Documentos de Epstein lançam nova luz sobre as ações dos guardas prisionais na noite da sua morte

 

Nos anos que se seguiram à morte do financiador caído em desgraça Jeffrey Epstein, encontrado sem vida na sua cela a 10 de agosto de 2019 num caso classificado como suicídio, multiplicaram-se as teorias da conspiração sobre se o agressor sexual condenado terá mesmo tirado a própria vida.

Esta especulação deverá ganhar novo fôlego agora que Tova Noel, uma das guardas prisionais de serviço na noite da morte de Epstein, foi chamada a testemunhar perante a Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes. O seu depoimento estava marcado para quinta-feira, mas foi adiado devido a problemas de agenda.

Noel, uma veterana do Exército que começou a trabalhar na Unidade de Alojamento Especial do Centro Correcional Metropolitano de Nova Iorque no início de julho de 2019 (na mesma semana em que Epstein foi detido sob acusações federais de tráfico sexual e ali encarcerado), deveria ter feito rondas de verificação ao recluso a cada 30 minutos nessa noite, juntamente com o seu colega Michael Thomas.

A recente divulgação de milhões de documentos relacionados com Epstein, por parte do Departamento de Justiça norte-americano (DOJ), trouxe novos pormenores sobre as suas últimas horas e sobre o que os guardas prisionais faziam nessa altura. Contudo, pouco contribuíram para dissipar as teorias da conspiração em torno da natureza da sua morte.

As câmaras de segurança posicionadas perto da cela de Epstein na Unidade de Alojamento Especial não gravaram imagens nessa noite, em resultado de um problema crónico com o sistema de vigilância da instalação, detalhado num relatório do DOJ de 2023. Noel e Thomas foram também acusados de adormecerem durante o turno na hora da morte do detido.

Os materiais agora divulgados levantaram ainda mais questões, incluindo novos pormenores sobre depósitos em dinheiro feitos por Noel nos meses que rodearam a morte do multimilionário. Os documentos revelam também que a funcionária pesquisou no Google por "últimas notícias sobre Epstein na prisão" menos de uma hora antes de o corpo ser encontrado na cela, por volta das 6:30 da manhã.

Os ficheiros incluem ainda alegações de um recluso, que relatou que os funcionários da prisão estavam a destruir documentos relacionados com Epstein nos dias seguintes à sua morte.

Em 2019, tanto Noel como Thomas foram acusados de conspiração e falsificação de registos para indicar que tinham verificado a cela a cada 30 minutos, conforme exigido nessa noite.

Ambos foram despedidos, mas as acusações criminais federais acabaram por ser retiradas ao abrigo de um acordo de suspensão provisória do processo. Este acordo exigia a prestação de trabalho comunitário e a cooperação com uma revisão conduzida pelo inspetor-geral do Departamento de Justiça sobre as circunstâncias que envolveram a morte.

A CNN contactou os advogados de Noel e Thomas para obter reações.

O relatório do inspetor-geral, divulgado em 2023, aponta que metade das câmaras de segurança da prisão não funcionavam. Consequentemente, verificou-se uma falta significativa de imagens de vídeo para análise nas investigações do FBI e do Gabinete do Inspetor-Geral. Este detalhe tem alimentado a especulação de que Epstein (que mantinha contactos próximos com muitas pessoas influentes, incluindo membros da realeza, políticos e celebridades) poderia ter sido assassinado por alguém interessado em silenciá-lo.

Em 2021, foi anunciado que o Centro Correcional Metropolitano seria temporariamente encerrado para resolver problemas que há muito assolavam a instalação, nomeadamente falhas de segurança e infraestruturas em degradação. Até hoje, permanece fechado.

"Sem interesse" no suicídio

Epstein foi colocado sob vigilância apertada após os funcionários da prisão determinarem que este se tinha tentado matar a 23 de julho de 2019. Contudo, o que realmente ocorreu permanece incerto, uma vez que o suspeito acusou o seu companheiro de cela, Nicholas Tartaglione (um ex-polícia a braços com acusações de homicídio), de o tentar assassinar. Mais tarde, retratou-se. Nos dias que se seguiram, relatou a um psicólogo da prisão que Tartaglione não o tinha ameaçado e que não se lembrava do incidente, como indica um documento intitulado "Relatório Pós-Vigilância de Suicídio".

Um registo do incidente incluído nos ficheiros divulgados refere que Epstein foi encontrado "deitado em posição fetal no chão com uma espécie de laço artesanal à volta do pescoço".

O relatório psicológico indica que, a 24 de julho, um dia após a alegada tentativa de suicídio, Epstein garantiu o seguinte: "Não tenho qualquer interesse em matar-me".

Esta posição foi reiterada durante um novo exame no dia seguinte. O documento acrescenta que o recluso transmitiu ao psicólogo estar demasiado empenhado em lutar pelo seu caso na justiça, reforçando a ideia com uma garantia: "Tenho uma vida e quero voltar a vivê-la".

Pesquisas online sobre Epstein

Os registos apontam que Epstein foi encontrado inanimado na sua cela às 6:30 de 10 de agosto, após um aparente suicídio por enforcamento. Mas, menos de uma hora antes, Noel tinha pesquisado no Google por "últimas notícias sobre Epstein na prisão", como revela uma análise forense de 66 páginas aos computadores do Departamento de Prisões usados pela guarda e pelo seu colega. A pesquisa foi destacada pelos investigadores. A perícia revela ainda que a funcionária procurou também mobiliário e "descontos para forças de segurança".

Ao ser interrogada pelo Gabinete do Inspetor-Geral em 2021, Noel afirmou repetidamente não se recordar de ter pesquisado o nome de Epstein na internet, acrescentando que isso "não seria exato".

Descobriu-se igualmente que o detido tinha roupa e lençóis extra na cela e, aparentemente, enforcou-se com tiras de tecido laranja. Na declaração juramentada, Noel, que estava a fazer um turno duplo nesse dia, assegurou ter visto Epstein vivo pela última vez "algures depois das dez" da noite. Acrescentou que nunca distribuiu lençóis aos reclusos porque essa tarefa pertence ao turno anterior. Cada preso deveria ter apenas um conjunto, trocando o velho pelo novo sempre que houvesse necessidade de substituição.

A responsável explicou ainda aos investigadores não ter conhecimento de que as câmaras estavam avariadas enquanto esteve de serviço na noite da morte, não tendo também forma de monitorizar as imagens durante o turno.

Noel justificou que os guardas consideravam a entrega de papel higiénico e comida, ou a recolha de tabuleiros, como rondas de verificação, embora o rigoroso controlo a cada 30 minutos não tenha acontecido.

Perante as autoridades, a funcionária defendeu-se de forma perentória: "Nunca trabalhei na Unidade de Alojamento Especial nem fiz, na prática, rondas a cada 30 minutos".

Depósitos em numerário sob suspeita

Um dos documentos incluídos nos ficheiros detalha que, a 22 de novembro de 2019, o banco JP Morgan Chase forneceu um Relatório de Atividades Suspeitas ao FBI. O alerta visava 12 depósitos em numerário efetuados por Noel entre abril de 2018 (mais de um ano antes do encarceramento de Epstein) e julho de 2019. O valor mais elevado foi de 5 mil dólares, a 30 de julho de 2019, revelam os registos bancários que os investigadores federais solicitaram à instituição financeira.

A transcrição do interrogatório mostra que a funcionária não foi questionada sobre estes movimentos financeiros durante a entrevista de 2021. No entanto, os mesmos registos revelaram que Noel estava a pagar o leasing de um Land Rover Range Rover novo, avaliado em mais de 60 mil dólares.

Alegações de destruição de documentos

A 19 de agosto de 2019, menos de duas semanas depois de o agressor sexual ter sido encontrado morto, um funcionário do Centro Correcional Metropolitano enviou um e-mail ao FBI. Na mensagem, relatava que um recluso lhe tinha confidenciado que membros da Equipa de Pós-Ação do Departamento Federal de Prisões, encarregues de investigar o aparente suicídio, tinham estado a destruir "caixas de documentos" uns dias antes.

O texto descrevia que o preso afirmou ter recebido ordens para ajudar a triturar a papelada, o que levantou fortes suspeitas ao denunciante: "Acredito que esta conduta de destruição de documentos relacionados com o caso possa ser inadequada para uma equipa de investigação, pelo que talvez seja conveniente averiguar o motivo pelo qual os funcionários estavam a destruir os registos".

Durante uma entrevista com os investigadores semanas mais tarde, o funcionário prisional admitiu ter visto o recluso no portão traseiro da cadeia com "aproximadamente três grandes sacos de papel triturado", ressalvando que não presenciou pessoalmente qualquer destruição.

Ainda assim, o memorando do FBI sobre a audição nota que a testemunha achou "que havia mais documentos destruídos do que o habitual durante este incidente".

Em resposta ao e-mail inicial sobre a eliminação de ficheiros, os investigadores comentaram o caso entre si: "Podemos dar uma vista de olhos no contentor do lixo o mais rápido possível para ver se o papel ainda lá está? É possível que ainda não o tenham despejado".

Não há qualquer indicação de que o contentor do lixo tenha chegado a ser revistado.

Fonte: CNN Portugal, 3 de abril de 2026

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