Wagner fez greve, Putin cedeu a Prigozhin ou à realidade?
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the Punch – James McAvoy
Passadas primeiras 48 horas da capitulação do líder do grupo
Wagner, nem os serviços secretos ocidentais nem os principais analistas se
atrevem a concluir o que se passou com a rebelião liderada por Prigozhin e
que levou as suas tropas até duzentos kms de Moscovo sem qualquer resistência
de registo e perante a incredulidade de todo o mundo.
Provavelmente tão cedo não saberemos o que se passou, se foi
uma manobra orquestrada pelo Kremlin para colocar um destacamento Wagner
na Bielorrússia, se se tratou de um golpe frustrado por um líder sanguinário
que queria um regime mais forte no ataque à Ucrânia ou se simplesmente se
tratou de uma espécie de greve do grupo Wagner a reclamar mais
financiamento, mais meios e mais realismo do Kremlin na guerra contra a
Ucrânia. Uma coisa
parece-me certa, o avanço de Prigozhin deveria ter alguns cúmplices bem
dentro do regime que à última hora terão recuado.
Depois da declaração de ontem de Putin ficámos a saber que
os mercenários do Grupo Wagner, apesar do golpe, estão perdoados e podem
integrar o exército russo ou regressar livremente à sua vida civil. Algo
estranho num regime tão duro como o russo que costuma ser implacável com os
seus opositores. Primeiro sinal de fragilidade estranha de Putin.
Só daqui a alguns meses, em função do que suceder aos
principais responsáveis do Ministério da Defesa russo e aos combatentes Wagner,
é que iremos saber se Putin cedeu às críticas de Prigozhin demitindo as
suas chefias militares, ou se irá matar ou prender os líderes da Wagner.
Se na sua declaração de ontem, Putin tivesse acrescentando à
“amnistia” aos Wagner a demissão do seu ministro da Defesa e do comandante
militar do seu exército, como exigia Prigozhin, então isso significaria uma
impensável cedência à Wagner e uma consequente leitura política de fragilidade
perante toda comunidade internacional, mas sobretudo um desastre político
perante a opinião pública russa. O que não quer dizer que num segundo momento
não venha a acontecer.
Ora, perante todos os factos já evidentes, arrisco
dizer que seja qual for a verdadeira explicação sobre os eventos dos últimos
dias, há forças
importantes da Rússia que já não temem Putin, que o Presidente russo está mais
fragilizado e que o seu poder já não é incontestável. Sendo Putin um
falcão, esta “solução pacífica” revela fragilidade, e não compaixão ou
compreensão, qualidades jamais encontradas no ex-membro do KGB. O problema é se
a fava deste recuo sair à Ucrânia e daqui resultar um incremento do esforço de
guerra russo.
Ao permitir o ingresso dos soldados da Wagner no exército
russo, Moscovo recorre às estratégias que raramente tiveram sucesso em alguns
países após guerras civis, a integração dos soldados rebeldes nos exércitos
regulares. Na maior parte desses casos, os regimes passaram a pagar uma pensão
a esses ex rebeldes para se manterem quietos e longe das armas, sendo raros os
casos de plena integração.
Apesar de todas as piadas já feitas sobre o tema, creio que
a tese da greve não deve ser descurada e a ser assim tratar-se-ia da primeira
vez que um grupo de mercenários faz greve em pleno campo de batalha. Mas sendo
o grupo Wagner muito mais do que um grupo de mercenários, e sim um braço
armado político, económico e militar do regime russo, uma espécie de
força não oficial para trabalhos à margem da Carta das Nações Unidas, resta
perguntar o que vai acontecer com as ações económicas criminosas deste grupo em
alguns países em conflito que passam pela recolha de ouro, prata ou diamantes
que enchem os bolsos tanto a oligarcas como ao regime de Putin. Vão
nacionalizar tanto a Wagner como as suas empresas satélites de fachada? Isso
significa perder a face e assumir de vez que as suas ações são iniciativas
encapotadas do Kremlin, como todos já sabemos.
Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos pois só a
história nos dirá o que realmente aconteceu ou esteve para acontecer.
Fonte: Duarte Marques, Expresso, 27 de junho de 2023

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