Estão todos ocupados a escutar as conversas telefónicas dos portugueses
“As escutas telefónicas estão hoje para a investigação criminal em Portugal como antes estava a confissão do suspeito: é a prova absoluta, o método rotineiro de investigação, o meio de prova mágico que dispensa o trabalho e a imaginação de todos os restantes.
Se o suspeito se descai numa escuta, há processo - sem necessidade de o
complementar com quaisquer outras provas convincentes; se ele não se descai,
não há processo - mesmo que abundem os indícios de crime, que não se procura
investigar por outra forma.
Não admira que a PGR e a PJ se queixem da insuficiência de meios humanos
para poderem evitar a escandalosa diferença entre processos abertos e processos
concluídos: estão todos ocupados a escutar as conversas telefónicas dos
portugueses. Este é apenas um dos problemas levantados pelas escutas. Mas há
pior e bem mais grave.
Eu, por exemplo, parto do princípio, hoje como no tempo da PIDE, de que o
meu telefone está sob escuta. Não porque seja suspeito de qualquer crime ou
tenha qualquer lição de ética a receber da polícia ou do Ministério Público.
Mas apenas porque eu, pelo meu lado, suspeito que o que era fatal que
acontecesse qualquer dia está a acontecer: as escutas tornaram-se também um
instrumento político nas mãos das corporações judiciais.”
Miguel Sousa Tavares, 2 de dezembro
de 2005 - a moda de ser contra a PIDE passou e a intelectualidade portuguesa,
num meio que muito agradaria ao Dr. Salazar, a Internet, defende o acesso
ilegítimo para contornar os protocolos legais que as polícias
obedecem
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