Gato por Lebre
@celestelopezof é uma criação de Inteligência Artificial
Nada
mobiliza mais um eleitorado do que dizerem-lhe que está a mais. Que votou
“errado” e talvez devesse ser corrigido — no laboratório mais sofisticado do
regime: o da admissibilidade. A questão não é se o Chega tem lugar no Palácio
Ratton (é evidente que sim) mas o que fará quando lá se sentar
Há declarações que, querendo fechar portas, acabam por abrir
avenidas. As de Jorge Miranda sobre o Chega e o Tribunal Constitucional (TC)
pertencem a essa categoria curiosa: parecem ir contra André Ventura, mas são
alimento gourmet para o seu partido.
O professor de Direito, achando-se Dono & Senhor da
Democracia e da Constituição da República Portuguesa, declarou que o Chega não
tem direito a ter juízes no Tribunal Constitucional.
Nada mobiliza mais um eleitorado do que dizerem-lhe que está
a mais. Que votou “errado”. Que talvez devesse ser corrigido — não nas urnas,
mas no laboratório mais sofisticado do regime: o da admissibilidade.
É um clássico. E não é caso isolado. Também no PS têm
surgido discursos sobre a necessidade de proteger certas instituições de forças
consideradas “excessivas”, que é como quem diz: “estávamos tão bem habituados a
dividir isto a meias”. No fundo, PS e PSD entendem que a Nação é uma espécie de
sociedade por quotas ou uma coutada do centrão — com direito de preferência,
acabando por ampliar o capital político de quem querem conter.
Adiante. A questão não é tanto se o Chega tem lugar no
Palácio Ratton (é evidente que sim) mas mais o que vai fazer quando lá se
sentar.
É que se André Ventura tem mesmo 10% do antissistema que
jura a pés juntos possuir de sobra, entraria no TC para logo o mandar encerrar.
Será esse o seu caminho ou, entrando, vai fazer igual aos outros todos,
confirmando que finge ser contra o statu quo apenas para mais
rapidamente lhe pertencer?!
Afinal, o Palácio Ratton é
mais uma excrescência do regime, pejada de juízes pagos a peso de ouro! E que
gozam de uma pensão de milhares de euros (pelo menos 5 mil euros, fora ajudas
de custo), com apenas 12 anos de serviço (qualquer que seja a sua idade), ou se
já tiverem 40 anos de idade e reunirem dez anos de serviço para efeitos de
aposentação. Nem no paraíso a reforma deve ser tão dourada. André
Ventura, que tanto vocifera (e bem) contra estas obscenidades, vai propor um
novo elemento que abdique destas mordomias? Vai defender uma alteração?
Até porque o problema do TC não é apenas esse. É que aquilo
tem um nome enganador. Chama-se Tribunal Constitucional mas nem é Tribunal nem
é Constitucional.
Primeiro, a maioria dos seus membros nem sequer é juiz;
depois, viola desde o início a própria Constituição, o princípio da separação
de poderes. Afinal, esses “juízes” são escolhidos pelos partidos, ficando
reféns de quem os escolhe, sujeitando a avaliação da constitucionalidade a
lealdades partidárias, questões ideológicas, oportunismos políticos — e não a
questões jurídicas e técnicas.
Por fim, é a última instância da Justiça, que já não admite
recurso. De Tribunal tem pouco e de Constitucional nada.
Não passa de uma apetecível instituição, plena de
cargos-água-na-boca que, em vez de cumprir rigorosamente a sua missão, é palco
de assaltos ao poder.
E agora, Ventura? É que é muito fácil ser-se contra
privilégios quando não se passa da porta, mas bem mais difícil é sê-lo já
sentado à mesa, não é?
Este será mais um teste do algodão, soro da verdade. Que o
Tribunal Constitucional não passa de publicidade enganosa já se sabia... Que
ele mesmo pode confirmar que o Chega também o é, constitui uma ironia sublime.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 1 de abril de 2026

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