Trump cortou o petróleo a Cuba. A China está a investir em energia solar na ilha
Cada
vez mais encurralada e sem canais para receber combustíveis fósseis, Cuba
entrega-se de bom grado às ofertas chinesas de investimento na energia
fotovoltaica
A China está a ajudar Cuba na corrida para produzir energia
solar enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio petrolífero à ilha das
Caraíbas, criando a sua pior crise energética em décadas — ainda nesta semana,
a ilha sofreu um apagão elétrico total.
A Administração Trump afastou-se dos compromissos climáticos
assumidos pelos EUA e está a reinvestir em combustíveis fósseis. Já a China,
está a aproveitar o domínio que tem no mercado das tecnologias de energias
renováveis, e usa ofertas de equipamento, conhecimentos e financiamento como
alavancas geopolíticas.
Pequim aumentou a assistência energética a Havana nos
últimos anos, no âmbito de uma relação de segurança cada vez mais profunda, que
alegadamente inclui estações de espionagem em
Cuba que podem recolher informações sobre os Estados Unidos e os
países vizinhos.
Esse apoio energético está agora a suscitar um interesse
acrescido, numa altura em que o presidente Donald Trump aumenta a pressão sobre
o governo cubano para iniciar negociações, cortando o fornecimento de petróleo
e ameaçando invadir Cuba.
"Acredito que vou ter a honra de ficar com Cuba",
disse Trump na segunda-feira.
Questionado sobre se isso significaria diplomacia ou ação militar, o presidente
norte-americano disse: "Ficar com Cuba de alguma forma... Quer a liberte, quer a
conquiste, penso que posso fazer o que quiser com ela, se querem saber a
verdade. Neste momento, é uma nação muito enfraquecida."
Depois de o Exército dos EUA ter capturado o presidente
venezuelano Nicolás Maduro, e de ter sido morto o líder supremo do Irão, o
ayatollah Ali Khamenei, bem como vários outros líderes do regime iraniano, as
ameaças de Trump deixaram de parecer retórica vazia.
As Nações Unidas alertaram para o facto de Cuba, um país com
11 milhões de habitantes, estar já à beira de um colapso humanitário. Além
disso, o país enfrentou uma grave crise energética, com apagões intermitentes
que perturbaram operações críticas. Na segunda-feira, o ministério da Energia
de Cuba comunicou um "corte total" do sistema elétrico nacional.
China contra a "interferência"
O porta-voz da Embaixada da China em Washington afirmou, em fevereiro,
que a cooperação energética com Cuba tinha alcançado "resultados
frutuosos" e que iria continuar. "Opomo-nos à interferência
injustificada de forças externas e rejeitamos quaisquer ações que privem o povo
cubano do seu direito à subsistência e ao desenvolvimento", afirmou o
porta-voz Liu Pengyu, em declarações ao The Washington Post.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da China falou com o
seu homólogo cubano na semana passada, dias depois de Trump ter dito que a ilha
estava em "grandes dificuldades".
O investimento que a China faz há décadas nas tecnologias de
energias renováveis está agora a ajudar a proteger Pequim da crescente crise do
petróleo e do gás, estimulada pela guerra de Trump contra o Irão. Mas mesmo
antes de os preços do petróleo e do gás terem disparado em flecha este mês, a
China já estava a exercer o seu domínio, e Cuba é um dos locais onde isso é
mais evidente.
/117 milhões de dólares foi o valor das exportações
chinesas de equipamentos fotovoltaicos para Cuba em 2025, quando dois anos
antes era apenas de cinco milhões/
As exportações chinesas de equipamentos fotovoltaicos para
Cuba dispararam de cerca de cinco milhões de dólares, em 2023, para 117 milhões
de dólares em 2025, e não mostram sinais de parar, de acordo com o grupo de
reflexão britânico sobre energia Ember.
Rápida expansão
No ano passado, Pequim comprometeu-se a ajudar Cuba a
construir mais de 92 parques solares até 2028, e, segundo as autoridades, mais
de metade desses projetos já estão em funcionamento.
Imagens de satélite de 2025 mostram aglomerados de painéis
solares a surgir numa questão de semanas. Já neste mês, o governo cubano anunciou que a ilha tinha gerado, pela
primeira vez, mais de 900 megawatts de energia fotovoltaica num segmento de
meio dia.
Dado que as necessidades energéticas de Cuba são
comparativamente baixas, mesmo uma pequena quantidade de energia adicional deu
um contributo significativo. De acordo com Dave Jones, analista da Ember, a
energia solar pode agora ser responsável por 10% da produção de eletricidade em
Cuba, contra quase nada há um ano.
Essa seria uma das expansões mais rápidas da energia solar
de sempre, disse Jones, e poria Cuba à frente da maioria dos países — incluindo
os EUA — na parcela de eletricidade gerada pela energia solar.
"Cuba", disse Jones, "está talvez a meio de
uma das mais rápidas revoluções solares". As autoridades chinesas deixaram
claro que tencionam replicar o que estão a fazer em Cuba noutros locais.
A recente volatilidade no abastecimento de combustíveis
fósseis ajudará a sua causa, dizem os analistas. "A dependência dos
combustíveis fósseis está a destruir a segurança e a soberania nacionais e a
substituí-las por subserviência e custos crescentes", avisou Simon Stiell,
secretário executivo da convenção sobre alterações climáticas das Nações
Unidas, em declarações aos líderes europeus, em Bruxelas, na segunda-feira.
"A luz do sol não depende de estreitos marítimos
vulneráveis", declarou, em referência ao estreito de Ormuz. Uma das razões
pelas quais Cuba está a crescer tão rapidamente é que as empresas chinesas não
estão apenas a produzir e a exportar equipamento solar, mas também a facilitar
a instalação, com empresas chinesas a trabalhar diretamente em Cuba para
construir parques solares.
China "faz acontecer"
Isto é diferente de outros países que adotaram em massa a
tecnologia chinesa de energia limpa, como o Paquistão, onde os clientes têm
sido, em grande parte, famílias e empresas individuais que compram e instalam
painéis nos seus próprios telhados.
"A China não vai instalar uma série de pequenas
centrais solares em todo o mundo", disse Jones. "Por isso, o que
estamos a ver em Cuba é algo único."
/Cuba está talvez a meio de uma das mais rápidas
revoluções solares de sempre
Dave Jones/
Noutros locais, afirmou, as autorizações e os contratos
governamentais para esses projetos podem demorar meses ou anos. Em Cuba, as
empresas chinesas estão "a fazer acontecer".
No entanto, a energia solar não ainda está nem perto de
satisfazer as necessidades energéticas de Cuba. De acordo com os dados
oficiais, os combustíveis fósseis representavam 95% da matriz energética de
Cuba até ao início de 2024.
Trump afirmou que está
disposto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para levar o governo
comunista cubano, liderado pelo presidente Miguel Díaz-Canel, a fazer um acordo
que inclua várias concessões aos EUA.
O apoio da China "não vai fazer diferença
suficiente" contra essa campanha de pressão, disse Evan Ellis, professor
de Estudos Latino-Americanos no Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de
Guerra do Exército dos EUA.
Num discurso transmitido publicamente na semana passada,
Díaz-Canel reconheceu que o aumento drástico da capacidade solar não foi
suficiente para resolver a crise energética. "Mesmo com tudo o que estamos
a preparar, continuamos a precisar de petróleo", afirmou.
/92 parques solares foi quanto a China se comprometeu a
ajudar Cuba a construir até 2028. Mais d metade desses projetos já estão em
funcionamento, dizem as autoridades cubanas/
Segundo os investigadores, dado o clima tropical de Cuba e
as infraestruturas energéticas existentes, ainda há muito espaço para o
crescimento da energia solar. O governo cubano levantou neste mês os direitos
aduaneiros sobre as importações de energia solar, e introduziu novos incentivos
para que os particulares adotem a energia solar.
"Há um caminho fácil para Cuba continuar", disse
Jones. Aquilo de que Cuba precisa a seguir é de sistemas de baterias,
essenciais para armazenar a energia fotovoltaica para utilização durante a
noite, quando os défices são mais graves, explicou.
O armazenamento em grande escala em baterias é caro e pode
ser difícil de instalar. Mas a China está a correr para melhorar a tecnologia,
disse Jones, e os progressos nos últimos meses têm sido "incríveis".
"De acordo com os dados da Ember, as exportações chinesas de baterias no
ano passado atingiram um nível recorde.
Fonte: Público, 22 de março de 2026

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