Teoria do "macaco bêbedo": chimpanzés do Uganda consomem álcool natural de frutos fermentados
O.P.J.
Pacifique Sud (2019) - Nathan Dellemme, Marie Payet
Estudo
realizado no sítio de Ngogo, Parque Nacional de Kibale, revela que primatas
evoluíram consumindo álcool de frutos fermentados durante milhões de anos
Na floresta do Uganda, o álcool não vem em garrafas, mas das
árvores. Uma equipa de investigadores que trabalham no Parque Nacional de
Kibale descobriu que há etanol suficiente nos frutos fermentados para deixar
marca no organismo dos chimpanzés.
Os investigadores que trabalharam no sítio de Ngogo, no
Parque Nacional de Kibale, analisaram 20 amostras de urina de 19 chimpanzés e
encontraram, na maioria, etilglucuronídeo, um produto da metabolização do
álcool. O estudo foi publicado na revista Biology Letters, da Royal
Society.
Este composto é utilizado em humanos como prova de consumo
recente de álcool. Nos chimpanzés, não significa que andem “embriagados” pela floresta, mas
confirma que o organismo metaboliza o etanol ingerido.
A teoria do “macaco bêbedo”
A teoria do “macaco bêbedo” propõe que os primatas,
incluindo os antepassados humanos, terão convivido durante milhões de anos com
pequenas doses de álcool presentes em frutos demasiado maduros ou já em
fermentação.
Em vez de ser um acidente evolutivo, essa exposição repetida
poderia ter favorecido adaptações metabólicas e, talvez, até alguma atração por
frutos com sinais de fermentação, que muitas vezes indicam maior concentração
de açúcares e energia.
Como não é possível analisar o que comiam os nossos
antepassados há seis milhões de anos, os
investigadores optaram por observar os parentes vivos mais próximos.
“Estudamos os chimpanzés e os frutos que consomem hoje,
porque não podemos estudar os frutos do passado”, explicou à Reuters Aleksey
Maro, estudante de doutoramento na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Quanto é “uma bebida” para um chimpanzé?
A fonte mais provável do etanol é a fruta fermentada. As
leveduras transformam os açúcares naturais em álcool à medida que o fruto
amadurece.
Num trabalho anterior, a mesma equipa estimou que,
dependendo da espécie e da quantidade ingerida, um chimpanzé poderia consumir
numa única sessão o equivalente aproximado a uma bebida alcoólica humana. Num
dos cálculos, seriam necessários cerca de 72 frutos de Ficus mucuso para
atingir esse valor.
A questão que falta responder
Uma das perguntas que continua em aberto é se os chimpanzés
escolhem ativamente frutos com maior teor de etanol quando têm alternativa.
"A peça que falta é, obviamente, a preferência. Será
que os chimpanzés conseguem utilizar o etanol e a fermentação para, de alguma
forma, inferir algo sobre o estado dos frutos e tomar decisões mais vantajosas
em termos de procura de alimentos, conseguindo assim sobreviver melhor do que
os macacos que não o fazem? E essa seria uma das grandes questões evolutivas
que o "macaco bêbedo" ainda está à espera de ver resolvida",
disse Aleksey Maro.
Para os investigadores, perceber se os primatas utilizam o
odor ou o sabor da fermentação como indicador sobre o valor energético do
alimento. E poderá ajudar a explicar porque é que a capacidade de metabolizar
álcool se mantém ao longo da evolução dos primatas, incluindo a nossa.
Fonte: SIC Notícias, 7 de março
de 2026

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