Alireza, 11, morreu num posto de controlo. Irão usa crianças

Alireza Jafari morreu quando um drone israelita atingiu o posto de controlo da milícia Basij, onde estava com o pai. Testemunhas avistam crianças em funções militares e policiais em várias cidades

“Mãe, ou vencemos esta guerra ou tornamo-nos mártires. Se Deus quiser, venceremos, mas eu gostaria de me tornar um mártir”. As palavras, recordadas pela mãe, terão sido das últimas que Alireza Jafari, de 11 anos, disse antes de morrer, em meados de março, na sequência de um ataque israelita. Alireza estava num posto de controlo da milícia Basij, em Teerão, quando um drone israelita atingiu o posto, matando várias pessoas, incluindo Alireza e o pai. O caso ilustra uma realidade em crescendo no Irão: o recrutamento de crianças para funções militares e policiais.

No final de março, o Irão anunciou a redução para os 12 anos da idade mínima para voluntários que queiram integrar a Guarda Revolucionária — antes eram aceites jovens a partir dos 14 anos. Rahim Nadali, do Corpo Muhammad Rasulollah da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão, disse, citado pela BBC, que o novo programa de recrutamento, conhecido como Combatentes Defensores da Pátria do Irão, colocará crianças em várias funções, incluindo patrulhas e em serviço em postos de controlo. E a verdade é que a mobilização de crianças já é visível em várias cidades iranianas, disseram testemunhas à televisão pública britânica.

Quatro testemunhas oculares disseram ter visto crianças menores de 18 anos em postos de controlo em Teerão, na cidade vizinha de Karaj e na cidade de Rasht, no norte do país. Uma das testemunhas conta que, no dia 25 de março, viu um adolescente num posto de controlo no oeste de Teerão a revistar carros. “Ele estava a apontar uma arma para os carros. Ele e outros estavam a parar os carros e a revistá-los“, realçou a testemunha.

No entanto, o caso de Alireza Jafari é o que tem tido mais impacto mediático dentro e fora do Irão, não só devido ao desfecho trágico mas também à idade da criança — 11 anos. A mãe de Alireza Jafari, Sadaf Monfared, disse ao jornal municipal Hamshahri que tanto o filho como o marido estavam a ajudar nas patrulhas e nos postos de controlo da milícia voluntária Basij para “manter a segurança de Teerão e de seu povo”.

A milícia paramilitar Basij, controlada pela Guarda Revolucionária, tinha mais de um milhão de operacionais antes do início da guerra. É um instrumento central do Estado, sendo frequentemente utilizada para reprimir protestos e para controlar a população.

A mãe de Alireza disse que o marido lhe explicou que não havia pessoal suficiente no posto de controlo, com “apenas quatro pessoas” presentes e sublinhou que o marido decidiu levar Alireza porque este precisava de estar “preparado para os dias que viriam”.

Quando o Irão decidiu reduzir a idade de recrutamento para a milícia Basij, a Human Rights Watch (HRW) afirmou que se tratava de uma “grave violação dos direitos das crianças e um crime de guerra quando as crianças têm menos de 15 anos”. “Não há desculpa para uma campanha de recrutamento militar que visa crianças, muito menos crianças de 12 anos”, disse Bill Van Esveld, da HRW. “Em resumo, as autoridades iranianas aparentemente estão dispostas a arriscar a vida de crianças em troca de mão de obra extra”, criticou a ONG.

Fonte: Observador, 3 de abril de 2026

Com o bombardeamento propositado das escolas, tanto faz, do ponto de vista da fragmentação do corpo, estar na sala de aula ou no posto de controlo. Provavelmente, o liceu de Alireza foi bombardeado e o pai foi obrigado a levá-lo para o trabalho.

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