Cara de líder
“«Todo o ato», escreve Mircéa Éliade, «é capaz de se tornar
um ato religioso. A existência humana realiza-se, simultaneamente, em dois
planos paralelos, o do temporal, do devir, da ilusão e o da eternidade, da
substância, da realidade». No século XIX, a prova é feita, pelo divórcio brutal
dos dois planos, que foi preferível para o poder de manter a realidade num
banho de transcendência divina. E temos de fazer ao reformismo esta justiça:
onde Bonaparte falhou, ele conseguiu afogar o futuro na eternidade e o real na
ilusão; a união não vale pelos sacramentos do casamento religioso, mas ela perdura,
é o máximo que exigem dela os gestores da coexistência e da paz social. É
também o que nos compromete a nos definirmo-nos – na perspetiva ilusória de ilusória
da duração, à qual ninguém escapa – como o fim da temporalidade abstrata, o fim
do tempo reificado dos nossos atos. Deveríamos traduzir: definir-nos no polo
positivo da alienação como o fim da alienação social, como o fim da etapa da
humanidade na alienação social.”
“Banalidades de base”, Raoul Vaneigem

Comentários
Enviar um comentário