ONU: Escravatura é o "crime mais grave contra a humanidade"
A
Assembleia-Geral da ONU aprovou uma resolução que declara o tráfico de
africanos escravizados e a escravatura racializada como o "crime mais
grave contra a humanidade" e defende reparações históricas
O texto, apresentado pelo Gana e copatrocinado por dezenas
de Estados-membros da ONU, obteve 123 votos a favor, três contra e 52
abstenções. Votaram contra os Estados
Unidos, Israel e a Argentina.
À assembleia, antes da votação, o presidente do Gana, John
Dramani Mahama, um dos principais arquitetos da resolução, sublinhou tratar-se
de um passo em direção à cura e à justiça
reparadora: "Este projeto de resolução atual é o resultado de
meses de consultas e construção de consensos por órgãos continentais, países,
especialistas, académicos e juristas, com o único objetivo de alcançar uma
frente unida e fundamentar o resultado final na verdade, na compaixão e na
consciência moral, na memória, na educação e no diálogo.”
E nesse âmbito afirmou: "Assim, hoje reunimo-nos em
solene solidariedade para afirmar a verdade e seguir um caminho de cura e
justiça reparadora".
Pedido de desculpas
O Gana justificou a resolução, apontando que as
consequências da escravatura ainda persistem, incluindo nas disparidades
raciais. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Gana, Samuel Ablakwa,
salientou que a história, a verdade e a justiça não desaparecem com o tempo.
"Lamentavelmente, tecnicalidades jurídicas e argumentos
processuais têm sido invocados para, mais uma vez, silenciar vozes, enterrar a
história, obscurecer a clareza e impedir que esta nobre instituição se
pronuncie de forma direta e justa", disse.
E Samuel Ablakwa sublinha a necessidade justiça: "Mas a
história não desaparece quando ignorada. A verdade não enfraquece quando
adiada. O crime não apodrece, como dizemos em África. E a justiça não prescreve
com o tempo".
A resolução aprovada insta os Estados-membros da ONU a
considerarem um pedido de desculpas completo e formal pelo tráfico de escravos
e a contribuírem para um fundo de reparações. Até agora, só os Países Baixos o
fizeram.
Resolução pede medidas de restituição
Por sua vez, o secretário-geral da ONU, António Guterres,
defendeu que são necessárias ações mais ousadas para enfrentar as injustiças
históricas: "Nunca esqueceremos as vítimas da escravatura. E nunca devemos esquecer o sistema malévolo que a sustentou durante tanto tempo".
Guterres saudou "as iniciativas de alguns países para
pedirem desculpa pelo seu papel no mal da escravatura e para se envolverem num
diálogo honesto" sobre as suas consequências duradouras. Contudo sublinha:
"Mas são necessárias ações muito mais audazes por parte de muitos outros
Estados".
A
resolução pede medidas de restituição, compensação, reabilitação e mudanças
legais e institucionais para combater o racismo sistémico, e apela à devolução
imediata e sem custos de bens culturais e arquivos aos seus países de origem.
Rejeição
Apesar do aumento dos apelos por reparações nos últimos
anos, cresce também a oposição: líderes ocidentais rejeitam responsabilizar
Estados atuais por erros históricos. O representante dos EUA, Dan Negrea,
afirmou que o país rejeita usar injustiças históricas como pretexto para
redistribuir recursos atuais.
"Os Estados Unidos manifestam forte objeção à
utilização cínica de injustiças históricas como meio de pressionar para a
redistribuição de recursos modernos a pessoas e países apenas remotamente
ligados às vítimas históricas", afirmou.
A representante da UE, Gabriella Michaelidou, levantou
“preocupações legais e factuais”: "Estávamos preparados para apoiar um
texto que destacasse a dimensão da atrocidade do tráfico transatlântico de
escravos, a importância da memória e a necessidade de continuar a combater a
escravatura nas suas formas contemporâneas. No entanto, o texto apresentado
levanta várias questões legais e factuais que não podemos ignorar".
Ao contrário do Conselho de Segurança da ONU, as resoluções
da Assembleia-Geral não são juridicamente vinculativas, mas refletem de forma
importante a opinião mundial.
Fonte: DW África, 26 de março de 2026
Os políticos que hoje ocupam cadeiras na ONU – num passe de mágica pouco honesto, situam o início da História no século XV. A partir desse artifício, disfarçam a própria inutilidade e incompetência, fingindo-se ocupados para justificar os vultosos salários pagos pela organização. Julgam o passado com superioridade moral civilizada e decretam que as gerações anteriores viveram “mal”, cometeram atrocidades, erros, crimes repulsivos. Propõem então a fantasia das “reparações históricas”, como se fosse possível corrigir retroativamente séculos de humanidade. Entretanto, mostram-se incapazes de agir diante dos crimes contra a humanidade que ocorrem sob os seus próprios olhos. Talvez deixem essa tarefa — a da indignação retrospetiva — para os seus bisnetos.

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