertam para as consequências de delegar decisões de vida ou morte a
algoritmos. O risco de "alucinações" — erros de processamento comuns
em modelos de linguagem — em sistemas de armas letais é uma preocupação real.
Há ainda o argumento de que a guerra robótica pode baixar as
barreiras políticas para o início de novos conflitos. Sem o custo político de trazer soldados em caixões
cobertos com a bandeira nacional, os governos poderão sentir-se mais tentados a
envolver-se em confrontos armados desnecessários.
Em contraponto, Sankaet Pathak, CEO da Foundation, afirma
que a corrida armamentista por soldados humanoides já começou e que adversários
como a Rússia e a China estão a desenvolver tecnologias semelhantes, pelo que
seria uma desvantagem crítica se os EUA não investissem neste tipo de
tecnologia.
LeBlanc antevê um futuro onde
as guerras se tornam "batalhas de droids", transformando o conflito
sangrento numa disputa puramente económica de recursos tecnológicos.
Resultado: enquanto as Nações Unidas e a Cruz Vermelha
tentam estabelecer tratados para proibir sistemas autónomos que funcionem sem
controlo humano significativo, o Phantom MK-1 já caminha pelo solo ucraniano,
assinalando o início de uma era onde o "fator humano" pode ser, no
limite, retirado da equação do combate.

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